Gostei ainda mais de Batman vs. Superman na segunda vez que assisti
Quando fui convidado para assistir a pré-estréia de Batman vs. Superman, me organzei e fui com minha esposa. Não tinha grandes espectativas, até mesmos porque os trailers já tinham contato toda a história. E saí gostando do filme. Achei o filme divertido, cheio de referências que até mesmo eu que não sou o maior leitor de quadrinhos consegui perceber. Gostei até do Batman do Ben Affleck! Achei que o filme tinha sido muito bem amarrado, com personagens bem desenvolvidos e, deixando passar os furos do roteiro dignos de um filme desse tamanho, ao final saí muito satisfeito com a experiência e morrendo de vontade de falar com todos sobre o filme!


Mas o que mais me chamou a atenção depois de assistir o filme foi o fato de a crítica ter detestado mas os fãs adoraram. A crítica especializada estava jogando termos técnicos criticando a adaptação do Zack Snyder e muita gente se deixando levar pela crítica, chegando a conclusões sobre a qualidade do filme sem nem mesmo ter visto a película. E eu me questionava: "será que vimos o mesmo filme?"
Procurei por críticas e resenhas online, tanto positivas quanto negativas para entender essa reação. As resenhas negativas apoiavam as críticas oficiais e apontavam para problemas de roteiro, principalmente, de furos graves e problemas de ritmo do filme. As resenhas positivas se focavam principalmente na história, nos personagens e nos vários easter eggs espalhados. Uma resenha contou referências a pelo menos cinco HQs diferentes, tanto do Batman quanto do Superman.
Então resolvi ver de novo. E passei a gostar mais do filme. E consegui entender porque as pessoas não gostaram e porque as pessoas gostaram.


Quando assisto a um filme pela segunda vez, não estou interessado mais na história, em saber como termina o filme. Estou interessado em ver como a trama foi construída. Já sabendo o que acontece no final, vou prestando atenção nas peças e como elas foram colocadas durante o filme e entendi o objetivo do filme.
Se a gente pensar o filme da perspectiva da produção, de trás pra frente, as coisas são muito bem amarradas. O filme não é pra ser uma história isolada, nem uma conclusão dos outros filmes. Batman v. Superman: A Origem da Justiça é justamente o que o título propõe, uma história que conta a origem da Liga da Justiça. Além disso, serve para amarrar as outras histórias existentes do universo cinematográfico da DC que fariam parte desse filme.
Pensando como o Zack Snyder, antes mesmo de conceber o filme Batman v. Superman e sabendo que eu teria que chegar em filmes da Liga da Justiça, como eu faria isso? Teria que pensar como os personagens se encontram e qual a motivação deles para se unirem.


Considerando o Superman — e levando em consideração sua MELHOR história de todos, que inclusive aparece em forma de sonho ou flashback/flashforward no filme — "Entre a Foice e o Martelo" (Red Son, no original), o último filho de Krypton é um alienígena que, se quiser, pode controlar o planeta inteiro com o seu poder, o que justifica que o Batman seja completamente paranóico com relação a ele. Inclusive, justifica uma das frases do Bruce Wayne no filme "Se existir 1% de chance que o Superman é uma ameaça, devemos aceitar isso como uma certeza absoluta".
Temos então de um lado um ser superpoderoso, praticamente uma divindade, de um lado e de outro um humano super rico e super paranóico. E como resolver esse impasse? Será que a trama "o inimigo do meu inimigo é meu amigo" resolveria? Será que algum inimigo maior poderia justificar os dois heróis que se desconfiam passarem a lutar juntos? E que inimigo poderia ser esse?
E a resposta parece ser óbvia: Apocalipse. E isso inclusive justifica a entrada de outros heróis e meta-humanos para compor a Liga da Justiça. Então, aproveitamos para inserir a Mulher Maravilha, vulgo Diana Prince, na história. Poderia ter sido literalmente qualquer outro herói capaz de enfrentar o Apocalipse, até mesmo o Aquaman ou o Homem-Elástico.


