Tudo o que ela me deu.

São Paulo me deu marido tatuado, filho com nome de artista, deck de madeira. 
Me deu frio no primeiro inverno, 5 graus, e depois nunca mais essa esperança de Nova Iorque nos trópicos.
São Paulo me deu baianos, capixabas, brasilienses, pernambucanos, ingleses, mais cariocas que 25 anos de Rio. Paulistas mesmo foram poucos, mas dos melhores.
São Paulo me deu seu cartão de visitas e me deu emprego e me botou na rua; me seduziu e também me deu mil foras, disse que ia me ligar e nunca. 
São Paulo não me deu a minha enxaqueca que essa eu trouxe de casa, mas aqui ela encontrou seu refúgio perfeito: temporais com a força de abrir o Jornal Nacional, panelas retumbantes, tucanos voadores .
São Paulo me deu uma ansiedade tão grande e três listras de ruga na testa e pra quê ócio quando já inventaram botox?
São Paulo me chamou pra tomar café, e me recebeu, mesmo eu não sendo filha de alguém que conhece um cara que pode te indicar pro chefe dele e aí quem sabe.
São Paulo disse que eu podia ser quem eu bem entendesse e me deu um sobrenome novo cheio de letras ‘o’ e consoantes. Por algum motivo isso me fez acreditar um pouco mais em mim. 
São Paulo me deu dinheiro e depois jogou na minha cara quanto eu custava. 
São Paulo dividiu a conta caríssima igualmente por todos e eu me lembrei do dia que tomei um mate no Baixo Gávea e os amigos do mesão foram embora deixando 3 reais e eu paguei sozinha os 250. 
São Paulo me buscou em casa, me deu carona, me ofereceu pra carregar a mudança, foi educadíssima.
São Paulo fala mal de mim pelas costas mas nunca me deixou esperando, e quem me conhece sabe que eu não troco pontualidade nem por caráter. 
São Paulo me contou piadas ruins mas riu de tudo que eu falei.
São Paulo me deu vontade de ir pro Rio num domingo, mas a vontade passou, começou a chover forte e eu perdi todos os voos dos últimos 8 anos.
São Paulo me deixou parada no trânsito e eu fui feliz cantando Jorge Vercilo com o rádio só porque eu não sabia onde eu tava. 
São Paulo me deu saudade de casa no começo e me tirou de perto de um monte de gente que morre de saudade de mim mas não o suficiente pra vir me encontrar.
São Paulo me deu um bode tão grande do Rio e me deu também essa expressão “bode” que eu achava péssima mas agora sei que é perfeita.
São Paulo me deu esses sibilantes no fim das palavras que eu forço de vez em quando de tanto que eu gosto de ser daqui.
São Paulo na verdade não me deu nada, ela me vendeu e cobra caro. E gosta de dizer que foi caro. 
São Paulo me deu a chance de ser Top, de ser PSDB, de ser VIP, mas não, obrigada. 
São Paulo não tem nada a ver comigo mas a gente se entende tão bem que sempre que vou fazer um texto de amor, termino falando dela.

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