©pvl um canto perto da inquisição (2014)


26 M a 4 e 19 A |2015|

Março

(textos soltos que precisam morrer juntos, textos escritos sem pausa sem emendas sem escolha de nada. coisa sentida, coisa dita na escrita)


Mandas-me notícias. Por telemóvel. Li em andamento entre encostas escarpadas e a estrada sinuosa. Li que visitavas alguém no hospital, entretanto li algo parecido com ‘um abraço ainda de cama’ e depois um 18. O dezoito era o número da cama. Fiquei estarrecida, o ziguezague da estrada fazia aquele delay.

Tentei ligar-te e tu também, mas as montanhas não nos deixaram falar logo. Este número da tua cama faz memória com algo mais triste e que nem sei porque me lembro e o estou a evocar, mas faz 18 anos que perdi alguém importante. Foi algo que estala cá dentro e de repente sou assolada pela perda, pela ausência total de comunicação. Não sei. Não sei porque tinhas de ficar logo agora assim. Provas de esforço e de resiliência, eu diria afectiva, está-se a sentir muito em tão pouco tempo. Eu sei, eu precipitei a parte do desejo e de nos imaginar com os peitos colados e a sentir as pulsações um do outro entre sussurros respirados em profunda entrega. Mas não nada disto. Talvez isto fosse assim mais fácil, entregas o teu corpo e pronto, vamos disto, nos gostos, muitos, bem, ou não gostou disto ou daquilo, mas olha havemos de lidar com isso, e siga.

Isto está a ser tudo diferente estamos a descobrir coisas, não sentimos desejos e as coisas complicam-se na parte do se “e se um dia” acontece e nos beijamos e depois pegamos em nós, vemos as partes e as dobradiças do corpo as partes findas e quentes as planas e frias e tudo é uma desilusão. Ficamos como?! Amigos conformados? Comunicaremos por educação e nas datas festivas e dizemos carinhosamente “sempre foste especial mas não deu…”. Não sei, mas viverei como se fosse o último dia.

Abril


Aqui, uma certa estranheza nisto tudo. Estou confusa mas muita certa do que seria óptimo. Pelas primeiras vezes sinto que não sei escrever que os estados de felicidade são maiores que qualquer pedaço das teclas que desenham um fundo. Não sei escrever. Isso sei. Nada me sai. Talvez seja pelo facto da tal dita felicidade. Sei que tenho um corpo ao lado e este não me pertence, sei que se irá embora e cedo aperceber-se-á que sou fraca. Tem graça, agora sinto-me a escrever de novo, sempre que o fado começa a soar este é o meu real registo. O fado. O infortúnio. O pesar. Sou diferente disto tudo, não quero fado nem infortúnio nem pesar, nada disto me pertence só me acompanha. Tu que aqui estás ao meu lado ainda não sabes, mas cedo pararemos esta viagem e os cento e oitenta dias ficarão por dobrar. Não estou a gizar uma profecia estou a sentir que será assim. Não terás estômago para mim, serei pequena ao lado daquilo que procuras numa mulher-corpo ante desenhado. Estou inebriada pelo amor e entendimento corpo-a-corpo que há anos fiados não tenho e não procurei. Isto é mesmo muito bom tão bom que não é verdade que não tem qualquer ponte com uma realidade próxima e/ou qualquer casa ou relvado ou chapéu de praia. Tudo não passará de uma quimera para mim, para ambos quiçá, sim para ambos. Sei também que te arrependerás. Estamos ambos com uma larga esperança e isso não te nego, contudo estamos confinados à nossa circunstância e à nossa cabeça, aquela que não para de pensar e de sentir coisas. Paremos por aqui, será melhor. Passará esta semana de grande amor e depois ficará, mesmo assim, eternamente na memória como a espuma dos dias uma história de um amor imaginado num fim-de-semana. Um amor desejado uma abertura do desejo que estivera embutido. Abrimos assim as portas ao mundo e deixamos que ele entre sem reservas. Façamos o pedido, sei do que gostas…brindaremos melhor, sorrir na mesa e na cama.

Vi esses olhos na travessa que acolhia a minha malga do pequeno almoço em miúda, em todo o lado da minha memória figura a expressão do ser-se feliz, sempre. O teu peito pequeno, vasto como um campo de feno com aquele cheiro que só cativa a percorrer todos os poros e cair, falecer de cansaço nos braços que só esperam um ombro para carpir. Afinal sei que te irás embora e tudo será como sempre foi antigamente. Falo aqui, sofregamente já da despedida como se fosse eterna. Cada um irá elegantemente e com um sorriso, um para seu lado, cada um com a sua vida mais ou menos atarefada ou até com outras pessoas mesmo. Não sabemos. Para já voltemos aos teus olhos ao prato que os reflecte. Olhos intensos. Pelos olhos que toda a gente falece.