Bruno Borges, o menino do acre, estudante de psicologia e meu filho.

O Bruno sempre foi uma criança muito doce quando era pequeno. Adorava ler e contar estórias que ele mesmo inventava em sua cabeça. Nós achávamos engraçado esse talento natural que ele tinha para leitura e o teatro. Parecia que tinha nascido com ele. Ficamos orgulhosos de ter um filho tão culto na família. Aceitávamos ele assim, como ele era. Acredito que ele entendia isso e teve uma infância feliz. Era um menino muito criativo, desde bem novo, isso chamava atenção das pessoas por onde ele passasse.

Com o tempo e a idade avançando, algumas das estórias que ele inventava começaram a causar problemas com os coleguinhas da escola. Mas nada que fosse muito sério, ou fora do normal para uma criança daquela idade. É claro, nós ficamos preocupados com isso, ás vezes parecia que ele não sabia distinguir a fantasia da realidade. Resolvemos consultar um médico, que prontamente nos tranquilizou e disse estar tudo bem. E então ficou, pois vocês sabem como é criança, né? Adora inventar! Pensamos ser coisa da idade e que passaria com o tempo.

De certa forma pensar isso nos confortou, ainda mais quando na adolescência tudo parecia ter normalizado. Bruno era o primeiro da turma, sempre muito estudioso e dedicado à escola. Um garoto exemplar. Era assim que ele era.

Nosso filho nunca nos causou nenhum tipo de problemas costumeiros daquela idade, problemas que pensávamos serem comuns na adolescência. E nós até nos preparávamos para eles quando viessem. Mas nunca vieram.

Nós nunca tivemos que buscá-lo bêbado em alguma festa, pois havia brigado com algum colega, ou estava com porte ilegal de drogas. Bruno nunca foi preso por dirigir embriagado. Nem sequer recebemos uma multa de trânsito que fosse sido causada por ele. Parecia não haver margem para erros. Era um menino equilibrado, com objetivos traçados para alcançar o que ele queria: ingressar na faculdade e poder exercer a profissão que escolhera.

Nós eramos pais muito orgulhosos. Ainda somos, acredito. Apesar de todo o ocorrido. Eu era uma mãe muito feliz. Muito realizada com o sucesso do meu filho. Pensara conhecer ele exatamente como era. Afinal, sempre fora aquele menino alegre e espontâneo que tudo dizia na infância. Não importava o que pensasse, ou se era certo ou errado para nós, ele dizia. Dizia tão inocentemente e sem medo de ser julgado.

Nós tínhamos uma relação tão boa. Eu pensava que qualquer problema que ele tivesse ele sabia que podia contar conosco, sabe? Porque afinal, ele sempre foi assim. De falar o que pensava, doa a quem doer. Mas será que ele sabia? Eu nunca disse. E talvez agora eu nunca saiba. Mas eu prefiro acreditar que ele sabia. E guardar essas lembranças de quando nós ainda nos entendiamos, ou achávamos que sim.

Não sei dizer quando foi que tudo isso mudou. Tampouco sei dizer quem é meu filho agora. Parece que todo mundo tem uma versão sobre ele. Uma teoria. Não sei o que pensar. Nem o porque do que aconteceu ter acontecido. Talvez nós só não conhecêssemos ele tanto assim quanto pensávamos. Ou tenhamos errado em não perceber o que estava acontecendo com ele.

Será que eu errei como mãe? Pensei. E ainda penso.

Hoje faz um mês que o Bruno se foi. Sumiu. Não sabemos ao certo se ele foi embora porque quis, ou se alguém levou ele de nós. Conosco só restaram os 14 livros escritos por ele, o vazio, a angústia e a saudade que essas 4 semanas sem saber seu paradeiro deixaram.

Bruno, se você estiver me lendo agora, eu queria que você soubesse que as obras que você deixou conosco, que fazem parte do projeto ou missão que você dizia ter e tanto quis ajuda de custo da sua família e não obteve, já começaram a ser descriptografadas durante esses 30 dias que vivemos sem você na nossa vida.

Meu filho, te peço desculpas de coração. Talvez por não perceber ou acreditar no tamanho potencial e capacidade que obtinhas de fazer algo tão singular. Espero, através desses livros, conseguir compreender um pouco melhor os motivos que levaram você a escrevê-los dessa forma e depois ir embora, e assim, também transmitir ao mundo a mensagem que você tanto queria.

Se algum dia você quiser voltar, as portas de casa seguem abertas para você e os nossos corações também. A mana e o mano estão morrendo de saudades e o pai não para de chorar de madrugada quando todos vão dormir. Já eu, quase nem durmo mais de angústia sem saber onde andas e se estás bem.

Nós te demos todo o amor e compreensão do mundo que nós tínhamos até o último dia em que você esteve aqui. Se erramos, foi somente por não poder dizer sempre sim e por fazer talvez com que você não se sentisse apoiado nesse projeto pessoal.

Tenho certeza que tudo isso que você criou nesses 20 dias em que nós não estávamos em casa tem uma explicação. Uma bem grande e muito boa. Tão boa que todos estão desesperados através de suas teorias e versões para encontrar. Mas a verdade só existe uma. E essa eu prefiro ouvir de você.

Meu filho, te espero, um dia, pra sempre.

Te amamos!

Sua mãe.