Reitoria da UFPR (Curitiba) à esquerda e Unité d’Habitation (França), projeto de Le Corbusier, à direita.

Anatomia arquitetônica da academia

Mais conhecido como Prédio da Reitoria, o Campus II da UFPR parece ter saído de um protótipo de Le Corbusier. Com seu formato “pastilha” e boa parte do acabamento em concreto armado, o edifício tem registrado em seus genes o pragmatismo do arquiteto francês que, anos antes, disse ser a casa uma máquina de morar. Pelo interior da engrenagem, alunos de humanas da Federal percorrem os seis andares do edifício por largas rampas ou por um elevador vanguardista. Seja qual for o percurso escolhido, como únicos objetos contemplativos nas paredes, figuram quadros com fotos antigas de ex-reitores e diretores que, em uma aparente analogia a John Malkovich, parecem ter todos o mesmo rosto.

Numa quinta-feira de abril, o complexo D. Pedro II, que comporta o curso de filosofia, tinha o piso respingado por água, o que evidenciava a típica chuva de uma tarde calorenta que precisa se refrescar. Alguns alunos chegavam ao sexto andar e, andando apressadamente rumo à sala 606, ficavam confusos ao observar o vão da porta entreaberta. No recinto, o estereótipo das pessoas em uma roda parecia não corresponder à expectativa dos recém-chegados. Composta em grande maioria por senhores e mulheres mais velhas, a reunião prosseguiu sem nenhum desconforto, como se a espiadela já houvesse se repetido até atingir a normalidade.

Gentilmente ignorados em seus silêncios, um dos jovens conduziu os demais à secretaria do curso de Filosofia, algumas salas ao lado. “Heidegger? Sala de reuniões do 2º andar”, disse automaticamente a secretária ao analisar de cima a baixo o grupo. Após a impessoalidade típica dos elevadores curitibanos, todos chegaram juntos à sala indicada, onde uma média de 50 pessoas aguardava a chegada do interlocutor.

Para os famigerados às palestras extracurriculares acadêmicas, o número de 50 pessoas numa quinta-feira à tarde demonstra a notoriedade do evento. De fato, o prof. Nikola Mirkovic veio direto da Alemanha, terra natal do filósofo que estuda, para falar de suas reflexões a respeito dos Cadernos Negros. A obra, publicada há pouco mais de um ano, trata-se de 34 cadernos de capa preta em que Martin Heidegger, um dos mais influentes filósofos do séc. XX, registrou seus pensamentos pessoais durante 40 anos. Além da evidente importância para os estudiosos, o livro também reacendeu a polêmica sobre o suposto antissemitismo do alemão, provocando uma discussão mundial dentro da Filosofia.

Ao chegar à sala, após uma breve apresentação feita pelo professor da casa, Mirkovic começou a… ler. O artigo declamado, mesmo traduzido para a língua portuguesa, trazia a linguagem corpulenta de Heidegger, conhecido sobretudo pela difícil compreensão de seus textos, somada ao sotaque alemão quase ininteligível do interlocutor. Durante os 30 minutos de sua leitura, cenas à parte aconteciam no lugar. Além dos que se retiraram sem escrúpulos ainda no início da fala, outros percorriam as paredes com os olhos, como se em busca de uma distração, mesmo deparando-se apenas com os quadros de personalidades John-malkovichianas.

Os alunos mais próximos do prof. Mirkovic, portanto mais expostos aos olhares dos demais, demostravam atenção e por hora até interagiam com movimentos corporais, comprimindo os olhos em sinal de maior atenção ou levantando as sobrancelhas diante de algum suposto esclarecimento. Um outro, com óculos redondos de armação larga, dava piscadas sonolentas e despertava já fazendo sinal positivo com a cabeça, como se o intervalo de segundos inconscientes lhe tivesse concedido epifanias de compreensão. Aqueles que levaram caderninhos de anotação rabiscavam desenhos aleatórios, alguns notoriamente caprichados, inclusive.

Ao final do monólogo, Morkovic olhou pela primeira vez ao público que, por sua vez, olhou um para o outro, esperando a iniciativa de um desfecho. Nos cinco segundos que se passaram, expandidos num vácuo de tempo pelo constrangimento coletivo, o professor da casa enfim resolveu bater palmas. Como se acordados novamente para as convenções acadêmicas, todos deram sorrisos alegres e aplausos acalorados. Depois, a frase “agora vamos às perguntas” colocou o público no mesmo estado atônito de outrora. Afinal, é comumente sabido que encerrar uma palestra sem perguntas demonstra que ninguém entendeu nada.

Mais segundos se passaram, dessa vez mais longos, quando o próprio professor da casa perguntou finalmente ao convidado sobre a questão do antissemitismo. Todas as atenções retornaram num súbito e o ranger das cadeiras denunciou o ajeitar das posturas, em sinal de atenção. O assunto reviveu. Na resposta, contudo, Mirkovic pediu para responder em inglês, idioma com o qual era mais familiarizado, com a passividade prevista de um alemão falando sobre o nazismo. E assim a resposta também seguiu o silêncio naquele mesmo vácuo de tempo, um espaço-tempo bem conhecido aos frequentadores da Reitoria, onde o pensamento tornou-se rígido e técnico.

Ao final da resposta, “Alguém mais?”. Um rapaz esguio, de cabelos compridos presos num rabo de cavalo baixo, levanta a mão. É franco, diz que não conhece muito bem Heidegger e que gostaria de entender melhor o tema da palestra, que lhe ficou meio nebuloso. Muitos o olham, dão um sorriso. Ele é o porta-voz dos não entendedores anônimos. Ele representa a academia e seus tabus, e sua pergunta é a humanidade da dúvida, que surge no confinamento do formato “pastilha” e do concreto armado. O prof. Nikola Mirkovic respondeu com uma série de sugestões bibliográficas, em inglês.

(Abril de 2016 — para Jornal Comunicare)