Nota sobre uma manhã de compras no Sacolão de Curitiba
N a manhã ensolarada dessa segunda-feira eu e meu companheiro, Mauricio, partimos rumo às compras da semana. Ao chegar no Sacolão do Boa Vista, um papel na porta de vidro dizia “voltamos às atividades no dia 18 de janeiro”, no caso hoje. Ficamos felizes pela coincidência e abstraímos como são os primeiros dias de funcionamento dos estabelecimentos.

Diante de um cenário apocalíptico, pegamos nossas sacolas, bolamos um plano estratégico — “eu pego as mais pesadas e você as leves, ok?!" — e partimos para as gôndolas. Enquanto revezava entre me escorar por entre as pessoas e selecionar os melhores legumes, funcionários iam e vinham aos montes do estoque com carrinhos recheados de cores que despejavam nos respectivos lugares (imagino que, para o trabalho de reposição render, eles combinaram de não parar o carrinho em hipótese alguma, fazendo com que as pessoas fizessem verdadeiras acrobacias pra se esquivar do atropelamento iminente).
Cheguei, então, ao fundo da loja, parei um pouco e vi um desses carrinhos vindo em minha direção. Quando fui me esquivar, percebi também que inúmeras senhorinhas iam atrás do jovem que, em lugar da expressão determinada de antes, demonstrava certo medo. Assim sendo, o rapaz chegou na minha frente e simplesmente abandonou o carrinho, cheio de caixas empilhadas, como quem abandona a missão em prol do próprio bem estar. Todos começaram se empurrar, tal como mulheres atrás do buquê da noiva, diante da reluzente cor amarela da caixa: eram carambolas!
Sim, aquelas carambolas vendidas em bandejinhas nos mercados, com preços irrazoáveis, que compramos vez ou outra pra relembrar o sabor dessa obra de arte em fruta. Agora aquelas carambolas estavam ali, na minha frente, com preço de banana! (literalmente). Peguei as que pude antes de ser arremessada pra fora do bolo. Olhei pro Mauricio com várias carambolas na mão, como quem mostra o troféu de uma batalha, o qual me retornou um olhar reluzente e um sorriso de felicidade. Percebemos que, devido à carambola, as demais gôndolas estavam menos cheias e, pra satisfação completa de nossa alimentação semanal, encontramos brilhantes e verdes abacates.
Na fila do caixa não havia ninguém triste. Todos ostentavam suas sacolas cheias e trocavam impressões da compra do dia com estranhos: “hoje tudo veio bonito, né? nem precisei escolher muito a batata salsa”. “pois é! a cenoura veio geladinha, super fresca. E você viu que o melão tá no ponto, né?”. Até as atendentes estavam felizes, olhando nos olhos e desejando ‘bom dia’.
Ao sair do Sacolão, como quem sai de uma experiência que só reconhece como experiência mais tarde, percebi que sou igual às senhoras que correm atrás das carambolas e gostam de conversar sobre hortaliças, então fiquei feliz com isso.
(18 de janeiro de 2016)