Fundamentos de psicologia para discutir política
Frederico Mattos
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Oi, Frederico. Achei seu texto realmente enriquecedor. Você traduziu no texto algo que tem me deixado alheia a discussões políticas. Não importa se você é x, y ou z (coxinha ou petralha), o que se segue é uma verborragia de revolta / ódio, não importando o partido do seu interlocutor:

Exemplo 1 (partido X / partido Y)

-Oi, eu sou a Pamela e sou pró-partido X.

-E eu que achava que você era inteligente… Quer dizer que você concorda com essa roubalheira toda que eles fazem? Eu odeio esses Xs.

Exemplo 2 (partido X / partido X)

-Oi, eu sou a Pamela e sou pró-partido X.

-Ótimo, eu também. Eu odeio esses Ys, você não? Podia morrer todo mundo, você não acha? Hein?

Toda esta nuvem raivosa que paira no ar das discussões políticas vai muito além de “preocupação com o país”. É algo mais, é pessoal. É como se a política fosse um escape lógico e fácil pra se despejar todas as frustração de uma vida: não conseguir ter o carro que quer, não viajar pra Miami nas férias, entrar no cheque especial, não ter relações satisfatórias “por que precisa trabalhar demais”, “não conseguir” abrir um negócio. É a crise. É o governo. Pode ser… Mas e você? Quem fez suas escolhas profissionais? Quem escolhe suas relações? Quem gerencia suas contas? E seu tempo, quem gerencia? Quanto tempo, dinheiro e disposição você honestamente investiu nos seus sonhos? O governo tem servido como uma confortável desculpa para externalizar nossos problemas (a partir desta parágrafo, podem dizer que sou petista, não sou. E também não sou tucana). O governo é o segundo maior culpado pela miséria (financeira e emocional) de nossas vidas. O primeiro posto, eu diria, é ocupado pelos nossos pais e suas orelhas pra lá de quentes.

Igualmente preocupante é o status intelectual que a revolta tem. É socialmente esperado que você seja revoltado, stressado, cheio de certezas e cuspa opiniões nos outros pra ser considerado um cidadão inteligente, culto e bem sucedido. A não-revolta em uma discussão política, ou simplesmente permitir-se não entrar em uma, coloca o indivíduo no grupo dos alienados e o expõe às seguintes acusações: “Você vive numa bolha.” “Você acha que o mundo é cor de rosa.” “Você precisa ler jornal” “Em que mundo você vive?”

De alguma forma, selecionamos emoções limitantes e, em absoluto, não produtivas: stress, revolta, falta de tempo, cansaço, irritação e “sinceridade” (leia-se: cuspir opiniões) e endeusamos como são sinônimos de destaque social. Quem nunca foi diminuído no trabalho por conta de um hobby. “Nossa, mas você tem tempo de fazer isso?” Ter prazeres não é bem visto, é sinal de ócio. Não ter problemas não é bem visto. Estar em paz não é bem visto. Exemplo no diálogo abaixo (que eu tive o prazer de presenciar):

-Nossa, estão TÃO ESTRESSADO. Não tenho tempo pra ABSOLUTAMENTE NADA. Como você está?

-Estou bem. (expressão tranquila)

-E o trabalho?

-De boa.

-Ninguém te enchendo o saco? (cara de estranheza do interlocutor)

-As vezes, sim. Mas estou feliz.

-Eu não sou assim! Se me encherem o saco, eu falo mesmo! Você não pode deixar as pessoas montarem em você.

-Eu também falo quando acho que devo. Não tem ninguém montando em mim. (semblante pacífico)

-E em casa? Tudo bem? (cara de estranheza se intensificando)

-Na paz.

-E esse Brasil, que horror, hein?

-Há coisas a serem mudadas, mas eu tenho conseguido viver bem dentro dele e tento agir produtivamente ao meu redor para melhorá-lo.

Diálogo tão raro, que soa estranho e irrealista. Não deveria.

E no segundo seguinte à ausência do colega em paz, o colega que não tem tempo pra nada desabafou com os presentes: “Que alienado, sonso. Esse aí deve ser burro de carga no trabalho. Nunca leu um jornal na vida! É por causa de pessoas assim que o Brasil não vai pra frente.”