Catequese no metrô

Crédito: Esse Mundo é Nosso

— Água ou suco de laranja?

— Água, por favor.

Peguei o guardanapo das mãos da aeromoça e levei-o até as lágrimas que saiam do anonimato dos meus óculos escuros e contornavam as maçãs do rosto até a boca.

Salgadas como o churrasco do meu avô, pensei.

Momentos antes do embarque, enganara a família com uma tranquilidade de sorrisos fáceis tão falsos quanto a vontade de ir embora da minha cidade natal. Para poupar sofrimentos desnecessários e fazê-los crer que estava melhor longe do que ali, nunca chorava. Em seis anos de idas e voltas, nunca arriscara um beicinho. Mas a despedida daquele final de semana testou minhas habilidades de atuação.

Os rostos sem conchas azuladas debaixo dos olhos. A prosa despretensiosa e sem afetação. As sinaleiras que mal formam filas. A comida barata e saborosa. As crianças com infância. O relógio moroso da praça central. Os cinco minutos de casa ao trabalho e os poucos quilômetros entre a casa dos amigos, minha antiga casa e o resto que importa da cidade trincaram meus ideais de vida cosmopolita.

Durante todo o voo de volta a São Paulo, chorei minhas ilusões bucólico indianistas. Desembarquei na terra sem palmeiras, sabiás, quero-queros ou erva-mate, com o rosto inchado e uma mochila pesada nas costas. Teria, a partir de Guarulhos, outra viagem até em casa, dessa vez mais ativa e sem babá para oferecer suco. Ônibus, metrô, linha vermelha, linha amarela, linha verde, casa.

Na primeira parte do trajeto, continuei aumentando a vermelhidão dos meus olhos e a coriza do nariz. Me distraí apenas com os trejeitos do homem a minha frente que coçava a barriga e sugava insistentemente a saliva para o fundo da boca. Cheguei a achar que aquilo fosse piada, imitação de algum tipo que não conheço, mas o homem se levantou quando chegamos à Sé e ninguém riu. No lugar dele, uma mulher de cabelos cacheados sentou no assento de idosos.

O aviso de fechamento de portas nem tinha sido dado quando senti a mão dela em uma das minhas pernas.

— Tá tudo bem, moça?

— Tá sim — respondi forjando o mesmo sorriso cretino que sorri aos meus pais horas antes.

— Você acredita em Deus?

Compadecida pela boa vontade dela em me ajudar e pela preguiça de explicar que não acreditávamos nos mesmos conceitos de fé e de divindade, tentei facilitar o diálogo para evitar a catequização:

— Acredito, acredito sim.

— Então você acredita em Jesus, filho de Deus? — perguntou em vários decibéis acima dos que havia feito as primeiras perguntas.

Pronto, seria pastoreada ali mesmo. Seria o boi de piranha para chamar a atenção do restante do vagão.

— Acredito — disse baixinho.

— Eu não ouvi direito, fale mais alto — ordenou estendendo os braços sobre minha cabeça.

A essa altura, nenhum outro passageiro olhava para a tela do smartphone. E eu, em pânico, rezava mentalmente para que as portas da República se abrissem e pudesse sair daquele remake de Show da Fé.

— Acredito, eu acredito! — respondi.

Fragilizada pelos pensamentos obsessivos da viagem e pela efusividade da intervenção, desatei a chorar, um choro doído e confuso por saber que aquilo aumentaria ainda mais os ânimos da pastora.

— Minha filha, quando chegar em casa se ajoelhe em frente a cama e fale com ele! Só ele pode te ajudar! Só ele pode te ouvir! Nenhum homem sobre a terra será capaz de te ajudar!

Incapaz de responder, continuei contraindo os músculos do rosto e transformando toda a água do meu corpo em lágrimas. Agradeceria a sugestão se ela não estivesse gritando, mas naquele momento só consegui assentir com a cabeça.

De tanto pedir, a República chegou. Sinalizei que sairia do vagão e ela me fez prometer que seguiria o conselho. Prometi. Me abraçou e disse mais algumas palavras sobre Jesus. Agradeci. De fato, ela tinha mudado o meu dia.

Segui na plataforma até a linha amarela, cambaleante pelo peso da mochila e pela performance que acabara de participar. Entrei no trem, acomodei a bagagem. Ao meu lado, um casal falava sobre os detalhes de uma balada da Augusta que haviam ido na noite anterior. Percebi que os dois me olhavam.

— Tá tudo bem, moça? — perguntou ele.

Não era possível. De novo? Estávamos em São Paulo, a maior cidade da América Latina. Tinha me mudado pra cá convencida de que ninguém desse bom dia no elevador, chamasse o porteiro pelo nome, conversasse no ônibus ou se solidarizasse com a dor dos outros no metrô.

— Tá sim — respondi forjando o mesmo sorriso cretino que sorri à pastora minutos antes.

— Mesmo? — insistiu ele.

— Mesmo. Nada que um chá quente não resolva.

Sorrimos os três. Eles continuaram os relatos da madrugada na Augusta. Descemos do vagão na Paulista. Eles, sem mochila, subiram as escadas mais rápidos que eu. Antes de sumir na encruzilhada da baldeação com a linha verde, ele gritou:

— Troca o chá quente por uma cerveja gelada!

Acenei para confirmar a dica e fiz o resto da caminho rindo. Esqueci das sinaleiras, das crianças, das olheiras, do relógio da praça central. Liguei para casa confirmando se tinha cerveja, restavam três na geladeira. O suficiente para que as outras moradoras brindassem a sugestão comigo.

Se encontrar com a pastora e o casal da Augusta no mesmo dia não foi o bastante para conter minha saudade de casa por muito tempo, pelo menos reascendeu a vontade de ficar nessa nova casa por mais algum tempo e me perguntar a mesma pergunta sem resposta que me perguntei quando subi pela primeira vez ao Terraço Itália: São Paulo, como tão grande, tão louca, tão linda, tão feia, tão sóbria, tão ébria e tão longe? Tão cheia de gente.