O homem com olhos de caleidoscópio

Roger Corman, o consagrado cineasta e produtor de Hollywood, vem ao Brasil pela primeira vez.

Monstros mecânicos de metal furado, caranguejos gigantes, mulheres transformadas em vespas e plantas carnívoras que falam. Esses são apenas alguns personagens dentre os 400 filmes produzidos e realizados pelo mito Roger Corman, considerado o mestre dos Filmes B em Hollywood. Nesse Halloween, o cineasta fez sua primeira viagem ao Brasil para participar da quarta edição do evento Madrugada Sangrenta, organizado pela Moro Filmes.

Quem escuta a imponente voz de Roger não a vincula ao corpo já fragilizado, peso dos 88 anos de idade. Acompanhado por sua elegante esposa e sócia Julie Corman, o produtor, roteirista e diretor concedeu uma bem-humorada masterclass aos participantes do evento e contou peculiaridades de sua trajetória. Aliás, trajetória reconhecida não apenas pelos fãs, mas também pela aclamada Academia de Artes Cinematográficas, em Hollywood, que em 2009 lhe entregou o Academy Honorary Award, o cobiçado Oscar, reconhecendo a importância de seu legado à Sétima Arte.

Masterclass — Madrugada Sangrenta 2014 (Foto: Rodrigo Juste Duarte)

FILMES B

Corman é considerado o “rei dos filmes B’s”, que cunharam uma forma própria de fazer cinema desde seu surgimento, nos anos 30. Por definição, esse termo nasceu dentro de Hollywood para classificar os filmes de baixo orçamento que mantinham as poltronas ocupadas entre o lançamento dos filmes A’s, as grandes produções que necessitavam de mais recursos e tempo.

Luz e sombra era um dos recursos explorados em filmes low-budget (na foto, “I Confess” de Hitchcock — 1953)

Segundo Paulo Biscaia Filho, cineasta, diretor e um dos responsáveis pelo evento Madrugada Sangrenta, a falta de dinheiro nas produções estimulou a criatividade para que, mesmo com poucos recursos, as obras tivessem impacto narrativo sobre o público. “A partir da limitação financeira surgiram vários gêneros, como os filmes noir da década de 30 à 50, que se utilizavam dos equipamentos e iluminação de uma forma criativa, através de sombras e recortes sobre o espaço”, diz ele.

A quantidade de filmes B lançados era enorme e o próprio Corman chegou a estrear dez longas-metragens apenas em 1957! “Nessa época eu filmava durante o dia, fazia o casting para o próximo filme no almoço e editava de noite. Completamente esgotado eu percebi que precisava dormir, e então tomei jeito na vida”, conta o jocoso Corman.

COMÉDIA DE HORROR

“Ataque dos Monstros Caranguejos” (1957)

As ideias para os filmes de Corman apareciam nos momentos mais inusitados. O longa “Ataque dos Monstros Caranguejos” surgiu quando estava no dentista e, pra tentar esquecer a dor da broca, começou a folhear uma revista. “Vi fotos da cidade iugoslava de Dubrovnik e tive a ideia de fazer um filme sobre mutação genética depois de testes nucleares em uma ilha do Pacífico. Cheguei em casa, escrevi umas sete páginas e apenas um dia depois obtive o financiamento”, conta o diretor sobre a aprovação mais rápida de sua carreira.

Monstro de aparência ridícula do filme “It Conquered the World” (1956)

Mas nem todas as ideias eram bem sucedidas, como no filme “It Conquered the World” (1956). Sua formação em Engenharia, com muitas matérias de Física, o fez imaginar um monstro vindo de outro sistema solar, com a gravidade mais forte, tornando os extraterrestres bem próximos ao chão. “Na hora de filmar a cena principal, a atriz simplesmente dá um chute no monstro e o coitado sai pelos ares! Depois disso, resolvi gastar mais umas horas para aumenta-lo em 3 metros, o que o deixou com uma aparência ridícula”, ri Corman. Isso o fez criar uma regra em seus filmes: o monstro deve ser sempre maior do que o protagonista.

Para ele, o humor nos filmes low-budget é estratégico. O público ri nesses momentos propositalmente bizarros e não nos trechos de tensão, conciliando dois extremos — humor e terror.

DESCOBRINDO TESOUROS

Nicholson foi descoberto no cinema por Corman em ”A pequena loja de horrores” (1960).

Após os sucessivos filmes lançados, Roger começou a adquirir maturidade no ofício e se preocupar mais com a dramaturgia. “Na época cheguei a fazer um curso de interpretação para aprender a trabalhar melhor os atores”, recorda. E, de fato, seu olhar para os atores fez com que descobrisse grandes nomes de Hollywood, como Robert De Niro, Sandra Bullock, Sylvester Stallone e tantos outros. O filme “A pequena loja de Horrores” (1960), que ficou famoso por ter sido filmado em apenas dois dias, é a estreia do ator Jack Nicholson no cinema.

