O pote de lixo no fim do arco-íris

Através dessa breve análise, demonstramos como as cadeias de produção, distribuição e comercialização alimentícias são responsáveis pelo descarte de toneladas diárias de alimentos em perfeito estado de consumo e porque a fome no mundo é um problema de logística, e não de escassez.

O primeiro contato de uma visita à Ceasa (Central de Abastecimento de Alimentos) de Curitiba, localizada no bairro do Tatuquara, impressiona desde o lado de fora. As cancelas para os carros e caminhões da entrada principal transmitem uma sensação fronteiriça de aduana ao local, com enormes estacionamentos dentro e fora, e veículos de carga entrando e saindo a todo instante.

Foto: Patricia Martyres

De fato, a Ceasa se assemelha a uma pequena cidade movimentada a todo vapor, em uma área de mais de 500 mil metros quadrados onde aproximadamente 350 produtores agrícolas e mais de 600 atacadistas circulam diariamente a partir das cinco horas da manhã. No caminhar frenético dos transportadores de caixas e carrinheiros, a quantidade de frutas, verduras e legumes surpreende a cada olhada.

Entre o vai e vem, porém, até mesmo um visitante menos atento nota um comportamento comum entre a maior parte das pessoas ali dentro: a ação de descarte, intencional ou não, de produtos aparentemente bons para o consumo. A cada passo, há abóboras, tomates, abacaxis, mamões, pepinos e toda a sorte de hortifrútis jogados no chão, no asfalto e nos gramados.

Fotos: Patricia Martyres

O desperdício de alimentos na Ceasa é um imenso problema público sobre o qual grande parte da população pouco ou quase nada conhece. Todos os dias, a Central de Abastecimento de Curitiba — falando apenas da de Curitiba, sem contabilizar as outras quatro Centrais no Estado — despeja em torno de 40 toneladas de alimentos no lixo. Isso representa um impacto de 960 toneladas que vão diretamente para os aterros todos os meses. Se há tanta sobra de comida apenas em nossa região, como é possível que, ainda hoje, uma em cada nove pessoas no mundo passe fome, segundo dados da ONU?

O problema, portanto, não é a falta de comida no mundo, mas a sua má distribuição entre as pessoas. É essa a ideia defendida pelo líder do movimento Slow Food Pró-Vita no Paraná, João Alceu dos Santos. Através dos trabalhos realizados pela ONG Slow Food, que teve sua origem na Itália em 1986 e hoje tem representantes no mundo todo, Santos conquistou um espaço dentro da Ceasa, com o objetivo de interferir no ciclo do desperdício alimentício do sistema e dar um novo destino aos produtos viáveis para consumo que iriam para o lixo.

Foto: Patricia Martyres

Foi então que a ONG reativou uma estrutura de cozinha industrial, anteriormente abandonada, e passou a promover eventos voltados à populações carentes. De ceias de Natal até festas juninas, a comida dos eventos é 100% preparada a partir das coletas realizadas na Ceasa. “Há quem não acredite que alimentos tão bons são considerados descarte, mas aqui ninguém passa fome”, brinca o representante da organização.

Foto: Patricia Martyres

Para o gerente do Banco de Alimentos, Gilmar Palvelski, o desperdício acontece durante todo o ciclo econômico de alimentos. “Desde a própria produção rural, lá nas lavouras, muito se perde devido principalmente às dificuldades de transporte e logística desses produtos, que geralmente são bastante frágeis”, destaca. Além disso, são poucos funcionários para atender as demandas de descarte, o que leva a maioria dos produtores a contratar o serviço de coleta de lixo para se livrar do montante, encaminhando-os direto aos lixões e ainda pagando por isso.

A ONG Slow Food está concretizando, aos poucos, medidas que visam à mudança do destino de bons alimentos para instituições filantrópicas e pessoas em vulnerabilidade econômica. “No início, salvávamos apenas cerca de quatro das 40 toneladas diárias de alimentos. Hoje estamos caminhando para mais de 12 toneladas recuperadas todos os dias”, diz Santos.

