A bissexualidade e as relações não monogâmicas

Texto originalmente publicado em minha coluna "Ai que aBIsurdo!" no portal sobre diversidade A Coisa Toda.

Hoje vou falar sobre a relação (ou a não relação) entre a bissexualidade e os relacionamentos não monogâmicos.

Mas, antes de qualquer coisa, vamos deixar bem explicadinho o seguinte: o ser humano pode ser ou pode não ser monogâmico independente da sua sexualidade. A pessoa bissexual NÃO é necessariamente poliamorista ou adepta das relações livres, ok?

Tirinha de Tiago Silva publicada no blog Quadrinhos Impossíveis.

O senso comum entende que a pessoa bi se atrai por vários gêneros e então, consequentemente, essa atração se dará simultaneamente, o que não é verdade. É como pensar que somos pessoas guiadas única e exclusivamente pela atração sexual. Como se pessoas hétero ou homossexuais não sentissem atração física por outras pessoas quando estão em um relacionamento. Como se bissexuais fossem traidores por natureza.

Isso também é preconceito (lembra da bifobia?).

Venho batendo nessa tecla desde a estreia da coluna, pois é umas das “verdades” mais mentirosas que vemos as pessoas reproduzindo por aí; pelo menos na minha opinião.

E o que são relações mono ou não monogâmicas?

Monogamia é o tipo de relacionamento em que uma pessoa tem apenas um parceiro (sexual e amoroso) enquanto durar aquela relação.

O casal concorda que o relacionamento é composto por apenas duas pessoas e um acordo de exclusividade é feito (mesmo que subentendido). Por qualquer razão que seja (preconceito, ignorância, religião, insegurança, ciúmes, sensação de posse, etc.), não aceitam a ideia de um dos parceiros, ou ambos, se relacionar também com outras pessoas. Ou simplesmente não têm essa vontade e estão satisfeitos no formato de casal exclusivo.

Já no Poliamor, a união entre os indivíduos se dá mais livremente.

O Poliamor compreende que aquelas pessoas podem nutrir sentimentos amorosos por ou desejar sexualmente outras pessoas, mesmo que já tenham um compromisso firmado com uma anterior.

Diferentemente da traição dos relacionamentos convencionais, no poliamor os indivíduos têm a liberdade de se relacionarem sem estarem quebrando nenhum acordo de exclusividade ou traindo a confiança de seus parceiros. O poliamor é consensual, ético e responsável (ou, ao menos, deveria ser).

Bandeira da luta LGBT junto a um dos símbolos popularmente usados para o Poliamor: um coração com o símbolo do infinito.

É muito comum a gente ver casais com “relacionamento aberto” e eu encaixo esse tipo de relação na gavetinha do Poliamor, mesmo que seja um pouco diferente.

Eu chamo (brincando, tá, gente!) de “relação semiaberta“, já que nela existe uma abertura não tão livre assim. Os relacionamentos abertos costumam ser formados por um casal, no qual um, ou ambos, trazem outras pessoas para a relação, normalmente para fins sexuais. Há o consentimento, há o respeito e a ética presentes no Poliamor, mas nas relações abertas há, também, a exigência de um “acordo” entre as partes, para que ninguém faça nada que vá magoar o outro, ou causar ciúmes e inseguranças.

Quer dizer, pelo menos esse é o ideal de um relacionamento aberto em que há respeito mútuo.

Infelizmente, vemos muita gente por aí usando a carta do relacionamento aberto para poder adicionar mais parceiros e parceiras sexuais à sua rotina, mesmo que a outra parte não esteja tão confortável assim com a ideia.

Muito diferente do poliamor é a Poligamia, quando uma pessoa é legalmente casada com duas ou mais. Essa prática é legalizada em vários países do mundo, tida como aceita religiosamente nesses locais e nada tem a ver com as relações poliamorosas descritas acima. Favor não confundir!

Aí, existem também as Relações Livres, ou RLi, que também têm relação com o Poliamor, mas funcionam de outra maneira

No RLi, qualquer tipo de exclusividade é completamente rejeitado, uma vez que seus praticantes se entendem como pessoas livres para se relacionarem com quem, quando e como desejarem.

Ok, mas a maioria dos poliamoristas que eu já vi por aí são bissexuais e aí?

E aí que isso não é uma regra e deduzir que todo poli é bi, ou que todo bi é poli, é genérico e preconceituoso.

Não existem regras para que a pessoa seja poliamorista (quer dizer, exceto ela não se identificar com a monogamia) e, consequentemente, o Poliamor abriga pessoas hetero, bi e homossexuais com os mais diversos formatos de relação.

Citando alguns exemplos, existem os “trisais”, que são os “casais de 3”. Há triângulos compostos por duas mulheres bissexuais e um homem hetero, no qual os três se relacionam mutuamente, bem como “trisais” compostos por dois homens e uma mulher heterossexual, no qual um dos rapazes é bissexual e o outro pode ser hetero, bi ou homo, aceitando sem problema algum que seu parceiro e parceira se envolvam à parte.

Existem também relacionamentos entre 4 ou mais pessoas do mesmo gênero ou de qualquer gênero; enfim, existem vários formatos de relacionamentos poliamorosos e não é só porque um deles é mais “comum” (entre aspas mesmo), que ele seja uma regra.

Arte de Carol Rossetti

Ainda ficou alguma confusão sobre não haver uma relação obrigatória entre orientação sexual e formato de relacionamento praticado? Vamos pensar que, uma vez que a monogamia é indiferente ao fato de o indivíduo ser hetero, bi ou homossexual, o poliamor também.

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