Poesia marcada na pele

Recebi a notícia pela manhã através de um colega de classe quando estava no primeiro ano do Ensino Médio, peguei meu celular escondido do professor e logo acessei o portal de notícias, contive as lágrimas, ninguém entenderia o motivo do choro.

Madrugada do dia 6 de março de 2013, falecia por overdose de cocaína Alexandre Magno Abrão, vocalista de uma das maiores bandas do rock nacional, o Charlie Brown Jr.

Chorão, apelido que ganhou ainda jovem por invejar as manobras de skate nas pistas do litoral paulista de Santos, deu início a uma geração. Em 1992, batizou sua banda de Charlie Brown devido a uma banca de mesmo nome, que vendia água de côco no qual ele esbarrou andando de skate, e Jr. por se considerar um filho do rock. Juntamente do baixista Champignon, os guitarristas Marcão e Thiago Castanho e o baterista Renato Pelado, lançaram em 1993 seu primeiro disco Transpiração Contínua Prolongada,vendendo mais de 500 mil cópias. Ao longo da carreira foram lançados 10 discos de estúdio, 2 álbuns ao vivo e 6 dvds ganhando em sua maioria certificado de Ouro e Platina. Seu último disco, o La Família 013 foi lançado em outubro de 2013, vendendo mais de 40 mil cópias. Realizaram turnês por todo Brasil e também no Japão, Estados Unidos e Europa, com shows característicos chegando a conter em alguns deles uma rampa de skate no meio da plateia.

Mais impactante que a morte, é a vida e era isso o que ele cantava em cada letra ou acorde de suas músicas, brindava a vida, os amigos e família, um dia de sol em frente ao mar e claro, sua musa inspiradora.

Isso me chamou atenção, ainda criança, morando em uma casinha de fundo na última rua de uma das vilas de Ponta Grossa. Uma cidade com 341 mil habitantes, a 98 km de Curitiba, chamada de Princesa dos Campos Gerais. Nasci e cresci lá, morava atrás da casa da minha avó, meu pai vendia e consertava computadores, o que era uma alegria para todos porque consertar um computador era sinônimo de ter a geladeira cheia. Em minha infância, eu saía da Escola Municipal Professora Alda dos Santos Rebonato e enchia os bolsos da calça do uniforme azul marinho de balas e doces enquanto ia visitar minha tia que morava do outro lado da vila. Passava minhas tardes lá, descia no campinho da rua de baixo para soltar a pipa que ela me ensinou fazer, colocava água com açúcar em um lugar alto e ficava admirada com a quantidade de beija-flores que apareciam por lá. Brincava na linha do trem que por algum motivo, possuía muita areia em volta, o que se tornou meu lugar preferido, por que areia me lembrava a praia de Ponta Negra em Natal, lugar em que morei por alguns anos antes de retornar ao Paraná. Com um calor de 30°C todos os dias, meu pai voltava cedo do trabalho e levava eu e minha irmã para praia que ficava do outro lado da cidade do sol, como é chamada. Andávamos muito a pé porque por vezes saía caro uma passagem de ônibus para quatro pessoas o que fez meus pais desistirem da ideia de construírem uma vida lá. Lembro-me do dia em que dei adeus ao mar, pensando que nunca mais o veria, peguei o máximo de conchinhas que eu pude e retornei ao frio do Sul apenas com um agasalho.

Enquanto eu brincava no quintal de terra da minha vó, meus primos escutavam a Rádio Mundi FM, a mais ouvida da cidade. “…fazer da vida o que melhor possa ser, traçar um rumo novo em direção ao sol”, esse era o verso do hit que embalava os anos 2000, Ela Vai Voltar. Foi a primeira música que ouvi da banda, peguei a escada de madeira do meu tio e subi até o último degrau, ficava sentada por horas lá em cima observando o sol.

Os anos foram passando, e minha vida mudou completamente, a empresa do meu pai cresceu, e o caminho se tornou próspero. “… meu pai um grande homem me ensinou como ser homem também” esse era o verso da musica O Preço que eu escutava todos os dias a caminho de casa depois de sair do colégio que ficava no centro. Eu gosto de andar de ônibus, sentar na janela e deixar o poeta falar comigo. Fico imaginando a inspiração de tantos versos cantados exalando o mais puro amor. E por falar em amor, em 2013 eu encontrei um, muito jovem, hoje eu reconheço isso. Mas por um tempo foi o que me trouxe felicidade. “que bom olhar pro lado e encontrar você, depois de tantas chances perdidas, eu quero esperar pelo amanhecer, quero ver o sol refletindo em você…” , meu coração disparava e as letras começaram a fazer sentido “pra tanta coisa que faz mal eu me disponho, quando eu te vejo eu começo a sorrir”. Eu estava crescendo, mal sabia o que seria da minha vida , mas sempre aprendi a sonhar “viver e ser livre”. Nunca permiti que me prendessem, todos temos que ter sonhos capazes de nos tirar do chão, voar alto e longe onde o coração guiar, por mais que quem parta também fique partido, é essencial viver em sintonia com o que sentimos. E de repente, o dia em que completei 17 anos, eu estava no meu quarto, agora na Vila Marina, e me olhei no espelho, senti uma angustia porque nada mais fazia sentido para mim. Meu namoro já não era mais um motivo de felicidade “eu olho pra você e vejo muito do que eu quero, mas o mesmo de você eu já nem mais espero, já não sei mais se quero”. Decidi mudar, acordei num domingo de manhã, respirei fundo e disse para meu pai que queria cursar a faculdade na capital. Quando as coisas são permitidas por Deus, não há nada no mundo que impeça. Comecei a lutar por mim mesma, e me vi sozinha. “Que bom viver e como é bom sonhar e o que ficou pra trás, passou e eu não me importei, foi até melhor, tive que buscar algo novo que fizesse sentido”, esses são versos de Lugar ao Sol, lançada em 2001, foi o segundo single do álbum 100% Charlie Brown- Abalando Sua Fábrica. Ela foi minha primeira tatuagem, bem na costela, uma dor insana, mas um motivo de orgulho para mim mesma porque cada verso dela retrata o que eu mais almejo na vida , que é a própria vida em si, representa todos os sentimentos bons e ruins que eu já senti. A Pamela na escola ou a Nicolle em casa, é o que me resume na forma mais pura: “livre pra poder sorrir, livre pra poder buscar o meu lugar ao sol”. E eu realmente busquei.

