Sobre "ser de humanas" e o Museu Nacional

Há pouco tempo tive a experiência de acompanhar alguém da área de tecnológicas em um evento no qual eu apresentaria uma comunicação. E eu fiquei com vergonha. Porque o olhar do outro é sempre um treco cruel, né? Eu ouvi piadas sobre o campus, sobre a sala onde ocorria o evento. E, sim, era tudo muito, muito feio. O campus era horrendo, a sala parecia ter saído de um daqueles filmes de sessão da tarde (sabe, aqueles que tem um professor que vai salvar a escola toda? Então, esse aí). Fiquei pequenininha, acanhada, tentando explicar que, mesmo assim, as comunicações eram importantes.
Quem estava apresentando? Um monte de estudante de pós-graduação em história. Muitos deles sem bolsa. Vários (assim como eu) tinham se deslocado até lá com a própria grana. Eu sei que a corrida do lattes existe e que isso conta também, mas vamos manter o foco aqui, tá? Lembrei de todos os campi de humanas que já visitei em diversas universidades. Quase sempre eles estão entre os mais simples, sempre perdendo para exatas ou da saúde. Tive vergonha. Mesmo.
Outra momento em que eu ficava embaraçada era quando um namorado, ainda durante a graduação, me perguntava no que eu iria trabalhar e o quanto eu iria ganhar quando me formasse. E, sempre que eu respondia que seria professora, isso era motivo de piada.
“-Vou ser professora, oras.
- Credo, professor só sofre. Vai ter que vender a sua ‘arte’ na praia, hahahaha”
(isso em períodos pré vinte nove de abril e professores sendo massacrados em frente ao palácio do governo do Paraná)
Hoje eu vi o Museu Nacional em chamas. Foi destruído. Veja bem, NÃO TEM COMO RECONSTRUIR UM MUSEU. Você pode até refazer o prédio, mas as peças que estavam lá dentro, seja em exposição ou na reserva técnica, foram perdidas. Elas eram únicas. Não existe outra Luzia, outro dinossauro, outra múmia, ou mesmo outro caquinho de louça marajoara iguais aos que estavam em exposição. Foi-se. É difícil tentar mensurar o sofrimento dos pesquisadores que trabalhavam ali, pois, se tem uma coisa que “nós” de humanas sabemos é que, em sua grande maioria, quem entra nessa área entra por amor à camisa e não por pretensões de riqueza.
Não consigo parar de pensar que estes eventos estão conectados. Afinal, olha só que graça, todo mundo que faz humanas anda de havaianas. Todo mundo é pobre. Todo campus de humanas é feio. Hahaha, humanas, que piada. Sim, nós permanecemos desvalorizados. Num país que está caindo aos pedaços, nós somos — quando estamos com sorte e as vacas estão gordas — “perfumaria”; em momentos mais azarados “comunistas”, “esquerdopatas”, “doutrinadores”, e qualquer outra palavra descontextualizada que tenha sido transformada em xingamento nos últimos tempos. A gente sabe que, cada vez que anunciam um corte, seja em bolsas, em manutenção, em investimento, a lâmina da tesoura chega antes no nosso cangote. E nós nos acostumamos. A ter que lutar por cada pedacinho de investimento, a trabalhar de graça. De graça? Isso. (Agora mesmo, eu participo de um projeto de extensão em um museu. Dos nove pesquisadores envolvidos — entre alunos de pós e de graduação — só duas graduandas têm bolsa de iniciação científica. Todo o resto trabalha voluntariamente). E a gente se acostuma.
Uma das coisas que eu mais ouvi no primeiro ano da minha graduação foram aulas sobre a “função social do historiador”. Sempre que lembro disso, penso que estavam nos instruindo desde sempre como nos defendermos. A ter o discurso na ponta da língua: “olha, a gente importa, o que nós fazemos é relevante”. Em tempos de patrulha ideológica em todo canto, eu fico muito feliz de ter sido bem treinada pelos meus professores. “Ser de humanas” é ter que aguentar piada, é saber que nossa área não é valorizada. É escutar: “mas você é tão inteligente, por quê não fez outro curso?”. É ter que explicar que, olha só, a nossa pesquisa tem método. Que também fazemos ciência. Que não somos um bando de “malucos beleza” inventando moda. É passar por isso mesmo sabendo que nós custamos muito pouco aos cofres públicos (eu sempre brinco que a minha pesquisa é uma pechincha, afinal eu só preciso de livros). É assistir meus ex-estagiários do Pibid não conseguirem emprego porque a carga horária de história nas escolas diminuiu. História pra quê? Investir em museu, pra quê? Só tem coisa velha lá. Além disso ficam doutrinando, né? Agora querem que tenha mulher, índio, negro no museu. Tudo culpa desse pessoal de humanas. Ficam problematizando tudo. Ninguém se importa, hahaha, humanas.
Em tempos de intolerância crescente (e eu não estou falando só do Brasil não), me parece sintomático perceber que, as humanidades, justo aquelas que supostamente deveriam nos auxiliar a entender o mundo a nossa volta, a compreender o outro, a pensar o processo de construção da sociedade, tenham se tornado motivo de piada. Porque é isso. Essa situação toda é uma grande piada. Aparentemente nós somos os palhaços.
