© pvl Louvre-Passerelle, Setembro 2014

És uma pedra preciosa oh jóia!

Pea V.L
Pea V.L
Nov 13, 2014 · 7 min read

Existem assim palavras para o foleiritas, eu cá detesto a palavra ‘piropo’ aquele que quando não se discute mais nada é discutido com todo o fervor do seu sentido, e assim senti há tempos a necessidade de me inteirar e ver qual era a sua origem por motivos de (des)ordem profissional. Vi então que gosto mais da origem do que da sua aplicação — (latim pyropus, — i, do grego purôpós, — ón, inflamado, em chamas), também entendida pelos sábios (direi homens dicionaristas) como ‘A cor do fogo; Liga de cobre e ouro; [Joalharia] Variedade de pedra preciosa’, mas, e também um galanteio nuns anais de palavras (de bom tom e amável) e noutros como uma simples expressão ou frase dirigida a alguém (geralmente do sexo feminino), em tom de apreciação física de mau gosto etimológico, mas em labaredas e cheia da virilidade própria então ou de quem tem aquela coisita da testosterona aos saltos…

então lá ouvimos volta e meia numa rua larga,

Piropo: olha, olha aí! (aumenta-se o decibel para se ser ouvido e percebido num raio de 10 metros, pelo menos)

-Se beleza desse cadeia apanharias prisão perpétua!
Resposta possível:

Se fealdade fosse crime, apanharias a pena de morte! (mas aqui teríamos de estar no Texas ou noutro paraíso qualquer conservador ou de ditadura familiar) entra-se em conflito semântico e moral pois não se deve desejar a morte a ninguém por muito lírico e galanteador amável que se seja e/ou político social das palavras, aquele que só utiliza conceitos, termos e estados fortes numa escassa frase — “beleza”, “cadeia” e “prisão perpétua”. será preciso um traquejo sociológico em ciência e política acima da média. Bom, e começando o que se entende por piropos eu sempre gostei de piropear, pronto, é bem verdade.

Quando vim para a cidade estudar e aprender a desenrascar-me sozinha e a ter de conhecer pessoas novamente (coisa que fiz a vida inteira porque estava sempre a mudar de escola e a fazer aquele truque de pisar o pé vizinho (a dar aquela bandeira de coisa encenada)seguindo-se o pedido de desculpa e sorrir preparando o “olá eu chamo-me…”

Quando cá cheguei éramos quatro, e às vezes cinco lá em casa, casa pé direito com janelas voltadas para uma das ruas com mais movida da cidade. Lá passava, sempre àquela hora o “ciganão” (nome dado pela minha colega de quarto, e ficou o apelido porque soava bem no aviso que ecoava pela casa) e sem qualquer estereotipo associado, e todos os miudos giros doravante eram “ciganões” e era bom — aquele foi o miúdo giro de boné em riste, o primeiro desta lendária palavra. Era a hora da bebida efervescente, e lá estavamos à janela feitas tolinhas , eu a galvanizadora daquele momento agregador a mais afoita e parva de todas— vê-lo passar, eu assobiava alto e ria-me escondida na janela de madeira recém pintada. Ele passava em passo corado e apressado. Não olhava sequer.

______________

Também ainda cá, levei com uma muito “boa” enfim, de uma miúda gira, de porte seguro, sentada no café da praça, tudo era grande a praça que eu mal conhecia — o meu cabelo preto asa de corvo seguro com uma bandolete a dar na vista com um padrão de imitação “pele de vaca” (na volta estava a pedi-las) ouço em bom tom e em esgar riso mordido:

“Temos gado novo por cá!”

Apesar de tudo, afinal, vacas há muitas, as nazis e a que “ri” e as que só sorriem mesmo assim, eu não ri, mas também fiquei sem resposta, fiquei a sentir que não seria ali um dos meus lugares futuros. Corada até à unha fiquei (vermelha que na altura era vista como vulgar e agora está na moda) senti desprezo, gozo mau. Há homens e mulheres “vaca” pelo menos no dicionário espantem-se. Na “vaca homem” são indolentes na “vaca mulher” são ordinárias e prostitutas. Não me quero alongar aqui, será melhor. O dicionário português tem destas pérolas semi-preciosas que todos/as gostamos de guardar carinhosamente e usar sempre que queremos fazer o brilharete no circulo fechado.

O “contra-piropo” que ficou por dizer:

-estás à procura de boa companhia… mas tens medo que o meu padrão de beleza te ofusque, pois eu cá até procuro companhia mas contigo por perto vai ficar muito mais difícil.

Jogo de poder, talvez, este que todos e todas gostamos, o da posse e o da territorialidade. Nunca mais me esqueci porque na volta foi uma rapariga a fazê-lo, e quando na altura fui efectivamente bem recebida por rapazes e esmurrada semanticamente por raparigas.

No que toca ainda a esta questão (sim porque é esta a questão de cerne) da beleza e na pressão do ser-se mulher na versão de capa de revista, foi aquele “piropo” que escutei em loop e que ecoou p´la rua abaixo, diria mesmo na genialidade e traquejo no raioX da genética alheia,

“olha olha esta sai ao pai!”

debaixo de sol quente e uns pedreiros empoleirados em contra luz, imagino somente uma ou duas quedas fatais tipo andaime de baralho de cartas (e depois penso que ficaria contente só com um braço ou perna partida) e sigo caminho.

