Desencontro

São Paulo, cidade metrópole, com uma densidade de gente quase como em Tóquio. Na capital do Japão as pessoas podem aproveitar de diversos lugares para se encontrarem e passarem ótimos momentos de descontração e divertimento. Há prédios em que cada andar há diversas lojas, restaurantes, Karaokês, bares, Love Hotel, entre outros estabelecimentos. Também há, lá no oriente, muitos parques, praças, templos, jardins e grandes prédios comerciais com área pública de lazer ao ar livre. Já em São Paulo, na "capital econômica" do Brasil dificilmente é possível encontrar um espaço público e livre com bancos para se sentar. Na própria avenina Paulista não há nenhum lugar para apoiar as costas e descansar por alguns instantes. Bom, há uns poucos bancos de metal, instáveis ao lado de mais um daqueles enormes centro comerciais, ali onde havia uma ruína da antiga casa da família Matarazzo. Também, ao lado do restaurante Spot, há mais outros poucos bancos para aqueles que pretendem fumar um cigarro se sentarem, sem se encostar, e observarem os jactos d'água da fonte redonda no meio da praça descerem do céu enquanto que a nicotina é absorvida pelo corpo, descontraindo-se nessa pequena paisagem de sons atorduantes vindos da avenida.

Aqueles que tiveram a chance de observar (ou simplemente sofrer, por não haver nenhum sítio público para se sentar) que em quase todos os bairros de nossa cidade não há bancos, nem praças. Na realidade até existem, porém é quase como se fossem proibidos. Pois se alguém ousasse se sentar naqueles poucos bancos das praças dos bairros privilegiados seriam logo perturbados pelos diversos seguranças da redondeza que não aceitariam aquela actitude. Alguém desconhecido se sentar onde ninguém senta? Logo, esses seguranças acabariam por causar uma balbúrdia. Diriam: "Nessa praça não se deve vir aqui fazer tumulto, pois se deixar, amanhã já vai ter um acampamento, cheio de sem-teto!". Cidade da falta de convivência. Os Parklets, lugares para convívio público que ocupam uma vaga de um carro na rua, são uma forma interessante para tentar resolver esse problema, porém seria mais fácil pôr na calçada bancos com encosto, como há lá em nossa "terra mãe", Portugal. Para existir encontro e compreensão é preciso existir espaços de convívio público. O nosso espaço de trocas só existe em um bar? Onde temos de gastar dinheiro?

Há inúmeros centro comerciais, onde quem entra, primeiramente será examinado pelo segurança na entrada e no fim terá que praticamente consumir algo para se sentir de consciência limpa dentro desse monumento cheio de luzes, vitrines brilhantes, cheiros de flores e muitas guloseimas caríssimas para criar em nós o desejo de larica.

Em um jardim com muitos bancos poderíamos estar agora. Sem termos de gastar e apenas aproveitarmos da vida cotidiana, quando possuímos um tempinho livre para ver a nossa vida junta das outras em uma grande cidade. A senhora de 70 anos iria passar levando um grosso xale de lã que ela própria que o tricotou. Depois alguns amigos estariam sentados a tomar uma bebida que eles trouxeram. As crianças correriam atrás de um cão peludo branco. A linda senhora de cabelos negros daria uma volta e se sentaria naquele banco perto do coreto. Todas as classes estariam ali reunidas, conversando, mostrando seus animais de extimação e falando do lindo tempo ou do mal tempo. Existiria o encontro, a compreensão que tanto nos falta. Temos tantos pré-conceitos que nem conseguiríamos nos aceitar sem nenhum julgamento. Medos e inseguranças criam ainda mais pré-conceitos. Qual o problema se um homem sem casa dormir naquele banco? Pelo menos teve onde se encostar. Lá no Japão não é tudo perfeito, há muitas pessoas e meninas nas ruas. Porém, aqules que têm uma condição melhor não têm ódio. Eles buscam fazer o melhor para se ajudarem. Fazer da cidade um lugar não hostil. Primeiramente pensemos em respeito. Ao nos respeitármos entenderemos que precisámos de bancos por todas as ruas, praças, jardins e avenidas para que quem queira possa se sentar e conviver com outras pessoas. Vivemos no desencontro de nossa sociedade. Não nos entendemos e não vamos nos endender do modo que estamos a fazer.