Porque

Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem pois a minha dificuldade de falar disto, a não ser por alusões.

Ítalo Calvino, em Se numa noite de inverno um viajante.

Eu adoro paradoxos. Aliás, a palavra ‘paradoxo’ parece uma caixa de Pandora prestes a desandar o mundo, não parece? É exatamente o que ela faz, denuncia o caos escondido debaixo do tapete das nossas existências.

A base dos meus sintomas está em um preceito antigo, muito, muito antigo. Eu quero ser tudo o que sou capaz de me tornar. Parece reencarnação de Katherine Mansfield, mas sou eu jovem ao perceber o floreio de possibilidades que o existir fornece. A insatisfação, juntamente com o Desejo de ser Tudo me levou a um irredutível Nada. E, bem, cá estou eu.

Das vezes que me questionaram o por quê de cursar Psicologia, eu menti. Que novidade. A primeira vez, eu disse que gostaria de entender o funcionamento da mente humana. Da segunda, que eu gostaria de ajudar as pessoas. Essa última eu merecia levar um tapa na cara, por ser tão cínica. Nunca foi sobre as pessoas, era a mim que eu procurava. Eu queria me encontrar em algo, em alguém, em alguma ideia. Desesperadamente. E a Psicologia, aos trancos e barrancos, esteve lá.

Ah, mas eu não poderia estar mais enganada. Porque além de mentir para vocês, eu também menti para mim.

Eu não queria me encontrar, eu queria me esconder. Por isso a tarefa de finalizar essa graduação tem sido mais difícil do que qualquer outra coisa que eu fiz na minha vida. Eu tenho ânsia do que é reflexo. Ânsia ao me ver, de me encontrar e me reconhecer. O próprio substantivo faz duplicidade, vá vendo.

Quantas vezes repeti que fugi de Jacarezinho porque não conseguia suportar meu pai me sufocando? A verdade, caro leitor, é que eu não suportava o que ele me fazia ver da minha existência: a minha castração, os meus limites, a cerca de onde o boi Ruíska não passa.

Ser psicológa, ser psicanalista em formação. Esses títulos bonitos fazem sublinhar os meus maiores temores. Psicológa, sim, o ato falho fez Verdade aí, apesar do não-saber que ele quer escancarar. Vamos fazer um pequeno exercício, então: lóga me faz pensar em logar. Logar quer dizer ligar-se em algo. Fazer laço. E essa tem sido uma dificuldade enfrentada desde a infância, não é? Ser psicóloga é fazer laço com a psique? Aliás, Logar pode ser também um Lugar perdido em espanto.

Temos laço e lugar. A estória se repete. O contradito, tal como é, se redime à pulsão de morte.

Ocupar um lugar e fazer laço. Entrelaçar as pernas e pertencer. Abraçar o cisco da Esperança que restou na caixa. Não esconder. Vestir o óculos vermelho e mostrar o rosto. Dar presença-presente. Ruíska vai precisar me dizer se essas impossibilidades

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