Curitiba, 2016

Eu mal podia acreditar que estava morando aqui, pronta para cursar Medicina Veterinária, com a ideia que tudo poderia ser diferente, mas o que eu não sabia e aprendi da maneira mais difícil foi que por muitas vezes o inimigo somos nós mesmos. “As circunstâncias se tornaram beco sem saída, seu orgulho te traiu e te jogou no chão e as cicatrizes dessa história mal escrita, se converteram no aprendizado da reconstrução”. Me doeu, inexplicavelmente sentir que ser médica não era para mim, eu realmente estava sozinha e por isso havia dias escuros em que eu não levantava da cama e os meus olhos doíam de tanto chorar, um misto de toda tristeza do mundo tomou conta de mim, eu chorava por quem eu era ao lembrar daquela criança correndo pelo campinho da vila, aquilo era liberdade. Orei a Deus tão fortemente naqueles dias que Ele logo veio com o socorro. Tive a chance de voltar para Ponta Grossa mas com uma dor imensa de ver todas as luzes de Curitiba cada vez menores enquanto me distanciava na BR-277. Não sei explicar o que foi aquele ano de 2016, com certeza o mais diferente da minha vida. Ao completar 18 anos, eu me descobri, porque pela primeira vez depois de muitos anos, eu olhei para mim mesma com bondade, sem procurar por imperfeições e reconheci que a vida poderia ter sentido de volta, “quem tem coragem se aceita como é, o futuro é um labirinto pra quem não sabe o que quer”.

Me refiz, tracei uma rota, já tinha jornalismo como segunda opção, e agradeço aos céus por estar fazendo esse texto hoje. Pintei o cabelo de loiro bem claro pra dizer que a mudança não foi só interna, tatuei um leão com um cocar na costela esquerda, representação de Deus como o leão da tribo de Judá. Sempre tive fé, lembro do meu batismo na Igreja Adventista do Sétimo Dia em 2011 no bairro do Rio Verde, em que ao estar de olhos fechados orando, senti alguém vindo em minha direção, abri os olhos, não havia ninguém. Mas sei que era Ele que estava ali e permitiu que eu O sentisse de uma maneira extraordinária. Então tatuei Getsêmani, no antebraço, exatamente no lugar em que as agulhas me perfuravam quando eu era criança devido aos muitos exames de sangue que eu fazia por ter anemia. É o jardim em que Jesus orou antes de ser preso e então crucificado, é um lugar que para mim significa redenção a Deus.

O ano virou e então chegou 2017. Novamente na capital, nova faculdade, nova casa, nova vida, novo eu.

Quando olho para mim e por tudo o que eu já passei, me faço apenas uma pergunta: “Como Tudo Deve Ser?”, minha quarta tatuagem, no ombro para que todos os dias eu a enxergue. Lembro-me de quando a escutei pela primeira vez, os acordes do baixo pareciam as batidas do meu coração porque entraram em uma sintonia inexplicável, é a musica mais linda do mundo e também me representa. Poesia, inspiração, vontade de viver e sonhar é o que ela trouxe para mim.

Sei que ainda tenho muito o que aprender, um caminho longo pela frente, sofrimentos virão, como sempre vieram, momentos de felicidade, também. Mas confesso que estou preparada “dias e noites pensando no que fiz, eu sou um vencedor eu lutei pelo o que eu quis, mas quando não se pode mais mudar? Tanta coisa errada, vamos viver nossos sonhos, temos tão pouco tempo”.

Agradeço a todos que cruzaram meu caminho, não sei o que eu signifiquei para cada um, mas com toda certeza de uma maneira direta ou indireta, me ensinaram. A ser alguém melhor, pois é isso que devemos buscar sempre, bondade é o caminho da paz, momentos intensos posso dizer que já vivi e me arrependi também, mas faz parte, errando, acertando, odiando ou amando, isso nos torna humanos, perdidos em nossa própria consciência, tudo o que eu desejo é luz. Obrigado Chorão por ser a trilha sonora da minha vida, obrigado Deus.

“Irmãos do mesmo Cristo, eu quero e não desisto. Caro Pai, como é bom ter porque se orgulhar, a vida pode passar não estou sozinho, eu sei, se eu tiver fé, volto até sonhar”.

- Pamela Lima

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