Cavalo

Ser corpo poema e tudo o que lá mora…

quero ser perto e

estar longe… ser reticências no mar

a vírgula no céu,

e na terra, o ponto.

Ser o pó da mobília

e fogo que a queima!

A cinza no vento em reboliço

tormento

o cerzido barulho e o silêncio lamento.

Ser os dedos e a música, o pé e a dança

o assobio ar na asa e oxigénio na guelra.

Ser pulmão que não cansa

na ábsona paz e a guerra que sela.

Ser o caminho certo,

o transporte e motor

na ida fluída e na volta funesta,

ser a praça vazia e a florida em festa.

Sou os lábios do poema e a boca na prosa

a alegria silente e a tristeza contente.

Sou amor corrente.

Sou matéria e obra,

a bela e a besta

o cavalo a mão a trela a voz e o freio.

Sou tua,

doença expiada e a cura dolente

o sol vestido e a nua lua.

Viva,

no botão e estame da flor

no bicho que a gasta

ser o ser que nunca é,

e basta!

Ser princípio e fim,

a virente folha do jardim

e constância que cedo

na esmaecida folha, pereço

e padeço.

Sou o meridiano em fio que uno e separo.

Sou norte quente num sul frio.

Sou o espelho de mim assomado na janela, e,

paro.

(Meneio a cabeça, trejeito os lábios aquartelando O tempo que resta).

- Quero tempo no tempo em crescendo, latente.

- Quero ser uma super-ser,

a não-ser

mais que isto de se ser, só

crescida em crescendo e presente

ter, o tal fôlego oblativo insinuado

e ser isto tudo sem ofegar

vivendo naquele corpo, vítrea mansarda

sendo a contra-luz,

os terços e a áurea.

photo Tânia Marques 2015, crop and edition pvl — set the horse free.
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