Alerta — Como não se afetar com as pressões sociais

Acessos de raiva, ataques do coração, enxaqueca, úlceras no estômago, síndrome do intestino irritável, perda de cabelo nas mulheres — o stress é o culpado por todas essas doenças e muitas outras. A Natureza dotou nossos antepassados pré-históricos de uma ferramenta para ajudá-los a enfrentar ameaças: um sistema rápido de ativação capaz de aguçar a atenção, acelerar as batidas do coração, dilatar os vasos sangüíneos e preparar os músculos para lutar ou fugir do urso que invadia a caverna.

Porém, nós, os humanos modernos, estamos constantemente sujeitos ao stress decorrente de trânsito, prazos, contas, chefes coléricos, companheiros irritadiços, barulho e, ainda, de pressão social, doenças físicas e desafios intelectuais. Como resultado, muitos órgãos de nosso corpo são atingidos por uma descarga implacável de sinais de alarme que podem danificá-los e prejudicar a saúde.

Mas o que exatamente acontece no cérebro e no corpo quando estamos estressados? Quais órgãos são ativados? Quando os alarmes começam a causar problemas críticos? Somente agora estamos formulando um modelo coerente para explicar como o stress contínuo nos causa mal, mas já encontramos possíveis pistas para aliviar as agressões.

O Caminho para a Sobrecarga
Nas últimas décadas, os pesquisadores identificaram diversas partes do cérebro e do corpo que contribuem, de forma considerável, para a reação ao stress — o modo como respondemos aos estressores externos. Essas regiões processam informação sensorial e emocional e se comunicam com uma vasta rede de nervos, órgãos, vasos sangüíneos e músculos, realocando as reservas de energia do corpo, de modo que possamos avaliar e reagir às situações.
Quando o stress começa, o hipotálamo, uma pequena área profunda do cérebro, entra em ação. Ele contém vários núcleos diferentes, ou conglomerados de neurônios, responsáveis por tarefas diversas, entre as quais regular o sono, o apetite e o equilíbrio entre diferentes hormônios. O conglomerado mais importante de neurônios é o núcleo paraventricular, que produz o hormônio liberador de corticotropina (CRH), estimulante que desencadeia a reação do stress.

O CRH foi descoberto em 1981 por Wylie Vale e seus colegas do Instituto Salk de Estudos Biológicos, em San Diego, e desde então tem sido objeto de pesquisa. Esse hormônio controla a reação do stress de duas formas. Na primeira, ele alcança os órgãos por meio do chamado braço longo — o caminho do sinal hormonal do hipotálamo para a glândula pituitária, no cérebro, e para as glândulas adrenais, nos rins. Esse braço também é conhecido como eixo hipotálamo-pituitária-adrenal. Ao atingir a pituitária o CRH faz com que a glândula libere o hormônio adrenocorticotrópico (ACTH) na circulação sangüínea. O ACTH, por sua vez, ativa as glândulas adrenais para liberar hormônios glucocorticóides no sangue. Níveis de glucocorticóides normalmente seguem um ritmo diário: alto no começo da manhã, baixo no fim do dia. Uma de suas principais tarefas é aumentar a glicose no sangue para fornecer energia aos músculos e nervos. Eles também controlam o metabolismo da glicose e o ciclo de sono-vigília.

Como regulam funções tão importantes, os níveis desses hormônios têm de ser controlados com precisão e, sendo assim, estão sujeitos a um mecanismo de feedback no hipotálamo que pode rapidamente reverter o sistema para valores mais baixos.

O CRH também atua usando outro caminho, o “braço curto”. Uma pequena região no tronco encefálico chamada locus ceruleus funciona como um tipo de circuito elétrico neural, ligando as áreas cerebrais produtoras de CRH ao sistema nervoso autônomo, que controla os processos fisiológicos contínuos, independentemente de nossa vontade, como respiração, pressão sangüínea, digestão e assim por diante.
O sistema de resposta do stress produz feedback positivo para fortalecer sua própria ação quando necessário, mas, nas ocasiões em que o stress diário se acumula, pode tornar-se desnecessariamente intenso e incessante. Se a reação é apropriada ou não depende das células que encobrem a glândula pituitária e outras partes do sistema. O CRH envia sinais para essas células por meio de moléculas receptoras tipo 1 na membrana celular. Os pesquisadores do Instituto Salk e do Instituto Max Planck de Psiquiatria em Munique criaram camundongos nos quais receptores tipo 1 estavam ausentes. Mesmo quando expostos várias vezes a situações estressantes, os níveis sangüíneos de certos hormônios do stress desses animais nunca se elevaram acima do normal. Eles sentiam-se obviamente menos estressados. É possível que drogas capazes de suprimir os efeitos do CRH nesses receptores possam, também, reduzir os níveis de stress em pessoas perturbadas.

