Dê uma chance ao bom humor

Encontre no universo infantil inspiração para encarar os desafios da vida com mais ânimo e alegria
Você anda por uma cidade com os garis em greve e o cheiro da podridão no ar te lembra que o país passa por uma faxina sem fim. A economia está devagar quase parando e ainda vai piorar antes de melhorar, alertam especialistas alarmados, e com razão. Você sabe demais sobre demissões em massa e outras por vir. A compra no supermercado ficou mais cara, a luz e a gasolina idem. Você se estressa com a torneira que está pingando porque a água pode acabar e ninguém mandou consertar. O trânsito só faz piorar. O dólar subiu e a viagem sonhada foi para o telhado também. Está difícil manter o bom humor e, quando você chega em casa, tem um neném sorridente querendo brincar? Sorte a sua. Mas pode ser que você chegue lá e…
…o neném esteja chorando há horas e o clima em casa não seja dos melhores. Você pode encontrar duas crianças disputando a tapa o controle remoto; três filhos num momento de desavença coletiva que nem notam a sua presença; um adolescente anestesiado diante do computador enquanto a nota baixa na escola; a outrora adorável mulher de TPM querendo descontar tudo em todo mundo ou um marido que já foi tão romântico, mas naquele instante estava distribuindo bronca até no cachorro que saiu uivando.

Todos temos nosso dia bíblico de suplicar para o firmamento: “pai, por que me abandonaste?”
Respira.
Manter o bom humor, a leveza e o ânimo é o grande desafio da humanidade. Desde a Antiguidade, os filósofos debatem as virtudes da boa risada e parecem ter encontrado várias. Altos e baixos fazem parte da vida de todo mundo desde sempre como bem mostra graficamente um eletrocardiograma.

Houve um tempo em que as famílias perdiam muitos filhos ainda bebês. Já pensou que tragédia? Diante disso, os problemas gerados pelo envelhecimento da população são até bons. Teremos mais tempo para nossas realizações. Você pode pensar “e mais tempo para sofrer também”, ok, mas eu vim aqui para te lembrar que sem bom humor não dá.

O bom humor é a ferramenta para tolerar o intolerável e superar o insuperável. Com a lente do bom humor, sua memória fica feliz e você edita um trailer fantástico da vida, ainda que o filme não seja tão bom assim.

O bom humor sedimenta as bases da boa relação com o outro, sobretudo se esse outro for um exemplar humano dependente e vulnerável que entrou para sua vida no posto de filho. Ele nada sabe da greve do lixeiro, do PIB parado, da podridão da Lava-Jato. Ele não está nem aí com o emprego escasso. Ele merece achar que a vida é bela mesmo se estiver num campo de concentração porque ele precisa seguir adiante, mesmo se você resolver ficar parado. Deixa ele passar.

É na primeira infância que construímos nosso equilíbrio emocional, nossa motivação para o trabalho e nossa disposição para estabelecermos relações profundas com o outro. É essa a medida da nossa responsabilidade como pais. Ponto. Mas somos imperfeitos. Outro ponto. Rodeados e influenciados pelos problemas. Como sair dessa?

Se você tem filhos, ou é responsável por uma criança, tem à mão o universo infantil de onde poderá sacar lições simples e eficazes para retomar as rédeas da alegria quando tudo o mais for pura infelicidade.
Aprenda com as crianças sobre…

Desejo

Já pensou no que faria você se jogar no chão de um shopping? A cena é ridícula, eu sei, e inexequível. Não recomendo. Mas o que mexe com seus desejos a ponto de você espernear? Ter essa noção ajuda a selecionar melhor o deus que você realmente quer venerar e não perder tempo com bobagens.

As crianças pequenas são tão emocionalmente saudáveis que jamais se censuram de antemão. São assertivas e assertividade, que em demasia pode ser prejudicial, é algo que muita vezes abandonamos pelo caminho da vida junto com o desejo.

Protagonismo

Outro dia minha caçula, de 5 anos, me perguntou assim:

“Você é a principal?”

