Derrubando mitos sobre as rações úmidas para gatos (as famosas latinhas de patê)

(Esse texto não é de minha autoria. Ele foi escrito com exclusividade pela médica veterinária e editora do site Cachorro Verde, Sylvia Angélico, para o Mãe de Cachorro, em 2011. Embora já tenham se passado anos da publicação, o assunto segue rodeado de ignorância, preconceitos, mitos e tabus, e a ração seca continua preferência entre a maioria esmagadora dos donos de gatos, que, na melhor das intenções, acreditam estar fornecendo a melhor alimentação para seus bichinhos ao comprar somente rações super premium e torcer o nariz para carnes frescas e latinhas jurando que aquilo é "junkie food".

Quem quiser estudar ainda mais a respeito, pode devorar todo o conteúdo do Cachorro Verde, que é focado na Alimentação Natural para cães e gatos e, na minha humilde opinião, é a melhor fonte sobre o assunto em português. Em inglês, gosto do material do CatInfo.org. Mas, nesse texto, vamos derrubar os mitos sobre os patês vendidos em latinhas. Em outro momento eu replico algum material mastigadinho sobre a alimentação natural, que é, de longe, a opção mais saudável.)

Como escolher a melhor ração para o meu gato? — Parte 2

Existe muita desinformação a respeito das dietas úmidas para gatos. Muitos pré-conceitos. Fora do Brasil, rações úmidas para gatos são tidas como as melhores opções. Mas por aqui ainda são um tabu danado.

Prós das dietas úmidas de lata (não as de sachês):

  • Saciam os gatos (pelo elevado teor de umidade, chegando a 84%; contra 10–12% de água das rações secas) fornecendo menos calorias. Pra se ter uma idéia, 1kg de ração seca Super Premium para gatos adultos pode conter 4.000 calorias! É muito para os bichanos que em geral vivem em ambientes cada vez menores e comem à vontade. Não é à toa que há tantos gatos acima do peso e morbidamente obesos.
  • Não têm conservadores, uma vez que são fechadas à vácuo. Tanto que elas estragam — o que é bom sinal, alimentos devem estragar, o anormal é durarem 1 ou 2 anos fora da geladeira…
  • Para conseguirem produzir o grânulo (“bolinha”) de ração, os fabricantes em geral empregam bastante amido. Por estar na forma de “patê”, as rações de lata contêm menos amido e maior teor de proteínas e de gorduras de origem animal. Mas é preciso conhecer um segredinho para interpretar corretamente os rótulos das latas. Lá estará descrito: “contém 8–10% de proteína bruta na matéria natural”, o que fará você achar esses níveis uma miséria. Mas a questão é que é preciso descontar o teor de água presente nessas rações. Quer ver? Supondo que em 100 gramas de ração de lata, haja 80% de água.Se descontarmos os 80 gramas de água, sobram 20 gramas de matéria seca (a parte desidratada da ração), que é onde estão os nutrientes. A presença de água é o que diferencia a matéria natural (com água) da seca (sem água). E é em cima desses desses 20 gramas de matéria seca que você deve calcular os valores de proteína. Se descontarmos os 80% de água, os 10% de proteína da matéria natural, se tornam 10 gramas na matéria seca. Dez gramas equivale a metade de 20 gramas. Ou seja, uma ração de lata que contenha 80% de água e 10% de proteína bruta na matéria natural, na verdade contém 50% de proteína na matéria seca. Mais carnes, vísceras e gordura animal na fórmula é sinônimo de dieta mais adequada ao carnivorismo felino, o que ajuda a prevenir o diabetes (por provocar menos picos glicêmicos), a obesidade (pela menor ingestão calórica e de amido), as alergias causadas por conservadores e/ou subprodutos de milho ou soja e, por conseqüência, a temível lipidose hepática.
  • O fato de a ração em lata conter até cerca de 80% de umidade pode dar entender que estamos pagando muito caro por… água. Mas, para os bichanos, obter água ingerindo o alimento é muito mais fisiológico. Nossos gatos descendem de pequenos felinos do deserto africano que, sem acesso regular a fontes hídricas, evoluíram para aproveitar os 60–70% de água naturalmente presente nos corpos das presas. E essa adaptação não mudou significativamente no gato doméstico. Estudos indicam que gatos alimentados exclusivamente com rações secas não percebem que estão desidratados com a mesma eficiência com que os cães percebem. Ou seja, é possível que felinos que vivem à base de grânulos não ingiram água em volume suficiente para compensar a falta de umidade da ração seca. Esta é uma das teorias que explicaria a elevada prevalência de doenças crônicas do trato urinário inferior nos gatos de hoje em dia. Não acredita? Faça o teste: ofereça ração de lata ao gato e veja uma redução drástica na procura por água. Reinstitua a ração seca e observe o bichano aumentar o consumo de água. Obs: Faça isso com o devido acompanhamento veterinário, realizando exames de urina e ultrassom de bexiga para comprovar a saúde do trato urinário de seu gato.
  • A água da ração de lata tem mais uma vantagem interessante, descoberta há pouco tempo. Ela aumenta a digestibilidade da ração! Faz sentido, afinal, o gato evoluiu — ao longo de milênios — para ingerir simultaneamente água + alimento.
  • A possibilidade de variar a matéria-prima da dieta é outra vantagem. Ao contrário das rações secas, que em geral se apresentam nas versões “carne” e “peixe”, as rações de lata permitem que se varie a matéria-prima da fórmula. Há latas com atum, carne bovina, frango, peru e até de carne e um pouco de legumes. Variar a matéria-prima aumenta o aporte de nutrientes e elementos diferentes, tornando menos provável a carência ou excesso de substâncias.
  • Por conterem elevado teor de carnes e gordura, agradam naturalmente ao paladar dos gatos. Todavia, as rações secas empregam flavorizantes e palatabilizantes (“cheirinhos e sabores”), que são verdadeiros segredos industriais e que parecem deixar os gatos viciados. Isso pode dificultar a transição para uma ração úmida, que muitas vezes não contém esse aditivo.
  • Por não incluírem grãos (ou os conterem em baixa quantidade), as rações de lata estão menos sujeitas à contaminação por micotoxinas — perigosas toxinas produzidas por fungos que acometem cerca de 25% da nossa produção de soja e de milho. As micotoxinas podem causar ao longo do tempo danos ao sistema reprodutivo, imunológico e hepático.
  • Como não sofrem o processamento industrial da extrusão (que cria as “bolinhas” das rações secas), a biodisponibilidade (grau de aproveitamento) das fontes de proteína empregadas é teoricamente superior.