Nossos novos conhecimentos sobre o sistema de stress oferecem fortes indícios de como a tensão pode nos fazer adoecer e como neutralizar seus efeitos. Seja para um roedor, seja para uma pessoa, qualquer ativação do sistema de stress é um evento extraordinário — e no momento em que a emergência termina, o sistema deve ser rapidamente desligado, de modo que os órgãos afetados possam se recuperar. Contudo, quando circunstâncias externas estimulam o sistema de stress repetidamente, ele nunca deixa de reagir, e os órgãos nunca conseguem relaxar.

Tal tensão crônica torna muitos tecidos vulneráveis a danos. Os órgãos reprodutivos, por exemplo, ficam, com freqüência, menos eficientes.

Pesquisas mostram que atletas e bailarinos que se submetem a grande esforço físico durante muitos anos produzem menos esperma ou óvulos.

Os níveis de testosterona no homem declinam, enquanto os ciclos menstruais nas mulheres podem tornar-se irregulares ou até cessar.
A anorexia e longos jejuns provocam os mesmos efeitos prejudiciais à fertilidade. Ambos fazem o nível de CRH no cérebro aumentar. Pacientes anoréxicos apresentam, no fim do dia, níveis mais altos do hormônio do stress glucocorticóide cortisol no plasma e na urina que pessoas saudáveis. Quando sua pituitária é estimulada artificialmente com CRH, os anoréxicos produzem menor quantidade do hormônio que media a reação ao stress — evidência de que o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal é hiperativo.
O excesso de CRH decorrente de stress crônico reduz a secreção corporal do hormônio do crescimento, como também a produção da substância que contribui para os efeitos desse hormônio nos órgãos. Crianças sob forte stress, portanto, crescem mais lentamente. Entre os adultos, o crescimento dos músculos e ossos e o metabolismo da gordura são prejudicados.

Um dos efeitos fisiológicos mais comuns do stress diz respeito ao estômago e aos intestinos. Quando o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal é muito ativo e os níveis de CRH no cérebro são, ao mesmo tempo, altos demais, os sinais no nervo vago são bloqueados. Esse nervo, uma avenida importante do sistema nervoso autônomo, controla as contrações do estômago e o trato digestivo. (Também envia impulsos nervosos ao coração e aos músculos.) Um exemplo clássico da reação desses órgãos provocada por stress é a paralisação da digestão após uma cirurgia.

Alguns estudos sugerem que a síndrome do intestino irritável, queixa bastante difundida, seja causada por excesso de CRH.

Impacto no sistema digestivo
Outras pesquisas recentes revelaram que vítimas de estupro ou de abuso sexual, que quase sempre sofrem algum dano psicológico, mesmo anos depois do acontecimento freqüentemente têm distúrbios digestivos. Nas mesmas pessoas, a maioria mulheres jovens, o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal é hiperativo. Caso permaneça assim por muito tempo, o metabolismo do carboidrato muda. A gordura corporal é redistribuída: os depósitos de gordura sob a pele são transferidos para o abdômen. As células podem deixar de absorver a glicose do açúcar em resposta à insulina, condição que conduz ao diabetes em certas pessoas.
Um eixo hipotálamo-pituitária-adrenal superativo pode também causar sintomas que se assemelham àqueles das doenças mentais. De fato, as mais recentes pesquisas farmacológicas mostram que altos níveis de CRH influem nos transtornos mentais. Muitos pacientes com depressão, por exemplo, têm muito cortisol no sangue. E os glucocorticóides no sangue são incapazes de suprimir a atividade no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal. Além disso, eles têm muito CRH no fluido cérebro-espinhal.

- Tradução de Irati Antonio

Pessoas deprimidas que se suicidam apresentam, com freqüência, menos receptores de CRH no córtex frontal do cérebro. Isso indica que, para se defender do excesso de CRH, o cérebro reduz sua suscetibilidade ao hormônio.

O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal também pode intensificar fobias e ataques de pânico. Aqui, novamente, verifica-se a presença de CRH em demasia, causando superatividade cerebral. Quando o CRH é injetado no cérebro de animais de laboratório, eles mostram medo extremo. Pacientes com agorafobia (medo de lugares abertos) ou claustrofobia (medo de espaços fechados) produzem muito pouco ACTH após receber CRH como tratamento. Estudos clínicos estão em andamento na Europa para saber se os pacientes com ataques de pânico podem melhorar com drogas que suprimem os receptores tipo 1 de CRH. Cedo ou tarde, espera-se, os pesquisadores irão encontrar modos para interromper a cadeia de comando superestimulada.

