Conheço meu lugar

Tem umas pessoas na minha timeline que eu acho engraçadas. Geralmente essas pessoas são brancas, bem nascidas, fizeram cursinho pra passar na faculdade e, se não começaram a trabalhar com um estágio na área, tiveram um empreguinho sussa pra pagar uma roupa mais cara. Mas essas pessoas são contra o golpe. Odeiam coxinhas. Protestaram e vem protestando por tudo que há de se protestar, desde o aumento das passagens, em 2013.

O que eu acho engraçado nessas pessoas é que elas falam que não concordam com a política do PT.

Eu me lembro que, em 2002, meu pai comemorou a posse do Lula levando a gente pra comer num rodízio de pizza. Em 2006 a gente aqui em casa conseguiu rebocar as paredes, comprar carro novo e assinar internet banda larga. Em 2010 eu tive estabilidade empregatícia suficiente pra bancar sozinho 4 anos de faculdade particular. Em 2014 eu estava no emprego dos meus sonhos, ao lado de gente que eu admirava como profissional, fazendo o que sempre quis e me enxergando, sim, como um burguês de classe média. Ué, todo mundo ali era, por que eu não podia ser? Eu me questionava.

Mas essas pessoas eram e continuam sendo contra a política do PT. A política de negociar com partidos mais ricos, de direita, a política de se alinhar ao centro e “abandonar a esquerda”. Eu me pergunto o que essas pessoas acham que é a esquerda.

Eu mesmo não sei o que é a esquerda — eu sei que não é a direita, mas também sei que nada pode ser tão dicotômico assim. Mas sei que foi o governo do PT que permitiu que eu, minha família e uma pá de gente pudesse estar ao lado e ser considerado do mesmo rolê que essas pessoas que reclamam dos vizinhos que batem panela em Higienópolis e adjacências porque se dizem de esquerda.

Acontece que hoje, a mulher que eu entreguei meu voto de confiança foi deposta do cargo máximo do meu país por um grupo de mafiosos. Eu fiquei atônito. Já faz um tempo que, graças aos movimentos destes mesmos criminosos eu estou sem um trabalho fixo, meu irmão perdeu o emprego e meu pai está preocupado com sua aposentadoria. Isso feito, não sei como vai ser o dia de amanhã, principalmente para mim e para minha família.

Aí voltei a pensar nessas pessoas. Bem nascidas, formadas, assalariadas, com ticket refeição e bons drinks. Todos chocados, em luto pela democracia, chamando às ruas, compartilhando mil textões pertinentes, memes de séries do netflix que condizem com o momento e gifs dizendo “Fora Temer” dos mais variados jeitos possíveis enquanto eu me sinto apático. Não consigo fazer nada a não ser ouvir uma música do Belchior enquanto lavo a louça pensando em como vou me sustentar daqui pra frente, sem o governo do PT.

Eu sei que quando o furor passar e nós voltarmos às nossas atividades e a TV só exibir o noticiário esportivo, eu e estas pessoas tentaremos nos adequar aos novos moldes que nos foi imposto pelas circunstâncias. E sei que minha desilusão não poderá mais me fazer acreditar que entoar hinos e levantar bandeiras pode derrubar ou eleger alguém. Porém enquanto isso, estas pessoas continuarão me chamando de companheiro. Mas estas pessoas não são PT. E eu não sou estas pessoas.

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