Solitude sabática

Naquele momento ele era o único existente na rua, portanto no mundo. Costumo sentir-me segura quando, ao caminhar sozinha por entre vielas bucólicas encobertas pelo breu, ouço passos confiáveis. Tenho o palpite de que é possível julgar o caráter e intenções de outrem somente pelo som de seus caminhar, pelo peso e posição com que a planta do pé entra em contato com o solo.

Desta vez a rua não estava deserta, tampouco era noite — apenas uma manhã de sábado onde a boca traz gosto de fel e a alma o grito amordaçado de uma existência frustrada. Os meus passos oscilantes formaram um ritmo com os passos dele, brandos e sincronizados com assovios pueris que libertaram meu corpo imerso em atrofia. Descruzo os braços, sinto o vento, contemplo e emerjo num oceano profundo de paz. Junto-me aos pássaros ao redor e, durante alguns segundos, vivo o presente, o instante.

Num piscar de olhos — o tempo que essas eternidades costumam durar — todo o derradeiro bem que ele me fazia veio à consciência e, consciente, temi. Andei rapidamente, firme, ofegante; o corpo volta a enrijecer. O assovio, outrora melódico, tornou-se gastura.

O som cessou. Penso que o arquétipo havia virado a esquina e, com um saudosismo desesperado, busco-o com o canto dos olhos. Ele estava lá, suprimido pelo barulho de meus passos apressados. Senti-me protegida novamente e, num abrupto ato inconsciente, sou eu quem vira a esquina. O perco.

Solidão, tão difícil ser quebrada quando enlaçada. Entro com ela na banheira, sento no azul celeste da porcelana enquanto a água quente carrega ao ralo minha sujeira e lágrimas. Gozo em meio ao pranto e então morro. Renasço.

(Escrito em 06/09/2014)