Sobre as vicissitudes da vida

Já deve ter dado pra perceber que eu tenho muitas ressalvas quando o assunto é Deus/religião/o Divino. Acho problemática uma crença cega porque exime as pessoas da responsabilidade sobre suas escolhas.

Há um tempo atrás uma colega de trabalho descobriu-se grávida. No alto de seus 52 anos, era mais que claro para ela o desejo de não ter filhos. Tinha um casamento estável de mais de 30 anos, uma vida confortável financeiramente e tranquila em diversos aspectos. Era uma mulher viajada, frequentava bons círculos sociais. Um belo dia, quando sua menstruação não veio em um mês, o médico lhe advertiu: “Você está entrando na menopausa”. Apesar das orientações do mesmo para seguir utilizando seu método contraceptivo de escolha, ela decidiu suspender o uso do anticoncepcional. Em sua cabeça, finalmente perdera a capacidade biológica de ter filhos.

Acontece que a menopausa é uma coisa tão louca como a menarca. O corpo feminino tem que se adaptar a essa mudança hormonal, pode levar meses, até um ano (lembro da minha vó que reclamava de sua menstruação na menopausa quase desaparecer e depois de meses vir de novo).

A colega engravidou no mês seguinte. “Foi algum óvulo remanescente”, disse seu médico. Imagino o desespero de quem viveu a maior parte de sua vida sem filhos e desenhava o resto dela da mesma maneira. Aborto não era uma opção. A colega é católica e, por fim, aceitou a gravidez. Penso que se comigo acontecesse o mesmo eu aceitaria também, afinal, teria medo de fazer aborto no Brasil (a não ser que conseguisse importar misoprostol) e estou num relacionamento saudável com a pessoa que amo, dá pra encarar esse desafio e pode ser até interessante.

Seguiram-se os meses e a barriga dela foi crescendo. Gêmeos, descobriu. Duas meninas. Depois de um tempo parou de comparecer ao trabalho, a gravidez era de alto risco.

Enfim, deu a luz. Parto complicado, cesáreo. Duas meninas de baixo peso. Ficaram na UTI. Morreu uma e depois de algumas semanas, a outra.

Os colegas do trabalho falam num tom de quem julga. Dizem que quando a pessoa vai contra Deus, Deus se volta contra ela. Dizem que não podemos querer ter controle sobre tudo, mas controlam tudo o que podem.

Eu tenho pena dela. Mas me sinto aliviada em certo ponto. Ela voltará pra casa e logo sua rotina será normal. Ela terá experimentado um sentimento gostoso de ter podido gerar duas vidas. Ela chorará algumas noites, passará os anos imaginando como seriam as duas indo para a escola, tendo os primeiros (ou primeiras) namorados (ou namoradas). Mas ela não viverá com medo. Com medo de não viver o suficiente para ajudá-las a enfrentarem a vida. Vida tão difícil, em que coisas desse tipo acontecem.

Não foi Deus que a fez engravidar. Foi ela ter pensado que estando na menopausa poderia parar de tomar anticoncepcional. Não foi Deus quem a fez perder as meninas. Nasceram prematuras e com baixo peso, quantos casos de gêmeos natimortos ou com problemas severos de desenvolvimento vemos por aí, nas estatísticas?

Sim, nós podemos escolher. Podemos escolher não ter filhos. Podemos fazer tudo que está no nosso alcance para isso. Mas também nos descuidamos. Também podemos não nos adaptar ao método. Ele também pode falhar.

Não acredito em um Deus que mate duas crianças para mostrar que não podemos escolher sobre o nosso corpo e a nossa vida. Acredito na maldade das pessoas em acreditarem dessa maneira.

Bia, espero que essa ferida cicatrize e que os comentários sobre você se dissipem ao longo dos próximos anos. Espero que você se recupere das vicissitudes da vida. Espero que você saiba que tem escolha, que não é vítima de força sobrenatural nenhuma e que não é egoísta por não querer ter filhos. Espero que saiba também que seu coração aceitou e acolheu essas meninas, e desejo que o sentimento que perdure seja só o amor. O amor de verdade, não esse que cobra e toma coisas de ti.

Bia, eu não te conheço bem, mas me reconheço em você. Não foi Deus que fez isso. Foi a vida. E a vida continua acontecendo pra todos nós.