Eu vejo o nosso casamento. Eu vejo o nosso casamento que nem aconteceu, mas que em alguma realidade paralela poderia acontecer. Eu vejo você entrando de forma lenta e demorada, com passos curtos e incertos. Passos claros de que não foi uma decisão feliz. A cada passo você suja o tapete bordô que te direciona ao altar. Eu vejo o teto caindo em pedaços, esfarelando no sentido oposto de uma queda. O teto cai de baixo pra cima, a gravidade não funciona e aparentemente nenhum dos meus esforços pra ver seu sorriso. O teto era de mármore branco que nem sua pele, que agora se encontrava mais pálida que o normal, talvez por representar fisicamente a tristeza que você sentia. Você vem na minha direção, mas mal consegue me olhar. Já não vejo seus olhos castanho-escuros abertos. Talvez pra segurar um choro, ou por não querer ver o motivo da sua tristeza diante dos seus olhos: eu.
As plantas que possuíam como função enfeitar o ambiente, só explicitavam a sensação de morte que você e todos ali presentes emanavam. Nem teu terno estava tão preto quanto deveria. Tomou uma cor de chumbo, parecia empoeirado. Uma peça sem valor sentimental que foi jogada em um canto para uma ocasião pouco importante.
Por mais que você viesse até mim, eu que ia até você. Eu que sempre fui até você. Eu que estava parada no altar te esperando, cintilante, limpa e reluzente naquela igreja caindo aos pedaços. Eu sorria como uma boneca com um sorriso pintado e exagerado. Você vivia o pior dia do início da sua pior vida.
Eu te queria por nós dois, eu te amava por nós dois. E essa visão só me mostrou que todo meu amor não era suficiente pra te fazer feliz. Que não importava minha vontade de estar ao seu lado e todos os meus esforços pra te ter comigo, pois estávamos e sempre estaremos fadados ao fracasso juntos. A igreja cairia com nós dois lá dentro, então deixei você fugir da sua infelicidade eminente ao meu lado e morrer sozinha nos destroços da igreja do nosso casamento.
