A primeira vez que eu me lembro de ter tido contato com o termo “trombose” foi ainda na faculdade, em 2004.

A Mariana era uma garota bonita, que ficava lá no fundo da sala e vivia sentada. Eu achava que era preguiça dela, mas ela sempre tava com a perna em cima de uma cadeira. Achava ela diferente, devia ser da “galera do fundão”, mas quando a professora perguntou pra Mari qual era o problema dela ela respondeu: Eu tive trombose e preciso ficar com as pernas pra cima. Achei coisa de velha.

Dali a uns dois anos eu viria a ter o meu primeiro acidente vascular, mas não veio no formato de trombose, ou melhor dizendo, pode ter vindo e vou contar para vocês mais sobre esses processos/nomes e como eles podem ocorrer, mas fato é que sofri um acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI) aos 20 anos.

Puta susto. Veio do nada o danado do coágulo. Eu me lembro de ter voltado de uma cervejada da facu e ter apagado no sofá de casa, depois da festa, e quando levantei para tomar banho, Bang! Já não consegui ficar em pé com uma sensação de desiquilíbrio e perda de parte da visão.

A minha história é uma estória muito doida, porque ela revela uma sequência sem fim do gigante hiato no relacionamento médico-paciente e do quanto o sistema médico brasileiro (e vejam que falo do privado) está repleto de médicos mal pagos, desmotivados e desatualizados e o quanto ao longo da vida a gente vai acreditando neles e tomando as drogas que eles mandam sem nem se dar conta do que podem causar no nosso corpo. Prometo que conto mais sobre essa minha experiência em outro text(ão). Mas, voltando para aquele meu ‘causo’ é interessante vocês saberem coisas importantes sobre acidentes vasculares em jovens:

  • São mais comuns do que imaginamos. Pacientes entre 15 e 34 anos vem engrossando a lista de pessoas que dão entrada nos hospitais brasileiros com este tipo de problema.
  • Não necessariamente acontece o derrame. Muitos eventos (como o meu) são isquêmicos, ou seja, ocorre uma obstrução na circulação de sangue em alguma parte do seu corpo — pernas são os lugares mais comuns para “gerarem” coágulos entupidores de vasos sanguíneos.
  • Sempre, sempre, sempre existe uma causa para que o AV tenha acontecido. Normalmente a origem é reumatológica ou cardíaca, principalmente em jovens.

Aí, vai lendo, cinco dias de internação, remédios e muito amor familiar, fizeram com que eu saísse dessa sem nenhuma sequela.

Quando iniciei a investigação do que teria ocorrido comigo o neurologista que me atendeu só me disse que eu deveria procurar dois especialistas e me deu um passa-fora rapidinho. O primeiro foi o cardiologista, que fez exames e deu seu diagnóstico: tá limpo, segue pro próximo. Já o reumatologista iniciou uma série de mil exames e um deles, lá em 2006, acusou um traço estranho no meu DNA.

Eu tinha só 20 anos. E tomava um AAS (acido acetil salicílico) por dia. Ferrou meu estomago de tal jeito que passei a acompanhar ele com um omeprazol por dia. Nada de diagnóstico final. E elegemos um vilão, ou melhor, uma vilã: a pílula anticoncepcional. Abandonei minha investigação médica, certa que nunca mais tomar a pílula resolveria meu problema. Eu quis acreditar, eu me apeguei a isso e o médico não conversava muito comigo, ele só pedia e lia exames, nada de explicações. Achei que tinha feito um bom negócio.

Sabe aquela solução em forma de 28 comprimidos que todo mundo diz que é incrível e que, inclusive, é largamente recomendada por ginecologistas em todo o mundo? Então, ela pode te matar se você a tomar de forma negligente.

O anticoncepcional simplesmente não é bom para todas as mulheres. Mas nenhum médico lembra disso. Ninguém conversa com uma menina de 15 anos que antes dela iniciar o uso de anticoncepcional é interessante verificar seu histórico familiar de problemas vasculares, ou ainda, que é perigoso fumar de maneira concomitante à pílula.

A Margareth Vasconcellos compartilhou um texto a respeito deste tema no Facebook dela, mas não encontrei para colocar aqui. Mesmo dia em que o programa Bem Estar da rede Globo fez um programa inteiro sobre o quão seguras são as pílulas modernas de baixa dosagem, sem comentar nada sobre seus possíveis efeitos colaterais.

Infelizmente para mim, a pílula não foi a única culpada e eu só descobri isto quando vim a ter o meu segundo acidente vascular, um menor, chamado de Evento Transitório ou AIT, que me acertou em cheio em junho deste ano, ou seja, 10 anos depois do primeiro evento. Foi numa manhã de segunda-feira enquanto eu me arrumava para ir ao trabalho, que acabei desmaiando em minha cama e acordei desorientada, em pânico, achando que iria morrer sozinha em casa. Socorrida pelo zelador, fui levada ao hospital e novos exames foram realizados.

Só relembrando aqui o que eu disse antes…lembra que escrevi que problemas cardíacos e/ou reumatológicos são normalmente os principais causadores de acidentes vasculares em jovens? Eu tinha os dois.

Foi descoberto uma deficiência congênita no meu coração, conhecida como FOP (Forame Oval Patente), que nada mais é do que um buraquinho entre um ventrículo e outro — para quem faltou nessa aula de biologia, nós serem humanos temos dois, o esquerdo e o direito!

Eu carrego no meu DNA o que os médicos chamam de marcadores positivos que afeta a coagulação e predispõe à trombose. O último acidente vascular provavelmente surgiu de uma trombose em uma das pernas, o coágulo formado subiu pela veia aorta, bateu no coração e passou pelo meu buraquinho (o FOP), continuou a escalada e bateu no cérebro ou numa versão B, não chegou até o cérebro e meio que se desfez. Foi provavelmente isso que me salvou de efeitos colaterais graves. Gosto mais da versão B. Pensar em coisas erradas ocorrendo no seu cérebro é realmente perturbador.

Meu tratamento consistiu em duas fases: a primeira foi fazer o fechamento do FOP por meio de um cateterismo (tenho uma espécie de prótese em formato de guarda-chuvinha). A segunda parte ainda está rolando e hoje se resume a quatro comprimidos por dia e uma vida livre de tabagismo.

Eu acho que o que eu queria dividir com vocês aqui é o quanto nosso corpo humano é uma máquina complexa e que precisamos saber exatamente o tipo de coisa que colocamos para dentro dela.

Ao longo de uma parte da minha vida eu acumulei fatores de risco para uma mulher com meu perfil genético: fumei, tomei pílula, fiquei nervosa e sofri de ansiedades no trabalho e no lado pessoal.

Por um lado teria sido mais fácil ter descoberto tudo isso aos 20 anos, mas eu desconfio que não teria equilíbrio emocional para levar o tratamento. Hoje com 31 a minha vida vale muito mais. Sei que é estranho falar isso, mas é como eu me sinto.

Mulheres, prestem atenção ao sinal do seus corpos. Inchaço ou vermelhidão nas pernas, principalmente na região dos tornozelos e batata da perna é sinal de alerta. Consulte seu histórico familiar e questione eternamente seu ginecologista sobre seu método contraceptivo.

Os problemas vasculares não são glamourosos, mas precisamos falar sobre eles, porque são silenciosos e alguns fatais. Eu vou começar a fazer a minha parte e dividir as infos que recebi e contar algumas das situações que enfrentei. Já fui diagnosticada precocemente com Lúpus, uma séria doença autoimune. Semi-verdades sobre nossa saúde estão sendo distribuídas por aí como qualquer remedinho na farmácia. Vamos falar sobre isto.