O ciclo da novidade

(fonte: Google Imagens)

O “novo” nunca esteve tão classificado como raridade como agora, e o “novo” que causa surpresa atualmente nunca foi tão “batido”, pois de novo não há nada. Quem sabe as misturas sejam diferentes, mas tudo é como uma receita de bolo onde não há nenhum novo ingrediente, mas muda-se levemente a quantidade de um ingrediente ou de outro, apenas o suficiente para que ele seja aceitável aos paladares a ele destinados. A moda e a arte estão nesse pé. A mídia atual se resume a apresentar uma gama interminável de regresso às diferentes fases da arte (mais perceptível na música) surgidas desde o início do século XX (ou até antes).

Já que foi citado, vejamos a trajetória da música. O blues e o jazz surgiram nos EUA (na forma mais contemporânea) nas décadas de 30 e 40. O blues evoluiu até os anos 50, dando origem ao rock’n’roll, sendo os dois muito semelhantes (durante a transição, quase iguais). Dele surge, após transição, o psicodélico (o melhor exemplo disso são os Beatles). Do psicodélico, após outra transição, veio o rock progressivo. Com o desgaste do progressivo surgem a discotheque e a new-wave (elitizados) e o punk e o pós-punk (marginalmente). Após isso, inicia-se uma sucessão de estilos, misturas e reinvenções que se acelerou e continua até hoje.

Agora vamos tirar a prova? O blues dos anos 30 e 40 é o resultado de uma evolução e lapidação da cultura e da musicalidade do povo negro americano e seus cânticos religiosos e folclóricos (seu sagrado). Anos depois, a juventude burguesa dos anos 50, cheia de energia e entusiasmada com os anos dourados do pós-guerra viu no rock’n’roll a síntese de seu espírito.

Essa geração atingiu a maioridade no início dos anos 60 e com um pouco mais de romantismo sentiu nos Beatles seu reflexo, sua imagem. Pouco depois, a contracultura se instalou trazendo a permissividade quanto ao sexo e às drogas (LSD, hippies, pílula) e à contestação (beatniks, Jack Kerouac, Easy Rider, Route 66, Folk, Bob Dylan, Rolling Stones). Estava em voga o psicodelismo, com os Beatles como MCs e o Pink Floyd como rebentos. O Floyd veio na virada dos 60/70 até 1983 como guru magno do progressivo, este já uma incorporação do requinte e rebusco da música clássica com a lisergia climática do psicodelismo. O auge do progressivo se deu em meados da década de 70 quando o Pink Floyd lançou “The Dark Side of the Moon” e “The Wall” (posteriormente filme de Alan Parker).

A sonolência e a embromação do progressivo foram ofuscadas pelo alto-astral da discotheque (com o funk negro ganhando espaço junto com a própria consciência negra e até o plágio dos brancos, como o Blondie) e depois a new-wave, retomando o colorido do psicodélico com ritmo e tecnologia (sendo o Devo o melhor exemplo). Chega 1978: o punk, que era uma resposta à “burguesia-disco”, está em decadência e o pós-punk já começa a caminhar entre e sobre os escombros.

Em 1982, mais ou menos, a facção marginal se une à elite e inicia-se uma geléia-geral caótica (retorno à desordem primordial) que marcará os anos 80 como um liquidificador de ideias, imagens, estilos, modismos, linguagens, algo já presente como situação na própria televisão (vide os vídeos do Clash e outros takes de Don Letts, principalmente seu trabalho com o Big Audio Dynamite em 86/87).

Já é perceptível que nos anos 80 não havia mais uma linha evolutiva sendo traçada, nem etapas ou transições. Há um retorno contínuo aos elementos passados, mas os ambientes atuais não justificam satisfatoriamente suas presenças; eles decaem como forma e seu conteúdo perde seu eco. Ele volta quando quiserem que ele seja estimulado, e assim sucessivamente, com cada moda e cada estilo. O prefixo neo- é largamente utilizado (neo-rockabilly: Stray Cats e Guanabatz; neo-psicodélico: Deee-lite, Happy Mondays, Soup Dragons, e por aí vai).

Enquanto se esperava uma renovação que ameaçava mas nunca vinha, Emerson, Lake & Palmer alimentavam um rock progressivo agonizante em pleno 1986 com recriações a partir de Mussorgsky. E nos EUA, The Cars tentou se manter na esteira da new-wave até cinco anos após sua decadência.

Na mão contrária, Paul McCartney adotou novas fórmulas — para compor e também se promover — ao invés de manter o estilo Beatle… e se deu bem. Mas seus shows não dispensam uma “volta ao passado” de vez em quando, é claro.

Em 1990 o Faith No More adotou uma fusão de funk + metal calcada em Red Hot Chili Peppers. Bastou a MTV investir neles que o sucesso foi imediato. Já os Chili Peppers, surgidos na primeira metade dos 80s, levaram 7 anos para obter o mesmo reconhecimento mundial. Eis um bom exemplo de releitura que entrou em voga antes de sua matriz…

Mas para não falar só de gringos: os Engenheiros do Hawaii (sim, eles mesmos… porque não?) conseguiram, após 5 anos de carreira, projeção nacional com uma cover da cover d’Os Incríveis para a originalmente italiana “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones”. Um ano depois, reafirmaram o estrelato com uma regravação de “Refrão de Bolero”, gravada originalmente nada menos que 5 anos antes por eles mesmos (1986).

Enfim, a arte necessita de sangue novo ou renovado sempre. Mas por melhor que seja uma manifestação dessa arte, ela jamais é insubstituível, pois é única e quase sempre temporal. Já os artistas, talvez alguns poucos. E isso também se torna cada vez mais raro.

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