junho ou nada.

Mateus
Mateus
Nov 6 · 3 min read
Junho com Jota maiúsculo: chega de tutelar a esquerda.

Essa foto não é em Santiago. Não é em La Paz. Não é no ano passado, em Paris. Essa foto é em Brasília, em junho de 2013. Não é clichê que praticamente todas as nossas análises conjunturais sobre o Brasil se iniciem em Junho. Poucos eventos ganham o direito de serem automaticamente reconhecidos pelo mês, com letra inicial maiúscula. Junho, nome próprio, como foi Outubro em Moscou ou Maio em Paris. A maneira como o sujeito militante analisa Junho diz muito sobre o tipo de estratégia que ele deseja para o Brasil. E uma visão, na minha nada humilde opinião, equivocada, tem se tornado hegemônica e direcionado o teor do debate público do “campo progressista”: a noção de que Junho representa o início do fim de uma “era de ouro”, que seu caráter difuso abriu as portas para a direita.

Essa narrativa parte de uma conveniência política. Interpreta-se, mesmo que nas entrelinhas, que não se devia criticar o governo Dilma Rousseff e que, dada a atual conjuntura, estávamos reclamando de barriga cheia. Pelo contrário, talvez se tivéssemos reclamado mais não estaríamos aqui. Esse discurso que uma grande quantidade de despejos, remoções, políticas repressivas de segurança, concessões (pra ser brando) ao agronegócio e políticas de cunho neoliberal eram um mal menor promove a distorção de invisibilizar o precariado como massa de resistência. A partir dessa narrativa, o antipetismo vira tão somente um fenômeno de classe média/alta, ignorando que não é porque este era o perfil que compunha os atos do impeachment, que se tratava do perfil de todos os críticos de Dilma.

Além disso, há uma tutela extremamente nociva no discurso de que os atos “não tinham pauta”. Pra começar, tinham: a precarização das cidades e dos serviços públicos eram a tônica de todas as manifestações. Claro que esses atos mudavam seu caráter regionalmente. A socióloga Donatella Della Porta aponta esse como um dos principais elementos de conexão dos protestos do começo da década: reconfigurar ondas internacionais em demandas locais. Foi assim que, na cidade em que eu morava, Santa Maria (RS), Junho foi, basicamente, sobre a Boate Kiss. Existe outro erro grande nesta tutela, trazido pro Zizek em seus comentários sobre o Occupy Wall Street, a de que precisamos dar um “nome” à indignação coletiva, como se exigissemos dela uma certa normatividade, um plano de ação quase que empresarial. Esse tipo de castração ontológica da consciência de classes nos faz perder o essencial: tem algo mais anticapitalista que se indignar com “tudo o que há”?

O problema nem é tanto a injustiça com aqueles que sonharam Junho, sistematicamente perseguidos e aprisionados. O problema são os erros de estratégia que essa reflexão encaminha. A de que a radicalidade tem de ser o tempo todo tutelada, se não ela é infantil e perigosa. Aí rebaixamos cada vez mais o nosso discurso para uma tática eleitoreira e sistemática, nos tornamos “racionais e pragmáticos” e superdimensionamos nossos adversários. É certo que o bolsonarismo flerta com o fascismo e ameaça constantemente a democracia, mas a pior maneira de lidar com isso é nos acossando com medo do que pode vir. Bolsonaro perde, dia após dia, qualquer aparato institucional que possa fortalecer uma acentuação repressiva sua. Resistir não basta. É preciso avançar.

Enquanto isso, o continente pega fogo. No Brasil, é cada vez mais notório que há algum nível de relação entre Bolsonaro e o assassinato de Marielle Franco. Sempre será tempo de luta para os que querem lutar. É Junho ou nada.

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