“Oi?”

“Você é a mais importante?”
Ela estava intrigada com o fato de não acompanhar a vida dos outros como percebe a própria vida e queria saber se era errado ter a impressão de ser a mais importante só porque ela estava “em todas as cenas”.

Tem gente que cresceu, amadureceu e não entendeu até agora que a vida de cada um tem um único responsável: ele mesmo. Não dá para terceirizar nossos interesses, nossas responsabilidades e, muitos menos, nossos desejos, se eles ainda estiverem por aí.
Sentir-se especial
Filhos pequenos nos julgam invencíveis. Esse herói construído pela imaginação dos filhos acaba emprestando qualidades à nossa identidade secreta repleta de falhas. Nós nos sentimos especiais no mundo mesmo que essa capa indestrutível seja usada só da porta de casa para dentro, enquanto o restante do mundo continua nos enxergando como Clark Kent. A verdade é que o sentido de uma missão maior costuma colocar os problemas irrelevantes em seu devido lugar.
Distração
Todo mundo conhece o método do “vamos distrair a criança que chora sem parar”. Você apela para o “passarinho na janela”, um brinquedo interessante, uma história nada a ver ou o mais usado recurso da atualidade: um celular. Costuma funcionar se o motivo do choro não for grave. E você, consegue se distrair quando está ficando irritado? Quando a situação não lhe favorece? Faça como as crianças: mude o foco. Esqueça por um instante aquilo que está sugando sua energia. Desvie o pensamento e ofereça ao cérebro um atalho para lidar com o que parecia não ter solução pacífica. Só aja quando a tempestade da irritação passar.

Encantamento
As crianças têm a virtude de se encantar diante do desconhecido, algo que muitas vezes desperta em nós desconfiança. Estar aberto para o novo é uma daquelas qualidades que fazem com que certas pessoas sejam mais otimistas do que outras, ou tenham mais capacidade para perceber que o ambiente aparentemente ruim não é tão mau assim.

Há uns anos, flagrei minhas filhas conversando.

“Olha, Carol, eu fiz essa bola de alpiste na aula de circo!”

“Que legal, Lelê!”, disse a mais nova, no mesmo tom empolgado da irmã, antes de perguntar:

“Mas o que é alpiste?”

“Eu também não sei!”, respondeu a outra, sem perder o sorriso feliz do rosto.

E você? Consegue se divertir com o alpiste desconhecido?
Mortalidade
Com o nascimento dos filhos, nos damos conta do nosso processo de envelhecimento. E não só isso. A vulnerabilidade de um bebê evidencia a nossa fragilidade. Queremos ser imortais, afinal, temos um filho para criar.

Não há solução para esse dilema porque não ganhamos a imortalidade de brinde. A notícia boa é que a noção de finitude costuma empurrar as pessoas para viver mais intensamente o presente. Muitas pessoas, vítimas de sustos e outras peças que a vida prega, conseguem se reerguer valorizando ainda mais o presente, esse tempo para o qual temos tão pouca disponibilidade porque estamos sempre preocupados com o futuro.

Se os filhos evidenciam nossa mortalidade, eles também nos dão a chance de aproveitar melhor o dia de hoje, a única fórmula conhecida e sem contraindicações para viver melhor.

Palhaçada

Crianças são palhaças natas. Gostam de nos divertir. Cada uma com seu jeito, estão sempre dispostas a rir, de nós e de si mesmas. Por elas, a vida seria uma grande brincadeira.
Rir de si mesmo é pré-requisito do bom humor, essa dose de sabedoria que nos falta para enfrentar as adversidades da vida e construir um mundo melhor.
A coluna de hoje é um resumo da palestra que fiz, semana passada, na Livraria Cultura do Fashion Mall (Rio de Janeiro), inspirada em meu livro de crônicas A pior mãe do mundo: uma biografia não autorizada de todos nós (5W).

Like what you read? Give Antonio Garcia a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.