Medindo o Risco
O stress pode nos fazer adoecer, mas nem todo stress é igual. Um certo nível básico, chamado stress positivo, é até desejável, porque nos mantém física e mentalmente prontos para agir bem. Porém, quando estamos em risco? Não há resposta consensual a essa pergunta. Não sabemos quanto barulho no ambiente de trabalho ou quantos relacionamentos rompidos nosso sistema de stress pode suportar.

Entretanto, um conjunto de pesquisas em desenvolvimento mostra que o stress crônico compromete nossos órgãos e corpo. Embora já não enfrentemos o urso na caverna, podemos ter de nos defrontar com dilemas igualmente terríveis, envolvendo diversos estressores mais insidiosos que estão sempre nos agredindo.

Antes de podermos reduzir essa ameaça, devemos aprender a medir o nível de stress de cada pessoa. Os fisiologistas trabalham com um conjunto de parâmetros — que inclui os níveis de CRH — que seria usado para avaliar todos os órgãos envolvidos na reação de stress. Ao percebermos que um indivíduo está sendo prejudicado, reduziríamos os níveis de stress que ele enfrenta.

Isso, é claro, nem sempre é possível em nosso mundo complexo. Assim, devemos também desenvolver terapias que impeçam o sistema de stress de agir incessantemente. CRH, ACTH, seus receptores e o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal são todos alvos possíveis. Os pesquisadores trabalham neles sem descanso — livres, esperamos, do stress que freqüentemente acompanha investigações científicas importantes.
Como o stress prejudica o corpo
Nosso sistema de stress pode rapidamente excitar coração, pulmões e outros órgãos, de forma a nos preparar para reações de luta ou fuga de ameaças súbitas. Porém, quando enfrentamos os incontáveis estressores da vida moderna, o sistema pode bombardear o corpo com sinais de alarme implacáveis capazes de esgotar nossos órgãos e nossa saúde.

Quando a visão, a audição ou os pensamentos indicam “stress”, o hipotálamo inicia uma reação em cadeia, que envolve a amígdala e as glândulas pituitárias e adrenais, conduzida por impulsos nervosos e uma cascata de hormônios, entre eles o CRH, o ACTH e os glucocorticóides.

Se os pesquisadores conseguirem determinar exatamente quais células receptoras no cérebro e nas glândulas propagam os sinais de stress, podem criar drogas para interferir, poupando os órgãos do esforço que o stress provoca.
Ligando o sistema
Os sinais de stress mudam o estado fisiológico de muitos órgãos, inclusive coração, rins, estômago e o sistema reprodutivo, além dos músculos. O hipotálamo recebe os estressores sensórios (como ver um urso) por meio dos nervos. O locus ceruleus envia os estressores emocionais (como preocupar-se com os dentes do urso) da amígdala para o núcleo paraventricular. Essa estrutura produz corticotropina que libera hormônio (CRH), o mais importante hormônio do stress, que ativa a glândula pituitária para enviar impulsos através de nervos, como o vago, e liberar outros hormônios na circulação sangüínea. Esses hormônios ativam as glândulas adrenais, que elevam a pressão sangüínea e aumentam os níveis de glicose no sangue, fornecendo energia para lutar ou fugir.
Stress Extremo
Um conglomerado de neurônios no tronco encefálico, denominado locus ceruleus, coordena o “braço curto” do sistema de stress ao longo de múltiplos caminhos nervosos (em preto). Ele ativa o hipotálamo, que contata as fibras nervosas autonômas no tronco encefálico. Outros neurônios do locus ceruleus acionam diretamente as reações de stress em órgãos e glândulas através das fibras nervosas autônomas que se estendem pelo corpo. Ao enviar seus alertas, o locus ceruleus obtém sinais emocionais da amígdala e da estria terminal, que também alcançam o hipotálamo. Ansiedade constante, medo ou agressão freqüentes podem estimular os nervos interminavelmente, sobrecarregando o cérebro e o corpo.
Para conhecer mais
A chilled-out knockout. Emiliana Borrelli, em Nature Genetics, vol. 19, nº 2, págs. 108–109, junho de 1998.

The end of stress as we know it. Bruce McEwen e Elizabeth Norton Lasley. Joseph Henry Press, Washington, D.C., 2002.

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