Raimundo recolhe alimentos na Ceasa para ações filantrópicas (Foto: Patricia Martyres)

No complexo da Ceasa existem hoje três pontos de coleta chamados Ecopontos, cada um com uma máquina de prensagem das sobras orgânicas que não podem ser aproveitadas, e alguns funcionários e voluntários para realizarem uma triagem dos alimentos recebidos. Esses alimentos são distribuídos para as entidades cadastradas gratuitamente no Banco de Alimentos. Em um dos Ecopontos, Raimundo Langner, voluntário de uma paróquia da igreja católica escolhia tomates de dentro de dezenas de caixas repletas da fruta. “Servimos almoços diários para a comunidade carente da região da igreja, que fica no Cajuru. Eu venho aqui uma vez por semana e consigo levar mantimentos suficientes para o almoço de todos os outros dias”, conta Langner, um senhor de cabelos brancos e energia invejável. Para ele, onde os produtores e atacadistas enxergam lixo, as entidades sociais veem alimento.

Várias facetas de um mesmo problema

As Centrais de Abastecimento de Alimentos em todo o país são apenas o “ponto médio” do ciclo do desperdício. O problema continua bem depois da distribuição de produtos para mercados municipais, redes de supermercados, feiras, restaurantes e no âmbito doméstico também. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) responsabiliza os proprietários de estabelecimentos, civil e criminalmente, por eventuais danos a saúde de quem consumir alimentos doados ou distribuídos por eles.

Alimentos descartados no Mercado Municipal vão direto aos lixões (Foto:Patricia Martyres)

A lei, que se aplica às pontas de comércio, tornou quase nula a doação dos alimentos que sobram nos restaurantes, a chamada “sobra limpa”. Mesmo que a comida preparada não tenha saído da cozinha sequer para a gôndola do buffet, o descarte dos excessos é feito na maioria das vezes direto no lixo.

A ex garçonete Emília Zanote, que passou por diversos restaurantes em sua vida profissional, diz que de tão comum, o descarte se torna automático. “A gente se acostuma a jogar comida boa no lixo, já que na grande maioria dos restaurantes o patrão não deixa nem que os funcionários levem as sobras pra casa”, comenta.

Já nos supermercados, o cenário é semelhante. Segundo um representante de vendas para supermercados de Curitiba e região de uma marca de laticínios que não quis se identificar, é por causa dessa legislação que os mercados se recusam a destinar gratuitamente produtos com poucos dias da data de vencimento. “Logo que chegaram ao Brasil, algumas redes internacionais tentaram doar parte desse estoque ainda consumível, mas por causa do embate com a Vigilância, a prática foi descartada e hoje eles têm uma parceira com uma empresa de recolhimento de lixos, que direcionam os produtos sem qualquer risco de serem desviados por alguém ou um grupo de pessoas”, relata ele.

Wefood, o mercado dinamarquês que vende produtos vencidos (Foto: divulgação)

Em alguns países do exterior, como a Dinamarca e a França, por exemplo, essa realidade é bem diferente. Há um ano, Copenhague, a capital dinamarquesa, recebeu o primeiro “mercado de vencidos” do país. O empreendimento, chamado WeFood, é sustentado pela comercialização de produtos vencidos ou que estão prestes a vencer e anteriormente eram vendidos no comércio convencional. No WeFood eles têm uma etiqueta de menos da metade do valor original, ou seja, o consumidor paga uma bagatela por um produto ainda consumível.

“WeFood é o primeiro supermercado do gênero na Dinamarca e talvez até no mundo. Não estamos apenas estendendo a mão para os consumidores de baixa renda, mas tentando apelar para quem se preocupa com a quantidade de resíduos de alimentos produzidos em nossa sociedade”, é o que defente Per Bjerre, um porta-voz da iniciativa. Para Bjerre, enquanto 79 milhões de pessoas estão passando fome todos os dias no mundo, é inadmissível que continuemos vivendo um mesmo sistema falho de distribuição alimentar.

Iniciativas Particulares

Apesar da falha que permeiam toda a cadeia alimentar, são as atitudes individuais que possuem a potência de alterar o micro e reverberar no macro. É assim que pensa Flávia Sotto Maior, advogada que despertou para o assunto em uma viagem à Alemanha. “Fiquei sozinha na casa de uma amiga e me surpreendi com a quantidade de resíduos que produzi nesse tempo”, diz ela. A situação ficou mais evidente estando em um país com maior consciência à respeito do desperdício e com políticas públicas que estimulam as atitudes individuais. “Na Alemanha, se você jogar lixo orgânico no lugar do plástico, por exemplo, é capaz de irem na tua casa deixá-lo de volta”, brinca Flávia, ressaltando que lá existe multa para quem mistura os resíduos orgânicos com os recicláveis.

