
tinha 27 anos…
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tinha 27 anos, solteira sem vínculo amoroso algum, trabalho precário, vivia sozinha num T2 decoração vintage, móveis com história e portanto com alma. No meu quarto, grande e minimalista pousava uma manequim estilo anos oitenta/noventa, esguia encorpava o meu robe turco preto, pousado nos seus brancos e esquálidos ombros contentores patrulhava com o olhar meio estrábico quem lá entrava… e, um poster/foto gigante da Shanta Rao dado pela Maria João que me fazia de cortina no centro da cama… gostava de tudo lá, da minha liberdade estética e na liberdade de como me podia arrumar na vida. Tinha boas áreas, localizado numa zona de bem e uma vista simpática. Nesta percorria as várias janelas que longe desenhavam vidas, e muitas vezes pecava naquele pensamento bacoco de ter um binóculo e ver de perto o que se passava lá dentro para além do lusco-fusco intermitente das tv´s. Fiquei pela magia de só recortar essas histórias hipotéticas mas ancoradas no real e no desejo, transferindo sempre o(s) meu(s)…
tinha 27 anos dizia,
e foi nesta primavera que quis ser mãe… tinha isto tudo e não tinha nada, tinha um desejo visceral de ser sem saber o porquê, sem perceber de onde vinha mas sabia que vinha de mim, só de mim… sempre tive medo da parte do estar “grávida” dizia eu… há coisas que me fazem impressão sentir os “ponta-pés” e aqueles mitos que percorrem aquelas conversetas de cordel sobre o estado de graça. Eu dizia que tinha medo disto e de outras coisas do foro físico, agora do cuidar (on going) era a parte que mais me fascinava em ser mãe… no fundo a parte que é para sempre independentemente do resto seremos sempre “mãe” no antes e no depois…e eu só queria o depois…o antes dispensava.
(…)
Anteriormente (há certo tempo atrás) tinha ficado em segundo lugar na minha 1ª entrevista de trabalho/estágio remunerado, seria para trabalhar com crianças cegas e, porque ainda não tinha experiência fui preterida pela experiência e assim fiquei com esta atravessada, passou então, e portanto a ser um objectivo começar a encetar cenários de uma relação de trabalho nesta matéria. Comecei a trabalhar com a miudagem dos seis aos doze anos, fiquei siderada por um miúdo de seis anos, com umas longas pestanas que me hipnotizaram durante os quatro anos de trabalho sazonal, adorava-o mas ele não me ligava nenhuma. Pensei, bem é o meu cargo hierárquico, era vista pela miudagem como má e austera e depois não entendiam o que dizia porque empregava palavras “cáras” que ninguém entendia o que era um tédio ter de perguntar o significado a seguir (alguns mais curiosos lá me enfrentavam confiantes e com vontade de saber, e eu explicava-lhes mas logo satisfeitos iam embora sem dar mais cavaco às tropas e sem o beijinho e abracinho. Fiquei e ficava de rastos, não sabia mostrar afecto pensava. Desisti da ideia. Na volta não sei ser mãe. Confusão instalada e sempre aquele argumento linear de a minha mãe ter tido umas gravidezes complicadas e eu herdar tudo dela na saúde, e claro a instável saúde amorosa e financeira.
(…)
Passaram dez anos.
Dez. Durante este tempo dizia que filhos/as não passavam por “objectivo de vida” e dizia isto sem saber que objectivos tinha afinal na minha agenda generalista da Vida. Não tinha, e parecia lidar bem com isso… em boa verdade, só os adiei em prol da tal vida estável, cuja e que ainda no seu bom rigor não tenho. E o tempo passa sabendo que não será para breve pois com certeza. Ainda sonho (literalmente) com o T2 da Machado de Castro, aquela casa que me fez crescer como mulher mas que nela lá ficaram coisas, muitas coisas… os sonhos são recorrentes e o desejo também… sonho com uma casa em stand by, e quando lá entro é sempre como intrusa — não é suposto fazê-lo mas faço-o à revelia da senhoria (que apesar de tudo ainda me tem como a melhor inquilina). Na cozinha repousam frescos e alimentos congelados, outros móveis que não os meus e outra luminosidade e sem aquela manequim de ventre perfeito que sempre pousava em mim o erotismo e a maternidade daquela imagem inocente e de menina que me vigiava o sono pelo espelho sempre reflexivo.
hoje tenho 37 anos e procuro aquela imagem de novo,
a manequim posa no quarto meu
a minha infância.
o poster menina está aqui ao lado, guardado num tubo estreito encaracolando e encerrando mais tempo em mim.