Livro de exercícios para girafas pequenas e para formigas grandes

Decidi começar o meu Medium com um texto sobre o assunto da moda, mas as modas têm sempre o problema de se tornar cansativas e por isso tentei inovar um pouco na abordagem.

Recorrendo às minhas capacidades de empreendedor decidi propor um novo negócio. Livros de exercícios para girafas pequenas e para formigas altas.

E porque não apostar em girafas altas e formigas pequenas pergunta o caro leitor. E eu respondo, visto que ainda estou a começar e convém agradar ao leitor. A minha ideia inicial era escrever livros de exercícios para girafas altas e formigas pequenas visto que são um mercado muito mais apetecível em termos de quantidade de potenciais compradores. No entanto, visto que sou extremamente perspicaz percebi que é um risco fazer coisas para as maiorias e por isso faço para girafas pequenas e formigas grandes que são claramente uma minoria e por isso dificilmente serão atacadas pelos defensores do politicamente correcto.

Comecei a minha abordagem com esta hiperbolização da situação dos livros para meninas e livros para rapazes da Porto Editora porque há uma coisa particularmente importante na questão do livro de exercícios para meninas e para rapazes. A nossa sociedade balança para o abismo do ridículo.

Sou um defensor que os géneros são diferentes e que por isso não têm necessarimente que ser tratados por igual. Sou um defensor que os dois géneros devem ter igualdade de oportunidades. Não acho que as meninas têm que ser princesas e os meninos piratas. Mas acho que podem ser. E sobretudo no caso em que estamos a falar de opções editoriais de uma empresa privada. São opções de negócio e não se deve interferir (note-se que sem perder o direito de opinar e censurar). Caso contrário estamos a entrar no campo da censura. E esse, é o rídiculo em que estamos a cair de defender a liberdade escolhendo quem é livre.

Não importa se o azul é cor de menino e o cor-de-rosa de menina. A minha fotografia de perfil neste site é um claro exemplo que um menino é livre de utilizar cor-de-rosa. As cores são ícones. A senhora do ícone do WC utiliza um vestido ou tem um laço na cabeça. O senhor não usa vestido e usa o laço ao pescoço. Ninguém acha que todas as meninas usam vestido ou laço na cabeça. Simplesmente foi um ícone que surgiu para ajudar à comunicação, não temos que tornar um ícone inocente numa ferramenta de arremesso que retira a atenção do foco do problema.

Não temos que proibir as pessoas de ser de extrema direita ou de extrema esquerda. Não temos de proibir as pessoas de ser racistas, sexistas ou homofóbicas. Temos que assegurar que essas pessoas não põem em causa a integridade de terceiros por causa das suas crenças. Temos que assegurar que ninguém tem oportunidades limitadas por causa da cor da pele, da religião, do género, da preferência sexual ou por outro motivo qualquer que não interfere com a competência da pessoa.

Dar a essas pessoas que se acham superiores por alguma razão a possibilidade de se manifestarem apenas lhes dá a oportunidade de mostrarem quão errada é essa opinião. Excepto, numa situação, quando a opinião deles é reprimida. Porque aí, passam eles a ser o oprimido que é preciso defender. E é extremamente perigoso ter de defender o direito à opinião de pessoas idiotas. Mas precisamos que ele seja defendido para que o direito à opinião das pessoas de bem continue a não ser censurada.

Há jornais que utilizam uma capa para o Norte e uma para o Sul do país. Essa escolha editorial é aceitável e não há nada de errado se as duas edições forem totalmente diferentes e uma tendencialmente para mostrar o Norte como algo melhor enquanto outra mostra o Sul como tendencialmente melhor. O problema é quando as notícias começarem a ser contraditórias. Mas aí passa a haver um problema jornalístico, e não de discriminação do Norte ou do Sul. Não é preciso vir a correr defender um dos lados porque é mais fraco. É preciso defender e proteger o jornalismo de qualidade porque esse é fundamental para a sociedade. Como o é o direito de igualdade de oportunidades e é esse que tem que ser (bem) defendido. Sem entrar em formas opressoras de o defender.

É preciso que todos tenhamos o direito de na nossa própria empresa escolher produzir vestidos de ballet para girafas ou chalupas para formigas. E o direito de perceber por nossa conta que nem girafas nem formigas compram esses produtos.

Se comprarem, sorte a minha que descobri um novo nicho de mercado.