Contras das dietas úmidas de lata (não as de sachês):

  • A grande crítica às rações de lata é a suposição de que causam mais “tártaro” nos gatos, por serem molinhas e úmidas. Mas a verdade é que a maioria dos gatos comem ração seca e mesmo assim desenvolvem doença periodontal. Na verdade, alguns veterinários acreditam que a presença de amido (abundante nas rações secas convencionais) é justamente um fatores predisponentes, pela fermentação do amido na boca. E se engana quem pensa que o gato mastiga adequadamente os grânulos de ração seca. No máximo, quebram algumas “bolinhas” com os molares e mandam pra dentro. Quem já viu regurgitação de gato, observou que a ração seca foi devolvida do mesmo jeito que entrou: inteirinha. Essa quebradinha com os molares não é suficiente para limpar os dentes. Portanto, quando a questão é essa, creio que dá empate. Até porque entram mais fatores predisponentes ao acúmulo de “tártaro”: genética, pH da saliva, distribuição dos dentes, imunidade, número de gatos na casa etc.
  • Não são práticas. As rações de lata requerem refrigeração e se mantêm frescas por no máximo alguns dias. O ideal, para que não percam sabor e odor atraentes ao gato é que, uma vez abertas, sejam conservadas em recipientes tampados e não na lata. Até por que a lata, por ser de metal, pode liberar substâncias prejudiciais à saúde dos gatos.
  • Não são ecológicas. Contorne isso, lavando bem as latas e descartando-as corretamente, para reciclagem. Não se esqueça de amassar bem a lata antes do descarte para que animais que vivem nas ruas não sejam atraídos pelo cheiro e não se machuquem ao revirar o lixo. Entenda:

Desvantagem que encaro uma vantagem: por não conterem conservadores (ou conterem pouco), é preciso restringir as refeições a determinados horários. Não dá pra encher a vasilha com ração úmida e largar lá o dia todo. Ela vai estragar, perder seus atrativos, ressecar, atrair moscas. Restringir horários de alimentação para os gatos não é um mau hábito. Eles não precisam ter comida à vontade, como muita gente pensa. Podem perfeitamente se adaptar a duas ou três refeições ao dia. Deixar de oferecer ração à vontade contribui significativamente para a prevenção ou controle da obesidade. Claro, no começo, eles miam, protestam, querem o buffet livre de volta. Mas depois se acostumam.

Importante: A camada de gordura gelatinosa que se acumula no topo da ração úmida deve ser desprezada, ou então, bem misturada à ração, pois, na natureza, gatos consomem presas magras (ratos, aves, pequenos répteis). A primeira colherada de uma lata recém-aberta pode consistir de gordura pura, o que não é nada bom.

Sobre rações de sachê: Dessas, particularmente, não gosto muito. Me parecem grânulos boiando em um caldo. Contêm maior teor de carboidratos (farinha de trigo) quando comparadas às de lata. E na embalagem dos saches indica-se servir quatro unidades por dia — o que encarece muito a dieta. Serve como um petisco.

Fazendo um apanhado geral, uma dieta comercial adequada para as particularidades de um felino saudável deve ter:

  • Elevado teor de proteína e gordura bruta (extrato etéreo): pelo menos acima de 28% para a proteína
  • Composição que prioriza alimentos de origem animal: Baixo teor de amido (carboidratos). Infelizmente o % de carboidrato não é informado no rótulo, uma vez que carboidratos não são elementos necessários às dietas felinas e caninas… Para descobrir o valor de carboidrato contido em uma ração é preciso descontar os valores de umidade, de proteína bruta, de extrato etéreo, de fibras, de matéria mineral etc., o que dificulta a tarefa.
  • Umidade vai muito bem. Estimula o gato a urinar mais diluidamente, aumenta a digestibilidade do alimento e sacia sem fornecer calorias em excesso.
  • Ausência de corantes (vermelho, azul, amarelo etc.). Se ainda assim optar pela ração seca e a ração for colorida, esqueça!
  • De preferência, conservadores naturais (óleo de alecrim, tocoferóis), ao invés de BHT, BHA, propilenoglicol ou etoxiquina.
  • Rações — tanto secas quanto úmidas — mas principalmente as secas — podem ser enriquecidas com pedacinhos de alimentos naturais nutricionalmente valiosos aos gatos. Para descobrir o que se pode e o que não deve ser oferecido in natura para gatos, consulte o site do Cachorro Verde.

(Leia também a parte 1 desse material)

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