Meu Carnaval da autoaceitação

O Carnaval de 2018 é o primeiro que passo realmente em paz.

Não estou dizendo meio do mato, trancada em casa, no Unidos do Eu Sozinho vendo filme na Internet, sem barulho ou coisa assim. Digo em paz comigo mesma.

Todo mundo fala do Natal, e até com razão, mas o quão depressivo pode ser o Carnaval. Pra mim sempre foi. Sentia sua chegada como a época de lembrar que eu não sou o que deveria ser. Na adolescência, eu deveria querer ir para os bailes da minha cidade, mas queria mesmo era ficar em casa e ver o desfile das escolas de samba na TV comendo pipoca. Mais velha, eu deveria querer ir viajar, ir pra praia, pro meio da animação, e tudo que queria era me esconder em qualquer lugar. Só a ideia de pegar trocentos quilômetros pra chegar no litoral, numas cidades entupidas, me dava tontura.

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Mais tarde, quando ressurgiram os blocos nas grandes cidades, eu deveria querer estar lá no meio daquela multidão, com fantasia, glitter, sensualizando, bebendo muito, pegando geral, porque né, mulher solteira não deveria ficar em casa no Carnaval, sozinha (=encalhada), nesta grande temporada de SER FELIZ.

E é essa obrigação de ser feliz que me dá preguiça do Carnaval e sempre me deixou extremamente deprimida. Porque eu tento ser feliz o ano inteiro do jeito que dá e não consigo ligar a tal da chavinha que muita gente liga na sexta-feira e que só desliga dias depois. E eu sempre me sentia bem bosta, querendo desesperadamente gostar do caos, daquelas músicas, gostar do calor infernal, da cerveja ruim, de caras grosseiros e sem qualquer noção. Um monte de coisas pelas quais muitas pessoas esperam o ano inteiro, mas que simplesmente não rolam pra mim.

Esse ano, talvez por um processo de autoconhecimento forte nos últimos meses, não senti a tristeza e a ansiedade de sempre. Acho que passei a me aceitar como eu sou. E entendi que TÁ TUDO BEM não querer ir à festa alguma de Carnaval e preferir ler um livro. Caminhar sozinha no parque. Estudar. Não quer dizer que, por isso, sou chata ou entediante ou uma pessoa sem graça ou moralista ou contra as manifestações populares (afff). Só quero viver esses dias do jeito que eu vivo no resto do ano.

Fico contente que as pessoas se divirtam, que bom pra elas, eu me divirto muito em outras épocas e a vida segue. Cada pessoa é um Carnaval particular, cheio de confetes e muvucas e complexidades, e cada um deveria, sim, poder escolher como gosta de agir, sem a Patrulha da Vida Alheia ditando regras.

Aos poucos estou conseguindo me libertar e só por isso já vale a pena abrir aquela cerveja que está me esperando na geladeira, pra curtir meu Carnaval na cama, vendo filme, porque não é errado ser eu mesma.