Comezinhas: a crônica da banalidade

Alguns leitores da Ideia para um roteiro infame perguntaram-me sobre Comezinhas: um filme sobre um cara qualquer cortando sua unha. Quando será filmado? O que já está pronto? Perguntaram-me.

Pois bem. Comezinhas atualmente tem três capítulos, igualmente relevantes no contexto em que se apresentam, e completamente banais em qualquer outra circunstância.

Capítulo 1: cortar unha

Um cara qualquer corta sua unha. O pedaço cortado de si voa pelo espaço, desde a janela do apartamento e pousa, dramaticamente, no piso do estacionamento logo abaixo. Essa história é tão banal que o apartamento do protagonista está no primeiro andar. Há muito Sol em todas as cenas, o que não é necessariamente agradável.

Capítulo 2: beber água temperada

Esse capítulo é inspirado em lembranças que eu tenho da Vó Lúcia. Em domingo de muito calor ela bebia água temperada enquanto assistia ao Sílvio Santos. Não sei se ainda há muitos bebedores de água temperada, no sentido de pessoas que bebem nessa modalidade. Nem sei se a expressão é bem compreendida e, na dúvida, explico: água temperada é a água gelada em que se mistura outra quantidade de água em temperatura ambiente. Talvez a Vó Lúcia tivesse um motivo especial e íntimo para fazer isso. Talvez lhe doessem os dentes com a água simplesmente gelada. Fazia parte da voternidade dela oferecer-me o mesmo remédio. Digamos que a água temperada tenha se tornado um evento ritual da relação vó-neto. Logo, resta a pergunta: pode um cara qualquer, o mesmo que cortou a unha, ou outro, completamente diferente, tomar da água temperada? Por que não? Ele pode, e é sobre isso que trata o capítulo 2.

Capítulo 3: abrir porta com chave

Pode-se dizer que esse é um clássico comezinho. As portas estão aí, em todos os lugares. Onde há habitação, feliz ou infeliz, há porta. E onde há porta, há fechaduras. As portas são comumente abertas, e esse ato implica na tarefa bastante comezinha de se enfiar a chave serrilhada no estreito orifício da fechadura. Como se isso já não bastasse, esse cara qualquer, o mesmo que cortou unha, bebeu água temperada, ou outro cara qualquer, duplamente qualquer por não ter feito nenhuma dessas coisas precisará, caso queira muito bem abrir a porta, não apenas enfiar a chave na fechadura correspondente, mas também torcê-la, decididamente. Ou girá-la, se se preferir dizer assim.

O que temos em Comezinhas, neste momento, é o screenplay desses três capítulos.