Etnografias dos Invisíveis

Um olhar sobre os olhares nas representações dos Moradores de Rua

Notas iniciais

As sociedades e as cidades são redescobertas a cada novo olhar. Nessa história dos olhares, desde o começo do uso da fotografia, temos um registro que manipula a realidade a partir de um ponto de vista, a partir de um determinado conjunto de técnicas e enquadramentos que desenham a luz das mais variadas formas. A fotografia ao longo dos mais de duzentos anos de existência, tem se tornado uma das ferramentas de estudo antropológico, urbano e social das cidades e suas histórias. Uma das vertentes que estuda a sociedade, através do registro fotográfico, é chamado de Etnofotografia. Dentro desse campo, não só é possível traçar uma narrativa histórica do que foi fotografado, mas também da própria técnica de registro que percorre os anos, como se olhássemos o olhar. Um meta-estudo fotográfico. Empresta-se o termo da antropologia, para que seja possível traçar um paralelo entre o estudo que envolve a constante modificação urbana e os moradores dessas cidades. Porém, propõe-se aqui, um olhar diferente sobre o registro atual.

Partindo do ponto de que a fotografia mostra apenas o que estava “em quadro”, o que está fora dele compõe uma narrativa colateral, que quando é registrada, normalmente é posta em singularidades, como acontecimentos quase caricatos. É o caso dos Moradores em Situação de Rua, os ‘mendigos’ das cidades. Esses moradores caminham e vivem pela cidade, traçando outras geografias e outras composições espaciais, no que se refere ao fato de habitarem um local público, normalmente escuro ou escondido, além de não desenvolverem uma estabilidade espacial. Ficam à mercê do cotidiano, sendo expulsos e reabitando outros espaços. O registro histórico e fotográfico dessas pessoas, também ficam a cargo do olhar de outros pontos de vista, que não os seus. Na maior parte das vezes, os Moradores em Situação de Rua não gostam de serem fotografados nem de serem expostos, justamente por não querer chamar atenção, por terem medo do que essa atenção pode lhes causar. Falamos de um poder público e privado que não oferecem um projeto social que seja condizente com a situação que eles se encontram. E mostra-los, também demonstra a incapacidade da cidade e das instituições de absorverem essa parte da sociedade. Logo, acabam sendo registrados apenas pela mídia, sob o olhar sensacionalista e espetacular. Registra-se o que está fora do quadro, fora do bonito. Registra-se o invisível, sob o olhar formal da cidade. O artigo a seguir é um breve estudo sobre esse registro, a partir de uma perspectiva técnica e social dessas fotografias.

Uma distância necessária

A distância na fotografia é uma das premissas e condicionantes principais na elaboração da foto. Utilizar essa distância também suscita diversas estratégias visuais que se pode lançar mão no registro de uma determinada cena. Porém, a palavra ‘distância’ pode ser mais abrangente em seu significado, que uma distância espacial de um ponto a outro. E essa reflexão inicia uma das maiores contradições que se pode encontrar no estudo do registro dos moradores em situação de rua nas metrópoles. Fala-se aqui de uma distância antropológica, que abrange o sentido social, espacial e temporal.

A fotografia etnográfica tem seu importante papel na história pela perpetuação visual de determinadas culturas. Através desse registro é possível observar o ambiente, o vestuário, traços culturais entre outros pontos de culturas distantes. As vezes, inclusive culturas próximas, como povos amazônicos indígenas que estabelecem pouco contato com a nossa realidade urbana de propagação de informações. Logo, conclui-se que a distância, é mais que uma metragem medida, e sim uma necessidade para que o registro faça sentido.

Figura 1 -Esquimós — Jimmy Nelson, 2015

Aqui insere-se a reflexão latente que a fotografia de moradores em situação de rua pode trazer. Seria válida seus registros, enquanto um estudo foto etnográfico? O objetivo aqui não é chegar numa resposta objetiva desse questionamento, e sim explorar sistematicamente essa suposta exploração de imagem que se poderia fazer.