Suas obras passaram a adquirir um caráter social e político, como o filme “The Intruder” (1962), “Sem Destino” (1969) e “Os Anjos Selvagens” (1966), estrelado por Peter Fonda. Este último problematizou a gangue de motociclistas de Los Angeles, os Hell’s Angels, que não gostaram disso na época e ameaçaram o diretor de morte. Outros filmes se tornaram clássicos como as “Adaptações de Edgar Alan Poe” (1960–64), com Vicent Price, e “The Trip”(1967), sobre o uso do LSD. “Ora, veja só como eu sempre fui um diretor dedicado: você acha que eu poderia fazer um filme sobre uma viagem de ácido sem ter experimentado?”, ri Corman ao contar de sua viagem à praia com o elenco para a “pesquisa de campo”.

Peter Fonda em The Trip (1967), no Brasil “Viagem ao mundo da alucinação”

Para Biscaia, nesta fase o diretor passa a se preocupar com coisas mais interessantes. “Embora não tivesse vergonha nenhuma de colocar coisas absolutamente bizarras nos filmes, ele trazia ainda assim uma crítica social e uma criatividade no olhar da direção, ou seja, se importava de fato com o produto como algo isolado, não apenas com o valor final para vender rapidamente”, diz ele.

NEW WORLD PICTURES

Já em 1970, com 40 anos de idade e mais de 60 filmes no currículo, Roger Corman fundou a própria companhia de produção e distribuição de filmes — a New World Pictures. “Foi uma boa decisão criá-la nessa época, ótima para quem era independente no cinema, com um circuito alternativo para exibir estas produções”, comenta ele. Assim foi possível estabelecer uma boa competição do movimento contracultura com o cinema mainstream, já estabelecido no mercado.

Roger e Julie Corman em entrevista à coletiva de imprensa (Foto: Patricia Martyres)

Com o auxílio fundamental de Julie Corman, com quem casou no mesmo ano, o então produtor Roger Corman lançou diretores que hoje são consagrados na cinematografia mundial como Martin Scorcese, Francis Ford Coppola, Jonathan Demme, James Cameron, Tim Burton, Curtis Hanson, além de ter promovido no circuito comercial americano Ingman Bergman, Fellini e Kurosawa. Esse olhar clínico na descoberta de talentos cunhou termos como “Escola Roger Corman” e “o homem com olhos de caleidoscópio”.

Quando questionado sobre o que busca nos diretores que irá produzir, ele não hesita em três requisitos. Primeiro a inteligência — “nunca vi um diretor ou produtor de sucesso que não fosse inteligente”, diz. A segunda é a habilidade e a vontade de trabalhar duro, ser dedicado — “há uma ideia generalizada de que o cinema é um trabalho com glamour, e até certo ponto é, mas também é muita labuta”. A terceira é algo intangível: criatividade.

Corman ao lado de seu item indispensável — a cadeira.

Repentinamente, como quem lembrou de um item indispensável da lista, Corman frisou que o mais importante para o diretor é ter uma cadeira! “Instruo os diretores a escrever seu nome numa cadeira e não deixar ninguém sentar ali”. Foi essa orientação dada ao então jovem diretor Alan Arkush em uma de suas aulas. “Alan dava tudo de si o tempo inteiro mas nunca se sentava na cadeira. No último dia de filmagem, foi parar no hospital por exaustão e outro diretor veio finalizar as últimas cenas em seu lugar, ou seja, é preciso descansar entre as filmagens”, finaliza.

CINEMA INDEPENDENTE NO BRASIL

Segundo Paulo Biscaia, no Brasil não há mercado suficiente para distinguir filmes A e filmes B.

“Quando perguntaram a um amigo, também diretor, o que ele acha da produção trash brasileira contemporânea, ele respondeu ‘vai muito bem, é só ver os filmes da rede Globo’”, ri Paulo.

Para ele, isso exemplifica que, no país, produções milionárias às vezes carecem mais de qualidade técnica do que os filmes de baixo orçamento, que costumam ser mais interessantes e criativos. “Isso acontece também em Hollywood, não há dúvida, mas no atual ecossistema brasileiro não faz sentido fazer um filme milionário uma vez que é impossível ter esse retorno de bilheteria”, conclui Biscaia.

Roger Corman complementa a importância que o fator econômico possui no cenário cultural das produções cinematográficas. “Na Europa, filmes-arte são possíveis pois há subsídio do governo. Fellini, Bergman e Truffaut não tinham a necessidade de reaver o dinheiro, então estavam livres para fazer o que queriam. Na América isso é diferente, pois é uma indústria movida a fazer dinheiro, então é o que você tem que fazer”, conclui.


A NOVA CARA DOS FILMES B

Desde seus primórdios, os filmes B adquiriram uma nova roupagem, com mais recursos tecnológicos mesmo ainda com baixos orçamentos. É o caso do jovem diretor Shane Carruth, que produziu seu primeiro filme, a ficção científica “Primer” (2004), com o orçamento de apenas sete mil dólares. Para isso, o próprio diretor atuou como protagonista e a maior parte da filmagem se passa em sua garagem.

Frame de “Primer” (2004), filme genial que exemplifica como o bom cinema não depende de orçamentos altíssimos.

O filme foi ovacionado pela crítica e premiado em grandes festivais, como o Festival Sundance de Cinema, tornando-se uma referência no cenário cult. Após o sucesso, Shane lançou o surreal filme “Upstream Color” (2013), que concorreu em diversas categorias no Oscar, dentre elas a de “Melhor Filme”.

(Reportagem publicada originalmente na Revista D’PontaPonta, na edição impressa de nov/2014)

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