Minha infância tem sabor de Guaraná Jesus

Me lembro muito bem de como a minha família costumava passar o final de semana quando eu tinha uns seis, sete anos de idade. Não interessava o programa do dia — ir ao parque, andar de bicicleta na pracinha ou visitar a casa dos tios — domingo à noite era certo: meu pai iria fazer a massa do pão de queijo, minha mãe iria enrolar e eu, sentada no chão com os olhos vidrados no forno, iria comer a raspa da bacia suja enquanto assistia aquela maravilha se transformar na minha frente.

Mil vezes eu escutei minha mãe descrever, detalhe por detalhe, a cozinha da minha bisavó. Era quase um ponto de encontro do povoado, sempre cheia de gente, com o chão vermelho de terra batida. Panelas de ferro e tachos de cobre sobravam em volta de um fogão de lenha que vivia aceso e, no fundo, havia uma porta que dava direto no quintal-pomar. Reza a lenda que a bisa acordava cedo pra fazer o café já pensando no almoço; o almoço pensando no lanche, o lanche pensando na janta e a janta pensando no café do dia seguinte. No meio de uma refeição e outra, minha mãe fazia as tarefas da escola e aprendia a cozinhar com a melhor da região.

Quem conhece sabe que Guaraná Jesus é meio Brasil na ditadura militar: ame-o ou deixe-o. Com ele não existe meio-termo, não existe relativo, não existe aplicar a técnica do sushi (“vai provando que você aprende a gostar!”).

Ou tu ama ou tu odeia.

E o caso da minha família 100% maranhense é, claro, de amor.

Na época que esse néctar ainda era privilégio só nosso, a gente passava por uma pequena novela toda vez que alguém viajava pra lá. AI DAQUELE que ousasse voltar sem trazer litros e litros do sonho-cor-de-rosa-sabor-do-Maranhão. Num desses dias de fartura pós-viagem, ofereci um pouco pra minha cunhada, brasiliense de raízes mineiras, que depois de um único gole foi categórica: “uma bosta”.

Antes mesmo que eu pudesse digerir a insanidade daquelas palavras, ela completou: “vocês só gostam disso porque tem gosto de infância”.

Comida, muito mais do que alimento, é memória. Depois dessa reflexão dolorosamente forçada, percebi um monte de gostos atrelados às minhas próprias lembranças: odeio maracujá porque meu irmão ama e eu era obrigada a comer; fiquei um ano sem suportar ver purê de batata porque foi a única coisa permitida durante um mês inteiro de pós-operatório; adoro picolé de limão porque foi o jeito que encontrei de fazer companhia ao meu pai, que é intolerante à lactose e não come nenhum outro.

Do mesmo jeito, minha mãe pode comer no restaurante do Alex Atala e ainda vai achar a comida da avó dela a melhor do mundo. Além disso, até hoje ninguém lá em casa curte muito pão de queijo industrializado e eu sigo sem entender como alguém pode não gostar de Guaraná Jesus.

Em tempo: ontem, numa reunião de família do lado mineiro da força, tiraram da geladeira o Guaraná Golé, diretamente de Uberaba. Uma bosta.


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