In the wake of a hurricane

Éramos dois naquela lateral do lago. Estava um frio inconcebível para a época do ano, mas você também era inconcebível para mim naquele momento; entretanto, a única coisa que me apetecia era te abraçar, cuidar de você para que o frio não te machucasse. Eu queria te proteger do inevitável.

Isabela me contou sobre o acidente. Você não sabia, mas eu sempre soube. Não sei o que isso me torna. Eu também não sei por que estou te contando tudo isso agora. No início, eu pensava em te contar sobre a saudade (ou o que eu pensei quando você se despediu de mim naquela noite). Uma das minhas repetições é o silêncio. Que, sem querer, demonstra um profundo desinteresse que ao menos me pertence. Na medida em que tento negar o meu desejo, o silêncio passa a ser a resposta para que o outro não me perceba suscetível.

Eu olho para o horizonte que me cerca e me identifico ao lado congelado à nossa frente. Eu tenho essa mania de me identificar com as coisas. Quando cultuo a Ofélia, as pessoas podem imaginar que me identifico àquela mulher. Mas não. É o que a cerca, a inunda, eu sou o lago, eu sou o mar, esse que insiste em me atravessar nos meus próprios sonhos. O mar é a minha pulsão. Eu também sou essa água que não se permite atravessar. E, ainda sim, você permanece ali comigo. Talvez simplesmente porque a paisagem é bonita, mas permanece. Como diz o Chico, por descuido ou poesia.

Fico pensando se enquanto estamos nesse intervalo de alguns minutos de silêncio você imagina a multidão de pensamentos que me invade. Desejo enormemente que você atravesse essa violência para chegar até a calma de mim. Ali, no mais fundo. Mas desejo quietamente, que é pra não ter perigo de você ouvir; porque o gozo, Ulisses, é a morte do desejo. E eu sinto medo de morrer junto com o meu.

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