Duplex Pupula

Até que o tempo nos separe

a história duas vezes sem fim

Fazia perto dum ano desde que Maria partira.

- Olha! Escuta, estás a ver-me?!

(Quando o ouvi chamar por mim senti que era agora. Tudo iria mudar. Acordei e penso no que entretanto já se tinha varrido, aquela história em mnemónica daquele sonho suado. Ao almoço lembrara-me que aquela persiana era o leque do sonho, num verde pálido num movimento gráfico e sumido… depois disto, tudo aconteceu. Os planos estavam feitos, sabia o que queria, estava cansada da vida que levava)

Julia era assim, de altos-e-baixos, em tempos tomara comprimidos para o humor lábil, vendia coragem mas ultrapassava sempre a margem do possível, ou melhor, daquilo que conseguia produzir efectivamente na sua fábrica interna onde só habitavam pequenas amostras deste protótipo – coragem.

Perto de Março conhece Benjamim, trocam missivas e mergulham naquele filme «in the mood for love» nos desejos de um futuro a dois. Pouco depois, em Abril vão à praia passam uns dias a sul, trocam nas estradas de Sintra ideias sobre jardins, casas, carpintarias os cheiros da madeira polida e da marca do tempo nas folhas de papel. Os trabalhos foram sonhados nos modos de vida pacato mas torneados de mar, de floresta e trilhos/caminhos de bicicleta, dos filhos/as e dos nomes favoritos para o desejo de uma menina – Maria. A primavera floriu tudo de uma só vez. Tudo se sentiu muito rápido, e rápido Julia apercebera-se que Benjamim era o amor de sua vida. Simples. Era ele e pronto aquele rapaz de olhos verde-água, peito de feno e magro de tanto estudar. Benjamim terminara a sua lide de estudante aquando a primavera a sua primeira fotografia de batina de doutor partilhara com a pequena Julia, a fotografia depois de trajado para a sua grande conquista. O rapaz era interessante mas de cabeça cosida e muito, muito, mas mesmo muito cobarde ao ponto de nunca mais ter dito nada à rapariga depois de tanto e de tudo, mas o último dia de praia nunca se concretizara deixando-a apeada nas suas últimas palavras «custa-me tanto ler as tuas palavras».

Benjamim largou Julia no maior desgosto alguma vez sentido.

Ficara a latejar a última história entre ambos,

(Acordei ainda na ressaca do intermitentemente mal adormecer, da efervescência do corpo a pedir amor, de continuar a sonhar com pão quente e com a chuva fria, tudo era assim uma imagem difusa desde o último telefonema, das palavras encadeadas em vários assuntos todos eles prementes – ardentes, curtos. Ai, e aquelas fotos comprometedoras que ontem nos tiraram, reparaste na terceira?! Estávamos ainda em pé – como os meninos da comunhão-de-fé, aprumadinhos.

- Raio, alguém achou exótica a forma como duas pessoas que se tocavam aos beijos vê só.

O antes e o depois, a roupa alinhada com o corpo e depois: aquele emaranhado de cabelos, vê lá tu que até uma peúga trocámos…o quadro era bom e o enquadramento com as nuvens pesadas tornavam o ambiente dramático o suficiente, o filtro faz o resto que vimos e a chuva a caiar o outro…

depois saíste que nem um foguete (deverias regressar antes daquela trovoada) levaste o emaranhado de pulsões plantadas naquele pequenito mundo vivo. Na terra e nos bolbos da sorte. Se soubesses o quanto me doeu…a noite esvaziou a tua silhueta. Os teus passos não se ouviam, como se andasses em soalho de madeira e não quisesses acordar a passarada. Foi tudo rápido demais, de mais aquela sofreguidão do toque naquela loucura fotografada pelas luzes mais fortes afoitas numa noite sem a lua de companhia.

… tudo ainda é pequeno, tem poucos anos tudo que se fala é imenso e tem muitas reticências…não sei, aquilo que sinto é algo que nunca senti nestes anos todos, é novo. Parvo e antigo. A imagem que te tirei está tirada, faltam outras, aquelas que deixámos espalhadas com os corpos vivos em cada local onde passámos, aqueles que nos acompanham quase todos os dias.

Os corpos adormecidos.

Estás cá e lá e em todos os intervalos dos meus suspiros num peito fechado num fado cerzido a rendilhado.)

(…)

Junho aquece as extremidades, o sol e a praia cada vez mais densos,

a vida dá voltas que se soubéssemos nem sairíamos de casa, mas há coisas inevitáveis.

No solstício de verão irrompe todo o curso das coisas. Tudo se manifesta possível e tudo está em aberto, as pedras e seixos da baixa mar, as algas e a bicharada de sangue frio, nos escaldões que sofre a pele e o suave sabor a sal da pele.

Julia assume todo este esplendor e escuda-se nele em riste de todos males antes sentidos, sentir-se-ia melhor, era verão e a vida corria…tinha uma alma gémea mas que já está presente no habitáculo do afecto carnal, eram irmãos e não sabiam. Ele era o espelho da não capacidade para.

(…)

Continua.

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