Flávia e sua composteira doméstica (Foto: Patricia Martyres)

Após o contraste, a advogada passou a se atentar aos ciclos domésticos e, desde então, busca se especializar nas alternativas para o problema, afinal, para ela a consciência ambiental é o princípio necessário para a harmonia global. Assim, começou a dar palestras sobre o uso da composteira doméstica, para onde são destinadas as sobras orgânicas que se tornam novamente alimento no futuro e solucionam o problema dos lixões. Também aderiu à ONG Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), uma iniciativa internacional que já acontece em 60 lugares do Brasil e estimula o consumidor a comprar alimentos orgânicos direto dos produtores. Dessa forma, o agricultor sabe a quantidade exata de alimentos que deve produzir e tem seu salário garantido, sem depender das pontas de mercado, que são grandes responsáveis pelo desperdício.

Flávia participa há seis meses do projeto, vigente na região de Curitiba, e é positiva sobre a alternativa. “É algo simples, eficaz e sustentável, além de trazer vantagens tanto ao produtor quanto ao consumidor, que tem toda semana alimentos orgânicos com preço justo”, complementa.


Dos quase 60 anos de existência do Mercado Municipal de Curitiba, dona Maria está lá há 49. Já aposentada duas vezes, a franzina senhora deixa diariamente sua casa no Parolin para ocupar um cantinho em que, sentada numa estrutura de concreto, presta serviços a alguns feirantes.

O caminho de 5 quilômetros até sua casa, que hoje é feito de ônibus, durante muito tempo foi feito à pé. “Eu ia e voltava de casa puxando meu carrinho, já que ganho dos feirantes os alimentos que eles iam jogar fora”, conta. Com esses alimentos, descartados em grande parte por alguma batida na casca ou ranhura nas folhas, dona Maria alimentou seus cinco filhos com riqueza de cardápio. “Eles jogam tanta coisa boa fora que dá até dó”, diz ela, que leva apenas uma pequena parcela dentre os tonéis descartados diariamente.

Dona Maria permanece exatamente na divisa do corredor que liga o interior ao exterior do mercado. Fica entre o palco de quimeras coloridas, com frutas, legumes e verduras que reluzem impecáveis das gôndolas, e os bastidores, cujos alimentos já não tão lustrosos são amontoadas dentro de sacos plásticos e jogadas em algum dos cinco tonéis, recolhidos pelo caminhão de lixo duas vezes por dia.

Quem passa por ali logo conhece Cláudio, de 43 anos, que foi recentemente contratado pelo lugar para manter a ordem dos descartes. “Tinha gente que revirava os tonéis pra pegar os alimentos, mas daí acabavam abrindo os sacos e fazendo sujeira”, conta Claudio, orgulhoso de seu ofício.

À esquerda, reciclers em ação após resgate de alimentos no Mercado Municipal. À direita, o artista Rodrigo Alves, que vê no resgate de alimentos uma solução para o desperdício (Fotos: arquivo pessoal)

Conscientes do desperdício diário, algumas pessoas, assim como dona Maria, adquiriram o hábito de reaproveitar os alimentos das feiras. É o caso do rondoniano Rodrigo Alves, artista independente que conheceu os “Recicles”, nome dado à prática, através de um coletivo de Curitiba, o El Quinto. Com isso, o grupo garantia a alimentação completa de todos os integrantes e, com o tempo, desenvolveram até algumas estratégias. Dentre os passos, Rodrigo conta que a abordagem ao feirante é muito importante, já que alguns preferem ajudar apenas os recolhedores despretensiosos. “Se você aborda como uma necessidade eles não são muito receptivos, já que não querem que muitas pessoas vão pedir”, alerta.

Apesar disso, o recicler ressalta que a maioria dos feirantes apoiam a ideia e ajudam muito, alguns até criando vínculos de camaradagem ou práticas de trocas. Depois da coleta, o Recicle do dia passa pelo processo de seleção para descartar os que já estão passados, contudo, como bem frisam os adeptos do movimento, a maioria está em ótimo estado para consumo.

(Março de 2016 — para Revista Digital CDM por Fernanda Maldonado e Patricia Martyres)

1º lugar — cat. Reportagem para Revista do 1º Prêmio Universitário Cabeça