Nunca mais me esqueci talvez por ter mesmo só mamas em peito médio mas com as costas muito mas muito largas…

nesta rua cheia de histórias sobre “piropos”, tive um amigo (na altura grande amigo) que passou a piropear-me a torto e a direito.

Um dos mil e um piropos: qual é o caminho mais rápido para chegar ao teu coração?

(…)

Respondi durante tempos “obrigada que bonito, ohhhhhh deixa lá isso que me envergonhas…e era educada, e era contentora sim, mas sempre a delimitar fronteiras e a ser verdadeira no meu afecto. Na altura coincidentemente tatuei um coração com um forte simbolismo que carrego até hoje. Lembro-me porque ficou tatuado na minha memória um surto de ciúme violento que teve, telefonemas de madrugada à minha família a descrever as mais despudoradas cenas de sexo e a arfar miudezas. Ficou tatuado igualmente na minha memória inumeros telefonemas com ameaças de morte (e cinjo-me só mesmo aos extremos chegados e ditos) e passado tempo, num estado fora de mim ou já em mim ter mesmo pedido ajuda formal e expor sem vergonha o se passava porque muito das marcas já tinha sido pisado.

Para além de ter amigos e amigas a culpabilizarem-me subtilmente deste seu comportamento ainda não percebido efectivamente, ainda ouvia isto em tom de inquérito “Mas tu não te envolveste com ele?!” ; “Que estranho alguém virar assim sem um motivo” ; “De certeza, prometeste-lhe algo?!” — como se, se eu tivesse tido mesmo algo mais íntimo com o rapaz (o que nunca acontecera) legitimasse sequer um terço do que me ameaçou e de todo o mau estar e desgaste causado.

Resposta possível se fosse um contexto mais brando: cirurgia plástica querido, lavagem cerebral (lobotomia, no mínimo) e uns três meses de ginásio.

Como não foi brando e sim um extremo é mesmo para denunciar. Ponto final.

Sim os piropos também tem esta face mais obscura que começam bem e acabam mal podendo acabar drástica e irreversivelmente muito mal. Eu vivi-os em vários papéis, eu consigo porém reter o discernimento do bem e do mal e do quão tão ténue é esta fronteira...

gosto que digam que sou bonita e que estou bem, que me dediquem canções que versem galanteios, eu própria gosto de dizer que os/as outros/as estão ou são belos/as e não meço palavras de sinceridade e de amor, partilha e de afecto sempre que me dão esta oportunidade e liberdade (sim sou uma lamechas, gosto destes teasers de bom ar e de bom tom. Tudo deverá ser assim, assente numa corrida higiénica pelos trilhos da liberdade e das fronteiras que ela tem, caminhada esta, sempre ancorada à (falta de) higiene física e mental de tão débil ser e de estar quase em todo lado — nas ruas, nos cafés, nas discotecas (tenho uma tão má ou tão boa que não conto aqui), no trabalho e ainda num dos sítios mais impróprios que é o próprio seio familiar. Sim parece que os piropos não implicam só pessoas desconhecidas, ou não necessáriamente. E para tudo há um enquadramento jurídico, político social e cultural, há sim, mas desenquadrado da vontade de ser tomado como um problema quando é sentido e se ouve realmente como tal, ainda sobretudo da ressonância que poderá ter a longo prazo em certas pessoas e se for para o mal é melhor nem começar a por em causa o conceito e o acto, se é ou não delito.

Ainda assim ainda ouço muita senhora a falar disto com aquela arrogância intelectual de quem não sente e não se mete no lugar alheio dizer : “Eu nunca dei a mímima para isto me ocupar a cabeça para se tornar um problema” . Sim minhas senhoras e senhores, porque em bom rigor também é uma questão de educação, do saber estar, de também e por exemplo dar prioridade a certas pessoas não por compaixão ou pena mas porque poderemos estar um dia naquela condição e somos seres humanos livres de fazer o bem, ou num transporte publico ou numa caixa de supermercado, na ajuda braçal, fazer companhia a alguém (porque não) sempre com a legitimidade de um sorriso certo da proximidade para lá da fronteira e que nos permite dizer que “és bela” e sacar um beijo sem consentimento falado mas sentido efectivamente com um pedido… enfim aquilo do insight e da assertividade emocional ser para todos e todas mas não ser entendida ainda por uma boa parte da fatia mundana. Redundantemente estranho.

Mas não se livram e não me livraram ainda deste último piropo ou melhor frase de mau gosto como todas as outras supra transcritas (no meu humilde entender)… com ele (piropo) e com ela (frase de mau gosto) prometo nem um nem a outra dá cadeia…ainda…

despeço-me com o merecido beijo.

Piropo: Tu és linda de morrer, só tens um defeito: a tua boca está muito longe da minha!

Lá respondo fitando o alvo sem desviar o olhar:

questão de higiene amigo!

________________

e livrem-se de pensar sem o devido pendor crítico: “algumas até são giras…” que até são saudáveis estas picardias e terminarem com aquela frase típica dos anos oitenta — “oh jóia não ligues bóia!”

Cá continuo a responder, às vezes só fitando e sempre sem desviar o olhar…

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