O que o meu nome japonês e meu sobrenome okinawano significam para mim

Mariana Akemi Iha
Aug 28, 2017 · 8 min read
Ditian Murata, eu e minha mãe.

Meu nome, sobrenome e fenótipo contam uma história. Minha relação com a comunidade japonesa está presente em meus documentos, no meu rosto e no meu sangue. Para quem olha de fora, é impossível não me associar aos elementos básicos que remetem à imigração japonesa no Brasil: o Kasato Maru, o bairro da Liberdade e os festivais culturais que a colônia japonesa promove até os dias de hoje.

Apesar de estar intrinsecamente ligada a esses princípios fundamentais, entendo que minha vivência enquanto indivíduo traz outros elementos não tão óbvios que fortalecem essa ligação entre meu passado, meu presente e o meu futuro.

Esse elo entre indivíduo e historicidade é minha principal questão identitária enquanto filha da diáspora japonesa e okinawana, de modo que se faz necessário escrever algumas considerações acerca da minha família e da colônia japonesa no Brasil para uma compreensão mais apurada.

1. Sobre naichis e uchinanchus

Minha família materna é originária de Kyuushu, região sul da ilha principal do Japão. Do meu lado paterno tenho raízes em Okinawa, província localizada no extremo sul do país. Entre essas duas regiões distintas existem mil quilômetros de distância.

A localização de Okinawa em relação à ilha principal do Japão e demais países do leste asiático.

A distância entre Okinawa e a ilha principal não é apenas geográfica, mas também cultural e linguística. Antes de se tornar uma província japonesa durante a Era Meiji em 1879, Okinawa era conhecida como reino independente de Ryukyu.

“Após a anexação do reino e a mudança de seu nome para Okinawa Ken, o japonês se estabeleceu como língua oficial, em detrimento das línguas nativas cujo uso era punido. Nesse período, as manifestações artísticas (como dança e música) também foram proibidas e centenas de yuta, conhecidas como xamãs okinawanas, foram presas.”

Fonte:Umi nu Kanata — Do outro lado do mar: história e diferença na ‘comunidade okinawana brasileira’” (2015), dissertação de Mestrado de Lais Miwa Higa para a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

A partir dessa anexação nada amigável, as tensões entre a ilha principal e Okinawa começaram a se acentuar. A visão japonesa sobre nacionalidade é bastante ultrapassada e assim como acontece com os dekasseguis (descendentes de japoneses que voltam ao país para encontrar trabalho), os okinawanos são vistos como inferiores em relação à etnia e cultura pelos japoneses “puros”. Os próprios okinawanos não se identificam com os naichis — termo utilizado durante o Império Japonês para diferenciar a ilha principal de suas colônias.

Com a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial, o imperador Hirohito cede Okinawa para os Estados Unidos. De 1945 a 1972 Okinawa fica sob o domínio estadunidense, a ilha é rebatizada como Ryukyu-US e são construídas diversas bases militares que se mantém até hoje. São comuns os casos de conflitos entre a população okinawana e norte-americana, o que fomenta debates acerca da retirada das bases militares. Relatos de estupro, pedofilia, abuso de autoridade e assassinato são as feridas abertas da presença estadunidense em Okinawa.

“Chewing Gum and Chocolate”: a série do fotógrafo Shomei Tomatsu sobre a ocupação estadunidense em Okinawa.

Para entender Okinawa é preciso levar em consideração o que o imperialismo japonês e o imperialismo norte-americano deixaram como marcas no território e na população uchinanchu, criando um forte sentimento de resistência e não pertencimento em relação a esses dois países.

As tensões entre Japão e Okinawa não se limitam apenas à história ou geografia e atravessam a minha própria estrutura familiar até os dias de hoje. Em abril de 1996, quando meus pais retornam ao Brasil após sua experiência como dekasseguis, há um embate que marcaria para sempre a vida de minha mãe e consequentemente o novo núcleo familiar que estava se formando.

As tradições japonesas e okinawanas possuem suas características particulares, mas quando trazemos seus elementos para o contexto brasileiro há um ponto de intersecção muito forte: a manutenção das tradições apesar das 10792 milhas de distância que separam Brasil e Japão.

Os jornais de Okinawa costumam escrever que “no Brasil ainda existe a Okinawa da era Meiji”. Isto é resultado da imigração em massa que trouxe os costumes e o idioma da época, que vêm sendo preservados até os dias de hoje.

Fonte: Imigração, a parte que falta na História do Japão — O porquê do grande número de imigrantes originários de Okinawa” (2015), artigo de Masayuri Fukasawa para o Discover Nikkei. Tradução de Laura Hasegawa.

Naquela época, okinawanos e naichis não apreciavam a ideia de casamentos mistos. Acreditava-se que okinawanos deveriam se casar com okinawanos e japoneses com japoneses. Para meu avô paterno, minha mãe era antes de qualquer coisa uma naichi e seu sobrenome de solteira (Arakawa — 荒川) a marcava como tal para sempre.

2. Um nome com sete letras

Era madrugada de 12 de setembro de 1996. Minha mãe acorda meu pai para avisar que a bolsa havia estourado e os dois correm para o hospital. Enquanto meu pai resolve questões de documentação, minha mãe sobe as escadas em direção a sala de parto com ajuda da obstetrícia. O elevador está quebrado e para surpresa geral das enfermeiras, aquela mulher de aspecto frágil consegue chegar a tempo para que sua primeira filha venha ao mundo.

Mariana Akemi Iha, natural da cidade e do estado de São Paulo. Brasileira.

