EPÍLOGO ESCARLATE

De frente para o espelho, ela encarou suas olheiras e não teve dúvida. Abriu a gaveta, pegou um batom vermelho e esparramou sobre os lábios fracassados. Precisava tirar forças do fundo da alma e mostrar-se, no mínimo, composta.

Composta. Que palavra estranha, e ao mesmo tempo tão inapropriada. Com-postura. Sinônimo de. comedimento e retidão. Ela que era curvas, círculos, confusões e toda uma

explosão de formas emocionais e geométricas. Ser reta quando até a respiração parecia procurar os caminhos em espiral. Não seria nada fácil.

Ajeitou o cabelo enquanto assistia, em segundos, à retrospectiva de décadas. Enxergou a menina de ombros curvados, cabelos curtos e olhar fixo, emoldurado por lentes espessas em armação pesada. Reviveu a solidão dos momentos no pátio da escola e em festinhas da turma, quando era satirizada ou, com sorte, considerada invisível por aqueles jovens tão alegres quanto detestados por ela.

Lembrou-se da humilhação de estar sempre deslocada na faculdade também, até que se identificou com a ideologia de uma turma mais radical. Ansiosa por aceitação, mostrou-se valente e disposta a colaborar com o grupo em seus atos contra o sistema. Cumpria qualquer desafio para garantir seu espaço ali, onde passou a ter nome e importância.

Mais do que defender um ideal político, queria existir. Seu desejo de vingança pelo desprezo sofrido no colégio lhe impôs uma missão: ainda seria muito mais importante do que todos aqueles pequenos burgueses. Filhinhos de papai. Odiosos.

Retomou a lucidez e checou o horário no celular. Era hora de ir. Todo aquele ódio cultivado na infância ainda formatava seu olhar de escuridão.

Vestiu o blazer vermelho e deixou o quarto a caminho do tão protelado vazio existencial.

Coração Valente não desiste, coração valente não desiste, a frase girava em seu cérebro como um cartaz rotativo. Mas aguardar o despejo seria humilhante demais. Ainda que inconformada, levaria adiante sua decisão de renunciar ao que lhe era mais caro, com um discurso de mártir da democracia.

Nunca se perguntou onde errou; apenas identificava culpas nos outros, como se o pequeno grupo que a ridicularizava na adolescência tivesse sido ampliado para a quase totalidade da nação que tentava presidir.

Chegou ao Palácio sem dizer uma palavra, com a sensação de estar vivendo passado e presente ao mesmo tempo. Já não pertencia mais àquele lugar. No fundo, sabia que nunca tinha pertencido. Seu inconsciente denunciava que não passara de uma intrusa.

Chegado o momento de sua declaração, sentia o coração gelado e quase paralisado, assim como sua expressão.

De frente para o microfone, lembrou-se da imagem que vira no espelho. As olheiras, delatoras de uma batalha árdua. O vermelho nos lábios, da cor do sangue que não temeu ver derramado na juventude. O que seria mais difícil? Seguir adiante, rejeitada e abandonada por todos? Ou desistir do poder que lhe garantia alguma significância, ainda que duvidosa?

Abriu levemente a boca em busca do ar que lhe faltava, ergueu o braço e bradou, com o punho em riste: “Ninguém vai me derrotar. Esse é o meu lugar, e eu jamais renunciarei”. Escutou os aplausos da sua claque diminuta, agradeceu.

Saiu de cena, sabendo que seria uma questão de tempo – mas que não teria traído a guerrilheira que a fez existir.

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OBS: *trata-se de ficção! Não tenho bola de cristal e não é biografia.


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