Não sei o que quero da vida e estou muito bem tentando lidar com isso.

Eu, aquele que com 17 anos já sabia tudo que iria seguir pelos próximos anos. Pena que isso não passou de uma ilusão e eu estou aqui, hoje, tomando outros rumos na vida, tentando me encontrar, saturado de tudo que passei e com nenhum arrependimento disso.

Certo, tentarei resumir o que aconteceu comigo no último ano.

Meu plano de vida era terminar o ensino médio e logo em seguida ir para a faculdade. O que depois de um 2016 intenso, desgastante e depressivo ano de estudos, resultou em uma icônica nota no ENEM.

Até então eu pretendia cursar Farmácia na federal daqui do estado. A escolha de curso foi fundamentada com base em eu achar que gostava de Química e Biologia (até você chegar na faculdade). E a partir daí surgiu o erro, limitar o meu futuro em um grupo de disciplinas que eu era obrigado a estudar, e a partir desse conjunto, estreitar ainda mais a minha seleção, de acordo com as quais eu me saia bem. A realidade era que eu tirava notas legais nessas duas matérias pois eu simplesmente estudava para elas, portanto as notas não passavam de consequência dos estudos forçados.

Sabe aquela sensação que temos ao se dar bem em algo que estudamos? Não a confundam com o sentimento de gostar desse algo, pois na realidade o que você gosta é da satisfação de se dar bem nele, não da coisa em si. Por outro lado, eu ignorei completamente o fato que eu também me dava muito bem em História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Inglês... Ou seja, decidir o que seguir com base em disciplinas de ensino médio invés de tomar essa decisão com base no que você gostaria de trabalhar é um tiro no pé. Após a escolha de curso, percebi que eu amaria trabalhar em laboratórios (mesmo que o meu único contato com algum ambiente do tipo, tenha sido durante as feiras de ciências do ensino médio), que tolo! Toda essa situação resultou em uma bomba chamada ilusão prestes a explodir.

Poucas semanas antes de receber a nota do ENEM eu tive uma crise existencial sobre a escolha de curso, por pouco tempo percebi que a minha escolha (Farmácia como primeira opção, e como segunda Biologia) não fazia mais parte de mim, aquilo não era mais eu, e que talvez eu estava tomando uma decisão com base em fatores que eu não mais me identificava. Decidi então que faria algo que valorizasse meu lado criativo, coisa que meus amigos, colegas e até uma professora de inglês do colégio recomendavam eu fazer (sabe aquela história que as pessoas próximas veem o óbvio que não conseguimos enxergar em nós mesmos?). Porém essa iniciativa perdurou até o momento que eu vi que minha nota do ENEM daria pra qualquer curso que eu desejasse.

A semana do SISU chegou, ao ser questionado sobre qual curso colocaria, fui influenciado e de maneira tola, nem percebi. Acabei colocando Medicina (coisa que nunca quis fazer) na primeira opção e Farmácia na segunda (pois sabia que passaria direto em farmácia, caso eu ficasse na espera de Medicina). Pois é, do nada, ao ver os números da nota do ENEM, toda minha reflexão sobre o meu lado criativo foi por água abaixo. E como se não bastasse, comecei a planejar meu futuro para um curso que nunca quis fazer e repudiava quando alguém perguntava se eu tentaria Medicina.

“Na mentalidade do ensino médio brasileiro, se você tira uma nota boa no ENEM, automaticamente você deve fazer Medicina. “

Eu jurava que não estava sendo influenciado, pois é, até então não tinha percebido o buraco sem fim que estava jogando o meu futuro.

O SISU passou e fui aprovado em Farmácia, fiquei 99% feliz e 1% frustrado por não ter passado no curso que nunca realmente quis seguir. Antes das aulas começarem, deixei meu nome na lista de espera para Medicina na mesma instituição. Também planejei ir para a UFRJ após minha aprovação lá em Farmácia no SISU 2017.2. No final das contas, as aulas aqui começaram dia 05 de Junho, no dia seguinte, me inscrevi no ProUni 2017.2 para Medicina na primeira opção (como uma via de escape caso eu não gostasse de Farmácia na prática) e ainda coloquei Direito na segunda opção só por colocar mesmo (falta do que fazer).

As aulas foram passando, gostei do curso, dos professores e dos amigos que fiz lá. Na segunda semana, resolvi cancelar minha participação na lista de espera de Medicina, pois eu não pretendia largar Farmácia. Na terça-feira seguinte, recebo uma mensagem no WhatsApp de uma universidade particular daqui, dizendo que fui aprovado no ProUni para Medicina. E o que eu fiz? Depois de muita reflexão, influência indireta novamente e a extinção da empolgação de calouro, resolvi largar Farmácia e me arriscar em Medicina, se eu gostasse do curso eu continuaria, caso contrário, voltaria pra Farmácia fazendo ENEM novamente.

E como era de se esperar, nos primeiros dias de aula de Medicina, eu já sabia que não era aquilo que eu queria, não estava me identificando com o curso, muito menos com a instituição e as pessoas de lá. Larguei Medicina na segunda semana de aula, principalmente depois de uma crise emocional após um suposto assalto de ônibus (na realidade eu só vi as pessoas agitadas e descendo correndo do ônibus, então fiz o mesmo; daí fui andando até a universidade, e no meio do caminho comecei a chorar e me perguntar o que eu estava fazendo alí; isso não era devido ao “pseudoassalto” em si, mas porque eu estava ignorando o meu emocional abalado após as más decisões que realizei).

Em uma bela tarde de curso, me perguntei:

O que me impede de largar tudo e recomeçar?

Percebi que nada me impedia, além da pressão social, e convenhamos, a esse ponto eu estava pouco se importando com a sociedade (aquariano faz assim mesmo). Ainda tentei transferir minha bolsa do ProUni para Farmácia, com o intuito de aproveitar matérias quando eu voltasse para a federal, mas nesse momento eu estava em um ponto da vida que nem sabia se entraria em Farmácia novamente, eu definitivamente não sabia mais qual curso fazer, e ainda nem sei. Felizmente a transferência do ProUni só poderia ser feita em 2018.1, então resolvi pedir cancelamento de matrícula de maneira bem decidida e plena, pois não ficaria mais nenhum momento cursando Medicina.

E o agora?

Após sair da instituição sem um peso nas costas e livre, resolvi que usaria esse semestre restante de 2017 para aprender sobre os diversos assuntos que me interessa, voltar a praticar meus hobbies e principalmente me autoconhecer. Não farei ENEM 2017, pois além de não querer, não me inscrevi. Portanto me prepararei plenamente e farei o ENEM 2018. E sabe o que há de melhor? O fato de não ter nada de errado em fazer isso, estou apenas tirando um tempo para mim mesmo, me desenvolvendo pessoalmente, amadurecendo para descobrir o que realmente quero e posteriormente criar o meu futuro em algo que me interesse e me complete.

Acabei descobrindo na prática o significado da palavra resiliência e não me arrependo em nada, pelo contrário, estou satisfeito com as decisões que fiz, pois senti que foi o melhor há ter sido feito.

Escrevi o texto como uma maneira de desabafar, então ignorem possíveis erros gramaticais.

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