Há vida sem Facebook

Há um mês resolvi desinstalar o Facebook do meu celular. Não se tratava de um afastamento completo da rede, pois continuaria acessando do computador do trabalho ou do notebook de casa. Mas, como um experimento social, queria questionar meu relacionamento com a mídia, ou melhor, a minha dependência dela. Em um cenário em que pesquisas apontam que passamos até 4 horas por dia na plataforma, ficar de fora pode ser perturbador. O princípio foi razoavelmente angustiante, como imaginei que seria. A ansiedade gerada por estar perdendo algo que nem sabia o que era — e que na maioria das vezes é a mais absoluta bobagem — me fez sentir o quão socialmente dependente da participação ou da pseudo- aceitação somos.

Mas com a mesma facilidade com o qual nos apegamos, nos afastamos. Depois de um tempo me acostumei com a ideia e comecei a me aproximar do meu segundo objetivo: ocupar meu tempo livre com o que de fato poderia ser importante. Nos momentos de ócio, como em filas, bancos, intervalos e atrasos de reuniões consegui substituir o que antes seria fatalmente aquela olhadinha rápida no Facebook, pela leitura de um link que havia salvo no Notas para ler depois, uma repassada nas demandas do dia anotadas na agenda ou simplesmente o ócio contemplativo, que para todo mundo é importante mas que talvez para quem trabalha com comunicação seja quase como um dever de casa.

Pude perceber também como nosso hábitos moldam ou são moldados pela rede. Como hoje acesso muito menos, já que minha utilização pelo desktop sempre foi nula, o conteúdo que posto tem muito menos engajamento. As pessoas que aparecem no meu feed não são mais as mesmas que sempre foram, aquelas que normalmente eu tinha mais interação e até as páginas que para mim eram mais relevantes aparecem cada vez menos.

Confesso que em alguns momentos substituí o hábito do Facebook por outras mídias, como Instagram, Twitter e Medium, mas o tempo gasto em relação ao FB é incomparável e é possível perceber como o dia parece ter mais algumas horinhas e o mundo um lugar menos amargo, com menos Fla-Flu’s tóxicos sobre todo e qualquer tema. Surgiu como um experimento acadêmico, mas talvez se torne um hábito. É provável que nunca me afaste completamente da rede, até porque seus pontos positivos ainda são únicos em escala e navegação, mas fazer um auto-estudo sobre o tema, reconhecendo o controle de determinados mecanismos sobre você pode ser o primeiro passo para quem buscar ver mais do que apenas o que a bolha invisível do tio Mark visa te mostrar.