Mulher no Aeroporto

Percebeu que estava atrasada e finalizou a mala às pressas. O rádio-taxi vermelho e branco chegou logo em seguida.

Deu uma última checada, passaporte, passagem e cartão de crédito. Sempre pensava que com isso na bolsa, poderia se virar em qualquer lugar.

Sua reunião começaria apenas na segunda-feira, mas antecipou o embarque para explorar Los Angeles durante o fim de semana. Queria desviar o foco do seu romance fracassado.

Deu a última conferida no espelho, aprovou a imagem. Vestia a calça preta e o blazer de couro que sempre a acompanhavam nos voos. Escolhia peças que não amassassem, porque gostava de chegar impecável após a noite mal dormida no avião. A bota de salto médio compensava os desejados 5 centímetros a mais que a genética entregou apenas às suas irmãs, e a pouca maquiagem já era suficiente para realçar seus traços. Duas camadas de rímel, batom suave e só.

As gotas de chuva no vidro do taxi pareciam espelhar suas lágrimas. Tinha a beleza e o frescor dos quase 30 anos, um emprego cobiçado e a dor lancinante de um não quero mais.

Nem mesmo a programação das próximas 48 horas trazia algum conforto. Uma noite no Beverly Wilshire, hotel de “Uma Linda Mulher”, que sempre sonhou conhecer. Passeio pela Rodeo Drive, almoço no charmoso restaurante das jardineiras, aquele de esquina, com vinho branco e ‘fried calamari’. Era assim que pretendia fazer um auto-mimo para compensar o misto de raiva e frustração deixado pelo fim do namoro. No domingo se mudaria para o hotel escolhido pela empresa, e a maratona de reuniões iria abafar a tristeza.

O trajeto até Cumbica numa sexta-feira à noite era sempre complicado, e arrastou-se ainda mais com a ansiedade por um telefonema que não chegava. O Star Tac estava ali, mudo, antipático, desafiador, irritante.

Duas Lajotinhas e um capuccino, por favor. Para ela, cumprir esse ritual na Kopenhagen do aeroporto simbolizava o início da viagem. Sempre levava as Lajotinhas para alguma emergência física ou emocional – uma vez chegou tarde a um hotel que não oferecia serviço de quarto, e elas substituíram o jantar com deliciosa eficiência.

Chegou ao lounge da Varig e percebeu atrair alguns olhares. Nem se importou. Um dos observadores era o tenista já mais velho, mas ainda um ícone do esporte. Havia ficado famoso por suas conquistas de campeonatos e mulheres.

A moça de tailleur, lenço no pescoço e coque impecável veio oferecer o aluguel de um aparelho celular que funcionaria no seu destino. No final dos anos 90 era assim, os celulares não tinham alcance internacional, e essa seria a solução. perfeita para quem estava angustiada por ficar incomunicável. Afinal, aquela ligação poderia acontecer a qualquer momento.

Assinou alguns papéis e recebeu o aparelho que estava no balcão, com uma etiqueta enorme que tinha seu número anotado. Ligou para seus pais, passou o telefone temporário e embarcou.

Abriu a mala de mão para retirar o necessaire bem montado, com tudo que usava a bordo: plugs de ouvido, máscara para os olhos, hidratantes para mãos e lábios, escova e pasta de dentes e um remedinho para induzir o sono.

Quando estava devolvendo a mala ao compartimento de bagagens, teve seu gesto interrompido: deixa que eu te ajudo, disse o famoso da sala de espera. Ela agradeceu com um leve sorriso e ele se acomodou na poltrona ao lado. Seria seu vizinho pelas próximas doze horas.

Viajando sozinha? Vai estudar?

Não, trabalho.

Nossa, tão nova, já viaja a trabalho?

Não sou tão nova.

O que você faz?

Trabalho com entretenimento…distribuição de filmes.

Indo para Los Angeles, achei que fosse atriz.

Ela achou o comentário péssimo, juntou os lábios, deu uma leve virada de olhos e balançou a cabeça num não. ‘Marketing, mesmo’.

A aeromoça chegou com potinhos de frutas secas e duas taças de champagne. Ele ergueu a taça, propondo um brinde. Boa viagem!

Ela não estava interessada em continuar aquela conversa, então colocou o fone de ouvido e escolheu um filme qualquer.

Começaram a servir o jantar, e assim que ela tirou o fone para pedir sua bebida ele aproveitou para retomar o diálogo.

Fez duas perguntas sobre ela, atropelou suas respostas e de repente o único assunto era ele. O negócio que iria fechar em uma cidade perto de Los Angeles, as viagens que tinha feito recentemente, o assédio das pessoas, sua antipatia pela imprensa, seu pouco caso com a fama de arrogante, e ele, ele, ele.

Ela achou engraçado constatar que a reputação não era injustificada.

Decidiu dormir algumas horas e na manhã seguinte desembarcaram em LAX.

Ao caminhar pelo finger, ela

percebeu os olhares curiosos dos outros passageiros. Ela, a garota anônima. Ele, o criticado mas admirado ídolo do esporte.

O quase cinquentão não perguntou muito sobre ela, mas não deixou de jogar charme. Era notória sua sensação de macho poderoso e conquistador. Sentia-se o dono do mundo.

A caminho da saída do aeroporto, o atleta mostrou-se preocupado com sua conexão para a tal cidade próxima. Ainda teria que mudar de terminal, e o aeroporto era enorme.

Chegaram à calçada, onde um homem elegante de terno escuro dirigiu-se a ela. ‘Espero que tenha feito uma boa viagem, Patricia. Com licença, vou pegar sua bagagem’.

O trabalho como executiva de marketing na indústria do entretenimento era puxado, mas tinha esses pequenos toques de glamour.

O motorista com ar de Denzel Washington parecia ter saído do casting de algum filme. Guardou sua mala e abriu a porta do Mercedes novíssimo.

O tricampeão olhou a cena e não entendeu muito. Ela então levantou sua sobrancelha esquerda e acenou com a cabeça.

  • Entra aí. Te dou uma carona.

Divertiu-se com a breve sensação de poder sobre alguém tão convencido.

No dia seguinte, seu celular alugado tocou. Sentiu um gelo no estômago, achou que o ex-namorado tivesse conseguido o número com sua mãe.

Do outro lado, aquela voz meio esquisita e desafinada. ‘Oi, estou voltando para Los Angeles. Queria te convidar para jantar’.

Não entendeu como ele sabia daquele telefone. Deve ter observado enquanto ela alugava o aparelho, que importava?

Recusou o convite. Desligou.

Sentiu o gostinho de contrariar o quase dono do mundo.

Continuou esperando aquela outra ligação.


Este é o terceiro conto da minha série “Mulheres”.

Se você gostou, clique no 💚 aqui embaixo. Assim, outras pessoas encontrarão o texto. E procure o os outros dois, Mulher no Hotel e Mulher no Uber, aqui nos posts anteriores. Obrigada!

(Foto: www.fourseasons.com)

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