Para o irmão que nunca tive

Se eu fechar os olhos, acho que até consigo me lembrar da cena. Meu pai, todo ofegante, procurava por você no berçário. Quando te viu, apontou e disse “Olha lá, o pequenininho! É ele!”.

Sabe, no começo, eu confesso: fiquei com ciúmes. Todos só falavam sobre sua chegada. Quando souberam que você viria, a coisa mudou em casa. Meu pai e minha mãe passavam noites fazendo contas e mais contas, depois riam e repetiam o quanto teríamos de economizar.

Bom, eu fiquei meio confusa. As vizinhas sorriam com os olhos esbugalhados e apertavam minhas bochechas. “Agora não é só você, vai ter que aprender a dividir a mamãe e o papai, né?”.

No dia em que levamos você pra casa, um monte de gente foi visitar. Falavam com uma voz ridícula, faziam gestos e barulhos anormais e, por um momento, tive pena de você. Porém, logo passou: eu não era mais o centro das atenções.

Na sua terceira noite em em casa, você fez um escândalo e acordou todo mundo. Eu também comecei a chorar porque queria dormir. Levei uma bronca. “Você não é mais neném pra chorar”, disseram. Engoli o choro, fui para a cama e percebi como era boa a vida sem você por perto.

Depois de algum tempo, me conformei. Você crescia e eu também. Para piorar, te colocaram na minha escola. Ela era só minha, meu refúgio, mas até lá você estava para me atrapalhar.

Um dia, um menino do terceiro ano tentou te bater. Eu fiquei com tanta, mas tanta raiva! Não entendi o motivo. Demorou um pouco para perceber que era você quem adorava uma encrenca. E depois, eu nem ligava mais.

Você sempre foi mais popular que eu. Se dava bem em matemática, diferente de mim. Havia algo que me impressionava: você não tinha vergonha de nada. Já eu, tinha vergonha de tudo: especialmente de você, é claro.

Mas a coisa só piorou. Sabe, seu gosto musical me irritava muito. Assim como suas roupas, seus passeios, o cheiro do seu desodorante, suas cuecas coloridas, seu jeito de me zoar, sua cara de bobo, seu péssimo gosto para filmes e suas gírias estranhas.

Eu ficava realmente impressionada com sua afinidade com os números: quebrou o braço quatro vezes, assim como partiu o coração de pelo menos duas amigas minhas. Teve, ao todo, treze formações de bandas. Foi expulso duas vezes do colégio. Tinha mais de trinta carrinhos na sua coleção, que você manteve intacta e perfeita por anos e anos.

Ok, às vezes, até que você era legal. Jogávamos video game e eu sentia que você me deixava ganhar no Mario Kart. Você também fazia piadas sem graça quando eu estava triste. Certa vez, emprestou parte da sua mesada para eu comprar uma blusa. Levou a culpa por coisas que eu fiz. Me ajudou na greve de fome para convencer nossa mãe a adotar um cachorro. Me presenteou com um DVD no Natal. Instalava jogos e programas no meu computador. Era, de fato, o melhor cantor de Pelados em Santos.

Eu também não era tão ruim assim. Te ensinei a nadar e a andar de bicicleta. Mostei os LPs e os filmes antigos — você adorou Indiana Jones. Fazia miojo quando você estava com fome e sabia arrumar sua cama de um jeito que te deixava coberto a noite toda. Imitava personagens de desenhos animados pra te fazer rir. Fazia cócegas até faltar o ar.

O tempo passou. Quando nossos pais se separaram, você segurou minha mão e disse “estou aqui com você”. Em seguida, fomos comer um lanche gigante perto de casa. Rimos como duas crianças, que já não éramos mais.

A verdade é que, sem você e as nossas longas conversas sem sentido, minhas convicções de mundo seriam tão diferentes! Sem você, parte das minhas lembranças se perderiam por aí. Sem você, a casa ficaria vazia e, por vezes, eu me sentiria só.

Porque eu te amo tanto, mesmo que só por essa breve existência sua na minha imaginação.

Like what you read? Give Patricia Ferrari a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.