Se considerarmos o conceito de ‘distância’ como diferença espacial, geográfica, métrica ou até mesmo urbana-natural não conseguiríamos estabelecer um argumento, ao se tratar do registro das pessoas em situação de rua. Uma das únicas distâncias reais seria a distância econômica que a cidade impõe. Os moradores em situação de rua são resultados diretos das políticas públicas (ou falta delas) tal como o sistema excludente. Mas a incapacidade do sistema público se aproximar de uma forma coesa, no desenvolvimento de propostas que impeçam ou lidem com a situação de rua, e a proposital ignorância do sistema de mercado privado em relação às pessoas nessa situação, os transformam em sinédoques[1] urbanas. Personagens caricatos que caminham no escuro, que às vezes são fotografados com o ISO alto, para que não sumam na escuridão dos viadutos, e as vezes são registrados como parte da textura urbana. Vivemos a espreita da absorção do mercado. Há de ser produtivo para sobreviver o sistema econômico. Se não produzimos não somos vistos. E o que não é visto, é resumido em uma imagem que trate a parte pelo todo. Na imagem 1, vemos os esquimós, e a partir de não mais que uma dúzia deles, criamos um imaginário sobre sua cultura. Nesse caso temos a distância necessária, possível, de realizar essa observação. Na imagem a baixo, a operação mental é a mesma, porém não temos a mesma distância. Caminhamos as mesmas ruas, vivemos na mesma cidade e dividimos por vezes quase o mesmo endereço. No entanto, a mesmo atalho é tomado, e tomamos a parte pelo todo. A metonímia metropolitana de um morador de rua, é essa. Um homem negro, com as expressões cansadas, roupas velhas sentado na cidade com um cachorro ao seu lado.

Figura 2 — Edu Leporo, São Paulo, 2016

Essa reflexão representa um dos grandes riscos que o procedimento fotográfico, enquanto etno-documentação de um determinado grupo de pessoas pode trazer. André Rollie sugere, que “desde o início, todos os procedimentos de inventário, de arquivamento e, finalmente, de submissão simbólica obedecem a uma verdadeira compulsão de exaustividade, a uma veleidade de registro total do real. […] A representação pretende, aqui, a conquista integral do visível, como um eco do que acontece, nesse momento, na cena econômica )a expansão das leis de mercado e concorrência) e na cena mundial (a aceleração do processo de colonização). No caso dos moradores de rua, a “metonimização” de um grupo social em uma imagem que o resumisse poderia constituir a “colonização do invisível”. O domínio sobre como são representados aqueles que se escondem por entre os pontos escuros da cidade.

Imagens dos invisíveis na imprensa

“Quando a fotografia nasceu já existia a imprensa. Mas, apesar de as primeiras imagens fotográficas terem sido obtidas por Nicéphore Nièpce entre 1816 e 1828, ainda levou um tempo para que a imprensa adotasse correntemente o uso das imagens produzidas na câmara escura.”[2] Desde então a prática de conjunto entre as palavras e as fotografias assumiram um papel fundamental na propagação de notícias pela mídia. Com o tempo, inclusive novas expressões ganharam força como “Foto de Capa”, “Primeira Página” entre outros jargões da imprensa. Tudo isso ajudou a construir um espetáculo midiático que é produzido e consumido diariamente. Porém, existe um jogo perigoso que é jogado nessa esfera noticiaria. Olhamos as fotos no jornal, e tiramos conclusões sobre elas, como se elas fossem imagens que falassem por si só. O que especula-se aqui que elas falem também pelo fotógrafo que a consolidou. “Há uma subjetividade atrás da objetiva, todo um trabalho de mostrar [monstration] e de seleção atrás da imagem retida entre milhares de outras possíveis e mostrada em seu lugar, um complicado jogo de fantasias, de interesses e por vezes de acasos: por que [mostrar] este país, este acontecimento […]” (WOLFF, 2004, p. 44). As palavras de Wollf traduzem uma das grandes problemáticas do estudo antropológico, se considerássemos a fotografia como ferramenta principal da análise, dispensando a meta-análise inclusive de quem fez o registro. Mais do que uma ferramenta de representação, e bem mais profunda, a fotografia é um “instrumento de análise e interpretação do real” (DUBOIS, 1992, p. 34).

A pobreza urbana é registrada diariamente por meio da imprensa. Num mundo onde a informação atingiu níveis muito rápidos de propagação, a quantidade de imagens e fatos que nos atingem é muito maior do que a nossa capacidade de absorve-las. Portanto, as imagens da imprensa, feitas para consumo imediato, devem seguir uma regra clara e direta — ganhar a atenção sobre as outras — o que nos coloca sentados num teatro de cenas muito rápidas, entrando e saindo do palco. Ao sair do teatro, (ou da leitura de um jornal, blog, rede social ou outro meio de comunicação) o que contaremos sobre a peça, será certamente as imagens que nos chamaram mais atenção. Retomando o mote principal do artigo — os moradores em situação de rua — há de se considerar que quando uma situação atinge um grau de cotidianidade alto, ao vê-la em uma página de um jornal, não nos causará mais ou menos atenção por ser uma imagem de alto reconhecimento no imaginário diário. Eis que a narrativa sobre a imagem ganha forma, e a imagem estática e caricata, como foi explorada no item anterior, ganha a característica de acontecimentos fora do círculo vicioso de imagens “a caça a imagens mais dramáticas (…) comanda a empresa fotográfica, e faz parte da normalidade de uma cultura na qual o choque se tornou no principal estímulo ao consumo e uma fonte de valor” (SONTAG, 2003, p. 30).