Porém, a história dos quadrinhos do Apocalipse, nos mostra um final lógico que também nos dá a esperança de arrumar um ponto da trama do filme. Superman mata o Apocalipse e é morto por ele também. Admito, inclusive, que a luta entre os dois e a morte eventual dos dois é muito melhor no filme do que nos quadrinhos, onde parece simplesmente que os dois morrem de exaustão de tanto lutarem e destruírem a cidade.
E como é que a Morte do Superman salva o roteiro? Simples, somente mortais morrem. E até o momento, o Kryptoniano é praticamente um deus imortal. E temos que mostrar isso durante o filme, inclusive! Vamos mostrar como ele é capaz de sobreviver ileso a qualquer perigo terreno. E, que tal, uma explosão onde todos morrem e ele não sai nem com um fio de cabelo fora do lugar? Perfeito.
De imortal a mortal, de divindade a humano. Apenas um herói humano é capaz de chamar a empatia dos humanos — e aqui estou pensando em Bruce Wayne, que não confia nem um pouco em divindades, principalmente se elas permitem que seus pais morram bem na sua frente quando ele era apenas um jovem mimado e rico de Gotham City. A morte do Superman entrega ao espectador e aos personagens a desculpa necessária para a formação da Liga da Justiça.
E como chegar até esse ponto? Então precisamos mostrar como o Batman não gosta do Superman — e possivelmente o inverso também — e como um inimigo em comum é capaz de juntá-los. O Apocalipse foi o escolhido, porém, temos outro problema. Nos quadrinhos, o Apocalipse foi uma criação de um cientista louco de Krypton que ficou perdido no universo até cair, eventualmente, na Terra, com uma raiva incontrolável a qualquer coisa kryptoniana — e por isso o Superman é o perseguido. Será que vale a pena chegar nesse ponto e ter que contar mais essa história, como um alien-ex-machina? E se pegarmos a história que foi contada na série animada, onde o Apocalipse é a criação da LexCorp e do Lex Luthor? Bom, essa alternativa é ainda melhor, pois podemos inserir o antagonista do Superman e justificar a criação do Apocalipse de uma só vez!
Então temos nossa história. E pegamos a história onde a última produção do diretor terminou: com a destruição de Metrópolis. E incluímos ainda um ponto na trama que vai humanizar ainda mais a história: o que aconteceria se um herói de fato fizesse o que o Superman fez?
Esse é o tipo de discussão que não aparece nas histórias da Marvel, por exemplo. Na história do Incrível Hulk, o personagem título destrói um bairro de Nova York e nada acontece — como se a cidade pudesse se reconstruir. No filme dos Vingadores a cidade de Nova York é praticamente destruída e, ao invés de termos discussões sobre os responsáveis, os heróis são glorificados e o dinheiro do Stark consegue reerguer tudo, sem prejuízos. Famílias não morrem. Vidas não são perdidas.
Mas no universo da DC/Warner, eles querem trazer à tona a premissa de Watchmen — também do diretor Zack Snyder — que questiona o que aconteceria na vida das pessoas reais se os super-heróis existissem de verdade. Por mais lindo e esperançoso que a existência dos heróis seja, pessoas morrem e vidas são destruídas. Ninguém sai ileso.


O Homem de Ferro destrói um acampamento de terroristas e ele é o herói. O Superman faz o mesmo e no dia seguinte, os mesmos terroristas destróem outra cidade e matam mais inocentes. Porque é assim que os terroristas atacam. Os Vingadores destróem a cidade salvando a Terra de uma invasão alienígena e ao final eles se parabenizam comendo Shawarma. Quando o Superman faz o mesmo, descobrimos que crianças ficam órfãs e pernas de trabalhadores são amputadas — além de o governo querer saber o que fazer com essa força capaz de destruir tudo mas que consegue salvar vidas enquanto isso.
E esse foi um ponto que senti em algumas das críticas negativas do filme: as pessoas queriam ter a diversão da Marvel, não o realismo da DC. Mas essa é a proposta se Zack Snyder está no comando e não teria como ser diferente. Ele já mostrou isso em suas outras adaptações. Por que ele seguiria a marca do concorrente agora? E por que os produtores escolheriam ele se quisessem algo diferente? Se quisessem algo divertido, poderiam ter escolhido o J. J. Abrams, por exemplo.


