Revoluções Individuais

O que na verdade te faz sentir vivo é aquele burburinho, a sede do que te falta, o que te faz dar meia volta pra buscar o que esqueceu.

Status quo: “Condição que se mantém antes de qualquer alteração”. Forma abreviada da expressão latina “status quo res erant ante bellum” que significa “no estado em que as coisas estavam antes da guerra”, faz alusão ao que permanece ou se mantém.

Essa é a definição do dicionário. Podemos encarar como a forma em que as coisas funcionam agora. O momento presente. Mas e esse… antes da guerra? Que guerra seria essa? Batalhas travadas entre nações com interesses político-econômicos distintos? Lideranças de ego inflado? Costumo pensar que não. Porque na realidade, toda guerra entre povos começa primeiro no interior de alguém. Uma controvérsia interna entre ideias, a qual não se resolve facilmente. O conflito é tão intenso que não é possível aceitar que ambas possam coexistir. É necessário escolher um dos lados. Abdicar de uma filosofia e defender um lado até a morte. Eis aqui a descrição da formação da opinião moderna. Eu contra você. Nós contra todos.

E isso tá certo? A resposta certa seria sim, se essa forma de encarar as coisas não causasse sofrimento às pessoas. Pelo menos não à grande parte delas, o que não é o caso.

O ambiente em que vivemos hoje é quase inóspito. Existe uma força invisível — similar a mão invisível que rege a economia, de Adam Smith — a qual nos influência a tomar decisões diariamente e a pensar de tal forma que o outro é o inimigo. Com o surgimento das redes sociais está mais claro, ou seja, percebemos melhor como as pessoas se relacionam. Muita gente acredita que “hoje em dia” as pessoas, a “geração XPTO” não sabe respeitar o outro. Eu arrisco a dizer que desde antes do surgimento do Facebook e da maldita facilidade que temos em “comentar”, as relações eram dessa forma. A intolerância, apesar de ser uma manifestação humana, tem se mostrado nua e crua nos últimos tempos, mas ela sempre existiu — e sempre existirá.

Segundo a psicanálise, a manifestação intensa de sentimentos como ódio, raiva, agressão ou inveja, está mais relacionada às pessoas que lembram a nós mesmos e nos ameaçam por semelhanças do que àquelas que temos pouco em comum. Esse conceito deu origem ao termo “narcisismo das pequenas diferenças". Em outras palavras, identificamos no outro algo que nos incomoda em nós mesmos e junto a isso, vem uma ânsia enorme por mudança — afinal, é muito mais fácil consertar ao outro do que você mesmo, né!?

Mas estar pronto pra guerra o tempo inteiro é exaustivo. Tem momentos em que a gente para e pergunta por que estou fazendo isso? Ou para que estou fazendo isso? O pensamento automático cessa, e é possível percebermos a inércia da situação, e pensamos: quero mudar. Particularmente essas situações me trazem muita satisfação. É como se nos elevássemos de nós mesmos e pudéssemos enxergar de fora, de forma holística, o que está acontecendo. Olhar para aquilo e estudar o meu posicionamento e das pessoas em volta. Avaliar os impactos daquilo no meu ser e no outro: quais as consequências desse comportamento pra mim? Que tipo de ações eu estou motivando com as minhas atitudes? As consequências estão em linha com os meus valores? É neste momento de enlightenment que percebemos a necessidade de alterar o status quo. O momento de revolução interior. E como toda revolução — através da guerra bélica, ideológica (interna ou externa) — busca-se a alteração do estado atual para um outro, desconhecido em maior parte, mas em que se acredita ser melhor.

É aquele momento de amadurecimento em que não sabemos exatamente o que faremos para consertar, mas percebemos que algo precisa ser feito. A mudança, à partir daí, é individual. O ritmo em que as batalhas internas acontecem e quanto tempo durarão é diferente em cada um. O resultado também é único e o que parece certo para mim, pode não ser para o outro. Mas isso importa? Na realidade não. Afinal, não existe apenas uma forma certa para cada uma das 7 bilhões de pessoas vivendo no planeta.(não chega a ser absurdo quando colocamos desse forma?).

Como diria Darwin, a evolução é a única forma de sobrevivência, e como a evolução é sinônimo de mudança — e não melhora, como muitos pensam — precisamos estar sempre em movimento, e dispostos a transformação se quisermos sobreviver. E não digo isso apenas no sentido biológico de sobrevivência, mas de sanidade mental, de bem-estar psicológico e da sobrevivência da nossa felicidade.

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Inspirações & Referências:

Música: Hans Zimmer — Interstellar: Original Motion Picture Soundtrack/ Linkin Park — One Mor Light (álbum)/ Movie Soundtracks (Classical/ Instrumental) — Spotify

Literatura: Nuccio Ordine, A inutilidade do Inútil/ Mário Sérgio Cortella, Por que fazemos o que fazemos?/ João Angelo Fantini, Raízes da Intolerância: A Segregação Imaginária do Outro — http://sig.org.br/wp-content/uploads/2016/04/N6_EmPauta2.pdf