Dentro dessa perspectiva, é possível elencar duas formas principais de representação de um morador urbano em situação de rua pela imprensa. A primeira dela caracteriza-se pela imagem caricata, descrita antes. A construção dessa imagem, é muito anterior a foto, portanto não se existe uma preocupação excessiva com as características formais da foto, e sim, na mera representação do que remete ao estereótipo, ao imaginário pré-construído.

Figura 3 — Pesquisa sobre Imagens contidas em Notícias, no Google.

Essa primeira forma de representação é facilmente confirmada através dos mecanismos de pesquisa de sites como Google, Bing, Yahoo. Ao ajustar o filtro para ‘imagens contidas em sites de notícias’ digitando a expressão “Morador em situação de rua” ou “Morador de rua”, analisamos que o modelo principal de representação é dado numa repetição excessiva da fórmula apresentada anteriormente — um homem, negro, sentado com um animal de estimação ao lado — salvo exceções de imagens que acabam compondo a bricolagem digital automática derivada dos sites de pesquisa.

A segunda, e até mais cruel, representação que se pode elencar como as principais formas com as quais os veículos de informação veem representando os moradores em situação de rua, poderia ser descrito como “deixar o que não é visto fora da foto”. Embora possa parecer uma estranha forma de falar sobre o assunto, é possível identificar em muitos veículos de informação, quando trazidas fotos nas notícias, a estratégia de falar sobre os moradores de rua sem mostra-los. Valeria ainda ressaltar que, dentro de uma análise técnica, inclusive as fotos escolhidas para compor a manchete, também não seriam representações de exímias técnicas fotográficas. Apenas representa-se o que não é visto, de forma invisível.

Nos exemplos é possível verificar a inexistência de qualquer “morador de rua” fotografado, mesmo que o sujeito de todas as frases de impacto presentes nas notícias. Talvez aqui, possa ser verificado um conflito imagético entre as duas principais representações de moradores em situação de rua que a mídia traz. Uma delas, é uma imagem quase lírica, simpática e sofrida da condição humana. A outra, é de uma “patologia urbana” causadora de problemas e sujeito de frases sobre violência. Para concluir esse tópico, questionamento inicial do texto, numa análise histórica de fotografias para meio de estudo, como poderíamos excluir do conjunto de imagens, as imagens que excluem a própria imagem que representam. A invisibilidade latente com a qual a imprensa e o olho fotográfico são capazes de excluir, surge como uma tarefa do observador, ou do spectator, como diria Roland Barthes, terminar de completa-la. A dissonância entre a imagem humana construída e a imagem midiática reconstruída consolidam a invisibilidade dos moradores em situação de rua.

Observações finais

Se antes o título do artigo — Etnografias dos Invisíveis — tendia a leitura inicial à palavra Etnografia, como espinha dorsal narrativa da exploração em questão, a frequência com que a palavra foi sendo usada ao longo do texto diminuiu. Tal estratégia de escrita foi elaborada para deixar mais visível, em questão de conteúdo, as questões invisíveis nos estudos fotoetnográficos que dispomos para análise cotidiano. Ainda que, não o façamos, enquanto antropólogos, aquela primeira tentativa de apreender características de povos distantes, afim de aproxima-las nas mesas de estudo ainda se fazem muito presente no dia a dia. Fala-se sobre assuntos dos quais, a distância entre o fotógrafo e quem olha para a imagem é muito menor que a capacidade de absorção do problema retratado por qualquer um dos dois. Portanto ruma-se para os caminhos mais fáceis, onde das duas estratégias apresentadas, a principal semelhança é a falta do indivíduo. A falta da proximidade necessária para que a empatia ocorra, sem ser em relação ao que podemos ver em qualquer imagem. Quem morreu nas notícias? A resposta que é pensada instantaneamente por quem consome as mídias e as fotos veiculadas é, normalmente a mesma. “Um morador de rua, negro, que provavelmente estava envolvido com drogas e andava com um cachorro ao lado”. A perda da singularidade nos transforma em espectadores tão caricatos, quanto as representações que consumimos.

[1] substantivo feminino | estl ret tipo especial de metonímia baseada na relação quantitativa entre o significado original da palavra us. e o conteúdo ou referente mentado; os casos mais comuns são: parte pelo todo: braços para a lavoura por ‘homens, trabalhadores’; gênero pela espécie ou vice-versa: a sociedade por ‘a alta sociedade’, a maldade do homem por ‘da espécie humana’; singular pelo plural ou vice-versa: é preciso pensar na criança por ‘nas crianças’. Fonte: Dicionário Aurélio — 2013

[2] Os usos da fotografia pela imprensa, BARCELOS, Janaina, 2013

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