Não sei dizer não

Desde sempre, o paralelo entre o sim e não me perturba todas as vezes que me aparece algo novo para fazer. Meu sim quase sempre foi um vilão para mim.

Me chamaram para brincar na rua às três da tarde debaixo do sol e eu estava assistindo A Bolha Assassina (The Blob) no Cinema em Casa. Filmaço, não perderia por nada. Mas poxa, fazia o maior tempo que a gente não se via, a Júlia tava na casa da vó dela ontem e o Daniel fazia natação dia de segunda. Estávamos há longos dois dias já sem brincar de mãe da rua com a turma e a Bolha Assassina podia esperar. Lógico que fui. A mãe da Júlia mandou ela entrar uma hora depois e o cachorro do Daniel fugiu e óbvio que ele ficou procurando. A brincadeira acabou. E o filme nunca mais passou na TV.

Fiz aulas de guitarra e queria viver de música (qual adolescente que toca -ou já tocou- alguma coisa nunca sonhou com isso?). Logo, óbvio, assim que me chamaram para uma banda só de meninas, fiquei fascinada e abracei a ideia. Mey.llyn jamais morrerá, mesmo que tenha tido só três ensaios e sem baixista. Mas foi a minha primeira banda, lembrarei com todo carinho. Depois dela, vieram inúmeros projetos de música que me deram a oportunidade de conhecer muita gente querida (qualquer dia falo mais sobre elas). Mas foram projetos que foram vindo, e eu abraçando todos de uma vez, por pura empolgação. 90% deles nunca saiu do papel.

Até hoje passo por isso (inclusive este último case que contei), com todas as coisas da vida. Minha indecisão ou entusiasmo crônico faz com que eu não queira deixar nada para depois. Eu pareço que tenho medo de perder a oportunidade de ver aquilo X acontecer.

E isso atrapalha. Posso dizer que terminar algum projeto pessoal é uma utopia. Afinal, sou como o Jubileu atrás das pipocas com manteiga que o Pica Pau disse que estavam jogadas pelo caminho: elas até estavam lá, mas ele não as podia comer porque elas pertenciam aos pombos amigos daquela senhorinha sentada ao banco que já está prestes a dar-lhe um sopapo. Nem sempre vale a pena ser entusiasta demais.

Só fui perceber isso há pouco tempo, depois de ouvir alguns comentários e começar a me observar. Estava vendo que nada do que eu planejava ou aceitava fazer funcionava.

Me transformei numa bolha assassina de projetos, engolindo um a um sem digeri-los e sem me dar conta de que já tinham outros em andamento.

Outro dia, lendo um dos livros que nunca terminei de ler, mas que não deixa de ser ótimo, tive um estalo. A concentração deve ser plena em tudo o que fazemos, porque quando se perde o foco, nada funciona. Veja este texto. Escrevo ele com outras milhares de coisas na cabeça, mas decidi fazê-lo mesmo assim. Se fosse antes, tenho certeza de que ele não sairia nem do primeiro parágrafo, porque eu já estaria distraída com algum mene™ qualquer ou assistindo algum vídeo legal. Ou nem teria chego ao primeiro parágrafo, porque estaria ocupada fazendo algum trabalho que preciso entregar amanhã de manhã (e isso é verdade).

O que eu quero dizer é: se você abraçar tudo, nunca vai conseguir fazer algo por completo. A vida exige que tenhamos a sabedoria de aplicar o não em situações que adoraríamos participar, mas que já estão sem espaço para a nossa agenda hiper lotada. Confesso que estou me reeducando (e sofrendo) sobre isso. Vou morrer de saudades do livro que comecei a ler semana passada, mas que está no final da fila dos outros três que estão à sua frente, ou daquela banda que neguei participar porque já não tenho mais tempo para tocar com mais de uma. Au revoir.

Vamos nos permitir, mas negar também não é de todo mal. Aliás, faça o que quiser, mas ao menos faça.

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