Sou jornalista e médica veterinária e hoje, optei definitivamente — ou quase — a cuidar da saúde dos animais de estimação e, por tabela, da saúde humana. As zoonoses precisam ser melhor entendidas pelos médicos e nós, médicos veterinários estudamos muito essa parte.
Mas voltando ao que interessa, lidar com animais é muito, muito gratificante, mas precisamos ter um bom conhecimento de psicologia para lidar com proprietários. A Veterinária me ensinou que é fundamental reconhecer os arquétipos que se escondem atrás de cada tipo de proprietário e, para cada um deles, é preciso ter sensibilidade e muita paciência para lidar com as ansiedades, medos, dúvidas e, sobretudo, com as perdas — inerentes a quem lida com vidas.
Tudo isso, Celina, me fez enxergar que não existe um tipo de comportamento humano que possa, de forma simplista, ser classificado de “normal”. Somos todos humanos e como tais, falíveis e imperfeitos. Porém, é justamente aí que reside a beleza da alma humana: a capacidade de transformar, de criar soluções, de superar obstáculos e de dar a volta por cima.
Hoje em dia, talvez por ignorância, as pessoas adquiriram um péssimo hábito de rotular tudo e todos e isso é muito perigoso porque cria traumas, magoa, enfraquece aqueles que se sentem menosprezados pela banalização de termos médicos quando proferidos por leigos.
Um exemplo: hoje, qualquer pessoa que destoe um pouco da pseudo normalidade é taxado de bipolar. Ora, o que significa bipolaridade em termos psiquiátricos? Respondo. O nome da desordem é Distúrbio Bipolar Afetivo (BAD), na sigla em inglês e afeta cerca de 15% da população mundial, considerando-se apenas os casos diagnosticados. Os sintomas clássicos são alterações bruscas de humor — hipomania, mania, euforia e depressão profunda, que se alternam em ciclos com intervalos cada vez mais curtos, culminando em um dos dois extremos, ou seja, surto psicótico ou depressão com altíssimo risco de suicídio.
BAD ainda não tem cura, mas tem tratamento eficaz, mas que só é possível quando o paciente aceita que tem a doença. A maioria nega e se recusa a tratar-se, infelizmente. Mas, dentre as diversas patologias psiquiátricas que se encontram descritas nos anais da medicina, esta pode set considerada uma das mais, digamos, fáceis de tratar e com resultados excelentes, fazendo com que o paciente tenha uma vida absolutamente normal e produtiva. No entanto, ninguém que classifica um conhecido, um amigo ou um colega de trabalho de bipolar sabe o que está falando e, claro, por total falta de conhecimento, transforma uma doença séria em sinônimo de “maluquete”, “fora da casinha”, “porra louca” e afins.
Resumindo — para encerrar — , concordo com você que é preciso falar abertamente sobre as doenças psiquiátricas, criar grupos de apoio e divulgar os avanços da psiquiatria e da neuropsiquiatria em relação aos tratamentos modernos e eficientes, assim como as possibilidades de cura. Por isso, acho importantíssimo que pessoas famosas como Kassia Kiss e Rita Lee, ambas bipolares assumidas e em tratamento (Kassia Kiss deu uma entrevista dizendo que tinha conversado com o marido, que é psiquiatra, e que eles tinham decidido abandonar os medicamentos e manter a química cerebral equilibrada apenas com alimentação e meditação) e que abriram publicamente suas experiências, contando como fizeram para lidar com isso. Por si só, já demonstra coragem e deixa claro que todos nós corremos riscos diários e que doença, não dá em poste. Assumir e divulgar pode ser um bom começo.
(Espero não ter me alongado demais…)