A primeira resignação

Foto: Felipe Van Deursen

No dia 19 de agosto de 2017, caminhei pelas ruas de pedra de Cartagena das Índias tomada por um encanto emudecedor.

Havia passado a noite anterior lendo Ojos de Perro Azul, e um dos contos de García Márquez que não saía de mim era “La terceira resignación”. Escrita em 1947, a peça narra a história de um menino que, em decorrência da febre tifóide que teve quando criança, é colocado em um caixão e assim permanece por quase duas décadas. Aos 25 anos, ele se revolta com o próprio corpo apodrecido, quer viver e crê na própria viva. Mas ninguém mais acredita que o menino enjaulado no caixão esteja vivo e ele acaba morrendo, resignado de que, talvez esteja mesmo morto. Enquanto lia esse conto, eu também completava 25 anos. Estava de férias na Colômbia e tinha escolhido passar a
virada perto daquele mar que tanto li pelos relatos de Gabo. Ao contrário do menino, eu tinha tudo para estar viva.

Se ousasse reclamar, o mundo gritava de volta(com razão)que eu tinha saúde, era repórter da revista que sempre sonhei em trabalhar, minha família estava bem, tinha bons amigos, namorava o homem que eu amava, era amada de volta. Em tempos tão sombrios, não tinha dívidas, minha espiritualidade transcendia imposições religiosas, não estava sendo processada ou perseguida. Era branca, heterossexual, estava tirando férias remuneradas. Tinha vergonha de me ouvir pensando em voz alta que todos esses escudos não bastavam para conter o que sentia. Apesar de nem sempre ter sido desse jeito, eu tinha consciência das minhas incontáveis sortes e privilégios. Mesmo assim, lutava contra algo que degringolava dentro de mim.

Felipe, meu companheiro, assumiu o planejamento da viagem. Foi ele quem fez o roteiro, procurou as passagens, levou o guia debaixo do braço para todos os lugares de La Heroica* e me puxou pela mão. Eu queria muito estar lá. Mas, por diversos momentos, fui apenas a pessoa que caminhava ao lado dele, que saía em busca de uma garrafa d’água para aplacar o calor cartageñero. Tal qual o menino de Ojos de Perro Azul, estava presa na minha própria jaula querendo viver. Eu, que nunca tive problemas para adormecer, me revirei na cama ao longo de diversas noites questionando a forma como gastava meus dias. Não é possível que seja só isso. Talvez tenha sonhado alto demais.
Sou eu que não aguento o tranco. Ainda dá tempo de trocar de profissão. Não é possível que seja só dormir acordar trabalhar dormir e acordar. Por que não consigo estar presente. Se eu começar uma nova faculdade agora, vai levar uma década para tirar férias de novo. O que eu tinha na cabeça quando inventei de morar em São Paulo. Se alguém precisar de mim, nunca vou conseguir chegar a tempo. Ainda bem que eu saí da cidade onde cresci. Até aqui eu sabia o que fazer, mas e agora. Não quero ser levada. É só isso?

Ao acordar das poucas horas de sono que precederam a manhã do meu aniversário, tentei impor minha presença a mim mesma. Levantei da cama assim que vi o sol começar a inundar as cortinas, parei diante do espelho à procura de um novo rosto para aquele dia. Queria estar em Cartagena, apesar de saber que minha mente também era escaldante, real e mágica. Quis cobrir os subjuntivos com as mesmas combinações improváveis de cores que cobriam os sobrados da cidade, fechar o calabouço das inquietações com a mesma madeira náutica daqueles portais, aproveitar as largas pedras da muralha para me esconder das inseguranças que cresciam como ervas daninhadas adubadas por ordens mal dadas. Talvez soubesse que essas e outras ebulições seriam cozidas por mais alguns meses para então serem despejadas em um consultório psiquiátrico. Meu aniversário era também meu indulto. E eu queria vivê-lo.

Escolhi o vestido mais florido, enchi o prato de arepas e frutas, cumprimentei todos os vendedores ambulantes que tínhamos ignorado no dia anterior, cedi e comprei um chapéu, me perdi o bastante para conhecer todas as praças do interior da cidade murada, sentei-me para um mojito em cada bar que ostentava placa de drinque em dobro, brinquei com cachorros de rua, gargalhei do imitador de Michael Jackson que dançava vallenato e reggaeton, queimei os ombros, o nariz e o peito dos pés, vi o sol se por na muralha, tomei banho de chuva, e voltei para o hotel com a água do alagamento nas canelas.

Tudo na cidade me parecia ancestral, premonitório, assombrado. Como se os limões que foram espremidos na bebida tivessem sido colhidos de alguma árvore bíblica, os gatos malhados que surgiam por entre as casas e nos acompanhavam na peregrinação dos pontos turísticos emergissem da Cartagena de um outro tempo, os moradores nos acenassem sabendo o que nos esperava depois dali, a poeira que impregnava nas sandálias carregasse bichos de pé paleozoicos. Temia que à noite os antigos moradores do hotel que antes fora uma casa de família aparecessem no meio do quarto reivindicando a posse de seu lar, que os cavalos que puxavam as charretes para europeus alaranjados pelo sol caribenho virassem pó, que as mangas frescas vendidas em todas as esquinas me passassem alguma doença há séculos erradicada. Ali, a gravidade não parecia ter muita relevância e a chuva chovia de baixo pra cima até inundar toda a cidade — e todos os que nela pisavam.

Estava inundada. Dei-me um indulto jurídico, burocrático, mundano para adormecer minhas angústias. Em troca, recebi o indulto da clemência — um recado de que o que é surreal e imaginário é tentar fugir de si mesmo. Talvez a cidade que perdeu a conta das invasões estrangeiras e de quantos saques de piratas já sofreu não seja o melhor lugar para brigar. Voltei anistiada. Heroica, mesmo sabendo que, depois que minha pele voltasse para a habitual falta de saturação, a insurreição iria estourar.

Foto: Felipe Van Deursen

*Em agosto de 1815, quatro anos depois de o país se declarar independente da Espanha, Cartagena sofreu um dos maiores ataques de sua história. Passou cinco dias cercada por terra e mar, atacada com tiros de canhão, sem água e sem comida — a investida foi uma tentativa do militar espanhol Pablo Morillo de reconquistar a posse daquele território. Mais de quatro mil habitantes morreram, quase a totalidade da população da época. Depois do episódio, a cidade ganhou o título de “La Heroica”.