Mariana, meu nome brasileiro, foi escolhido seguindo a instrução de uma amiga “mística” dos tempos de faculdade da minha mãe. Para ela, um nome deveria ter sete letras para garantir sorte.

Segundo dados estatísticos do IBGE, a década de 90 foi marcada por um grande número de registros de crianças com o nome Mariana, que hoje ocupa a posição de vigésimo nome mais popular no Brasil.

3. IHA (伊波), a “onda boa” de Okinawa

Todo descendente de japoneses tem uma história constrangedora com seu sobrenome. Desde pequena lidei com trocadilhos e piadas, o que foi decisivo para sentir um leve desconforto em relação ele. Durante muito tempo vi meu sobrenome apenas como causa de constrangimento.

Quando retirei a segunda via do meu RG no movimentado Poupatempo da Sé, no coração de São Paulo, fui surpreendida pela pergunta do funcionário da unidade: “Iha… Então você é de Okinawa?”. O funcionário em questão era um senhor japonês de meia-idade que sorriu ao ouvir minha resposta positiva. A pergunta inesperada me deixou curiosa acerca dos conhecimentos daquele senhor sobre meu próprio sobrenome. Uma breve conversa se desenrolou e ele me explicou que Iha era um sobrenome bastante comum em Okinawa.

O significado do kanji para Iha (伊波) segundo meu pai é “onda boa”, sendo 波 o kanji para “onda” (nami). Entender o significado do kanji, bem como da história de resistência de Okinawa foi fundamental para a ressignificação do meu sobrenome. A partir daquele momento entendi que Iha me marcava em seu significado e em sua origem.

Meu pai e minha avó na praia, como bons okinawanos.

4. AKEMI (明美) e a tradição do nome japonês

O ato de nomear o recém-nascido é tão importante no Japão que existe uma cerimônia própria para isso, o Oshichiya Meimeishiki (お七夜命名式). Tradicionalmente, o nome do bebê é escolhido ao nascer e em seu sétimo dia de vida, seu pai irá escrever o kanji no Meimeisho (命名書). O Memeisho pode ser um poster ou qualquer outro material que sirva para ser pendurado em alguma parte da casa.

A sonoridade, número de traços do kanji ou então herdar um kanji dos pais são alguns elementos envolvidos na hora da escolha do nome.

Meu nome japonês (Akemi — 明美) foi escolhido porque minha mãe gostava da sonoridade. Três anos depois visitamos meu bisavô e ele escolhe o kanji do meu nome: 明美, onde 明 significa “brilho” e 美 “beleza”. Na tradução livre sou “aquela que brilha lindamente”. Tenho até hoje guardada a pequena folha onde meu querido ditian Murata definiu o kanji e consequentemente o meu significado. Importante acrescentar que os nomes japoneses possuem leituras diferentes a partir da escolha de seus kanji.

Em famílias nipobrasileiras é muito comum a presença de um nome brasileiro e outro japonês. Quando os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil, muitos adotaram um “nome de batismo” para facilitar a adaptação em seu novo país. Minha avó materna é conhecida como dona Lídia, mas em seus registros aparece apenas Saeko Arakawa.

A geração de minha mãe foi a primeira da família a ter em seus documentos um nome brasileiro. A partir da década de 60 meus bisavós já não enxergavam o retorno ao Japão como algo próximo ou concreto, então optaram por escolher nomes brasileiros para seus netos. Meu bisavô Kiyoshi Arakawa escolhia os nomes de acordo com um calendário de santos cristãos: minha mãe recebeu o nome brasileiro de Gertrudes em homenagem a Santa Gertrudes, padroeira dos gatos, cuja data é comemorada em 17 de março. Seu nome japonês é Kayoko (賀代 子) e significa “filha de uma boa geração”. Como primeira neta de ambos os lados — tanto Arakawa quanto Murata — meu bisavô procurou um nome forte e bastante significativo.

Há também descendentes que preferem não dar o nome japonês para seus filhos, mantendo apenas o sobrenome e o nome brasileiro. Nesses casos é comum ouvir que sofreram preconceito por causa de seu nome japonês e ao escolher o nome dos filhos, pensam principalmente sobre a questão da adaptação e de evitar comentários preconceituosos e infelizes.

O vídeo abaixo é sobre uma campanha de estudantes chineses na Universidade de Columbia que tiveram seus nomes arrancados de suas portas em um ataque racista. Os chineses explicam o significado de seus nomes e a importância de falar sobre suas origens como resposta ao ataque.

Apesar de China e Japão terem suas diferenças, a questão da preservação de nossos nomes é diretamente relacionada com a manutenção de nossas tradições e com a história de nossas famílias. Carregar um nome japonês e ter orgulho dele é uma forma de resistência.

A crença de que nossos nomes podem vir a moldar nossa personalidade é o que leva nossos pais, avós ou bisavós a terem tanto cuidado ao tomar uma boa escolha. Quando meus familiares escolheram Akemi, eles não pensaram em piadas de mau gosto ou associações estúpidas: para meu ditian Murata eu seria aquela que significa brilho e beleza.

Toda vez que alguém me chama de Akemi, eu tomo consciência da minha história e do que vejo para mim no futuro. Meu nome é forte tanto na sua sonoridade quanto em seu significado e espero que as pessoas encham a boca para pronunciá-lo: A K E M I.

Se é possível escrever uma narrativa em apenas seis palavras como em “For sale: baby shoes, never worn”, eu escrevo a minha a partir dos meus três nomes, cada qual com seu imenso significado.

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Mariana Akemi Iha

Written by

“não sou um intelectual, escrevo com o corpo”. graduanda em letras (português/japonês). asiático-brasileira. (ig: @seppukugirl)

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