Então a expectativa era essa: conseguir contar a história da origem da Liga da Justiça enquanto mostra como o universo do Batman e do Superman se ligam. Gotham e Metrópolis são nos quadrinhos como cidades irmãs — o que foi mostrado no filme. Pra mim, essa ligação já poderia ter acontecido ao final do Batman: The Dark Knight Rises, depois da destruição da cidade, com a indicação — nem que fosse em uma folha de jornal solta na cidade ou na notícia do rádio de um taxista — de que a reconstrução da cidade seria feita com a ajuda do filântropo Lex Luthor de Metrópolis (algo que inclusive aconteceu nos quadrinhos e construiu a opinião pública do antagonista como alguém bom — algo que deveria ter sido mais explorado no filme onde ele de fato aparece).
Compreendendo como as peças deveriam se encaixar para se chegar ao final pretendido, consigo ver que a história é realmente boa e consegue fazer isso. Porém, percebi um furo chato que eu faria diferente.
Em um filme que não está preocupado em contar histórias de origem de nenhum personagem — nem da Mulher Maravilha, que é a primeira vez que aparece nos cinemas e essa história será contada em outro filme — eles gastaram muito tempo contando quem seriam os outros meta-humanos da Liga da Justiça e dos demais filmes da DC/Warner. Eu simplesmente cortaria a cena onde a Diana olha os arquivos do Luthor após ver que existiam outras pastas. Ponto. Acabou. Sabemos que existem meta-humanos e os fãs de quadrinhos sabem quem são.
Ao mesmo tempo, o Flash já é apresentado em um sonho/Flashback (a-ha!) e um outro personagem poderia ter aparecido também. Ao invés da Lois jogar a lança de kryptonita numa piscina dentro do prédio, ela poderia ter jogado no próprio porto de Gotham, na água. E, quando ela precisar da lança, ela pode tentar buscar, mas quem acaba encontrando e entrega para ela é ninguém menos que o Aquaman, que estaria lá para ver o que está acontecendo e quais os riscos que essa batalha têm para o seu reino submarino. Pronto. Sem precisar mostrar cenas de computador, mostrando um personagem em ação. Só falariam cenas do Cyborg — que se resolveria com o recurso de imagens de televisão ou notícias de jornal sobre o acidente com o jovem Victor Stone ou sobre as pesquisas do Dr. Silas.
E só tem uma coisa que me incomodou mesmo — o abuso da coincidência dos nomes das mães dos protagonistas. E daí? Viramos melhores amigos automaticamente por conta disso? Será que a ameaça do Apocalipse em Metrópolis não seria o suficiente pra que os dois gladiadores parassem de brigar em Gotham City e fossem enfrentar um inimigo de verdade? Isso, inclusive, deporia à favor do personagem do Lex Luthor, pra ser mais um humanitário, querendo de fato mostrar que o Superman é uma ameaça real, e não só como mais um vilãozinho psicótico (que foi muito bem montado, diga-se de passagem).
Enfim, foi isso o que achei. Depois que vi pela segunda vez, percebi todos esses pontos e reforcei que o filme de fato é bom e que vou querer ver os desdobramentos da franquia nos cinemas.
E caso você não tenha visto o filme e tenha lido até aqui a minha resenha — agora você já sabe o que acontece e como acontece no filme — eu recomendo que assista, não com a mesma expectativa de aventura dos filmes de herói da Marvel, mas sim com o olhar crítico de um possível realismo que os filmes da DC/Warner têm trazido, desde a trilogia do Nolan. Também, não assista pensando que é uma história acabada ou então que terá uma conclusão satisfatória, porque esse não é o objetivo de um filme como esses. Assista como se você gostasse dos personagens, que são velhos conhecidos e que você está lá para se divertir com eles.