Emoções e Educação Emocional

Maria, que me entende, logo que me vê coçando a cabeça pergunta: “O que aconteceu? Pode contar”. Também, quando fico calado e quieto, ela prontamente percebe que estou preocupado com algo e não devo ser interrompido.
Por outro lado, Divina é seu oposto. Ela é incapaz de perceber minha alegria ou a minha preocupação. Se ela me vê cantarolar uma música, imediatamente diz: “O que houve? Está alegre, cantando…”.
Para Divina cantar é sempre sinal de felicidade e de alegria. Se eu passo a mão na testa para tirar o suor, ela me olha espantada, perguntando: “Está passando mal?” Não é fácil a comunicação emocional com essa minha amiga.
Pior de todos é a Anfrisina. Essa, além de não captar nada do emocional, também não sabe expressar suas próprias emoções. Ela, ao explicar o que está sentindo, nunca encontra as palavras adequadas.
Algumas vezes ela afirma: “Hoje eu amanheci numa fossa terrível”. Mas, se examinarmos com mais atenção, Anfrisina está, de fato, gripada ou, também, diz isso porque quebrou uma tigela de sua tia. Em outros momentos ela fala animada: “Estou numa boa”, logo após ter recebido uma notícia de que sua atriz preferida da novela espera um filho.
A difícil arte de detectar e categorizar os sentimentos
Pode-se afirmar que não é fácil decifrar os sentimentos que são “sentidos” pelas outras pessoas e, também, usar os conceitos adequados para simbolizar o percebido tanto nos outros quanto em nós mesmos.
Temos emoções durante o dia todo. Algumas dessas emoções podem ser percebidas por outras pessoas, outras não. Nem sempre, mas com frequência, nós fornecemos pistas para mostrar as emoções sentidas, indicando que estamos dominados por algumas delas e não por outras. Isso tem grande importância para nossas relações interpessoais.
Nossa conduta externa — comandada pela interna, quase sem nosso poder — a mostrada aos outros, é totalmente diferente conforme as emoções que afloram do nosso organismo a cada instante. Usamos, conforme as emoções, diferentes gestos, tons, altura da voz e velocidade da emissão das palavras. Exibimos uma cor da pele diferente, transpiramos e contraímos a musculatura de certo modo peculiar, principalmente a da face, e usamos mais frequentemente determinadas palavras que outras.
Sabemos, com bastante acerto, quando o nosso interlocutor está com raiva ou quando está tentando conquistar alguém. A outra pessoa, a atingida e que decodifica a emoção expressada, automaticamente, mesmo sem ter consciência disso, como ocorre muitas vezes, reage adequadamente às expressões do outro.
Convivemos uns com os outros dentro de certa harmonia e sem muita confusão nas nossas relações sociais, pois conhecemos e seguimos mais ou menos os mesmos padrões ou regras prescritas pela cultura onde fomos educados. Desse modo, as emoções expressas e codificadas, uma vez enviadas ao outro, são recebidas, entendidas ou decodificadas adequadamente, produzindo nele reações conforme as informações ou mensagens produzidas, isto é, semelhantes ao nosso desejo.
É claro que nem sempre isso ocorre com perfeição, pois diversas pessoas parecem exibir o que não estão sentindo, como Anfrisina. Mas, de qualquer modo, com frequência, o rapaz galante percebe que sua vizinha está “expressando” ou enviando sinais de amor para ele. Ele, automaticamente, atingido pela seta do amor, lhe transmite, antes de fazer uma declaração amorosa, olhares e expressões emocionais adequadas conforme o desejado e, após trocas de sinais/emocionais, os dois sairão por aí abraçados.
Em resumo: os mal-entendidos na compreensão dos sinais de comunicação emocional são mais raros que os acertos. Se acontecesse o contrário — mais erros que acertos — o ser humano estaria possuído por um mecanismo interno inadequado, seja para expressar as emoções, seja para decifrar as mensagens emocionais recebidas dos outros. Ainda não chegamos nisso, felizmente, pois nossos genes ainda comandam, com sucesso, nossa expressão emocional e nossa aprendizagem e sintonização das expressões.
A expressão corporal das emoções, bem como a rotulação adequada, têm uma importante função na coordenação social, juntamente com a mímica e a fala. Diante das emoções expressas, o receptor se prepara para aproximar-se ou afastar-se, conforme ele traduz o percebido no emissor da mensagem.
Expressão das emoções
A expressão das emoções é produzida pela exibição de posturas, gestos e expressões faciais, típicas de uma ou outra emoção, ou seja, não há necessidade da linguagem. Mas, muitas vezes, a expressão, uma vez controlada, é usada para esconder as emoções reais subjacentes, como mostra a frase: “Pode ficar certo! Não estou com raiva de você! Estou tremendo à-toa”.
Um espanto diante de um fato inusitado é geralmente seguido da colocação de ambas as mãos no rosto. A tristeza é expressa pelo choro, voz baixa e lenta, o corpo encurvado e idéias repetidas, pobres e com poucos detalhes. Na euforia, o contrário ocorre: predomina a voz alta, as idéias rápidas, o corpo empinado e muitos gestos. Na raiva há também a voz elevada e certas palavras especiais agressivas são pronunciadas e acompanhadas de mudança da cor da pele, tremores, etc. Nas emoções do medo aparece a palidez, secura na boca, respiração ofegante, etc.
Assim, através das emoções, forma-se e coordena-se um tipo de relacionamento onde cada um ocupa seu papel. Em grande parte a ordem da família e mesmo da sociedade dependem das informações imediata e diretamente percebidas, não-verbais e, algumas vezes, inatas.
Aprendizagem emocional
As pessoas aprendem, diferentemente, tanto a se expressarem como a traduzirem ou decodificaram os sentimentos constatados em si mesmos e também nas outras pessoas. As emoções secundárias (vergonha, ciúme, culpa), acessíveis somente para seu portador, são aprendidas na cultura, e são, portanto, diferentes das inatas (raiva, medo, esperança, tristeza, etc.) que todos têm mais ou menos iguais.
A aprendizagem emocional se submete a uma espécie diferente de aprendizagem social, que é a aprendizagem que diz respeito ao conhecimento acerca dos eventos e dos fatos externos. Estes são abertamente acessíveis a todos de modo semelhante. Nós aprendemos acerca dos sentimentos, que são nossos e individuais, apenas de forma indireta.
As crianças aprendem acerca dos seus sentimentos e das emoções experimentadas subjetivamente, em grande parte, através das informações e ou respostas dadas pelas pessoas que convivem com elas, principalmente pelos adultos, que, além de reagirem às emoções das crianças, as classificam, isto é, dão nomes a cada uma delas. Essa conduta, em resposta às expressões emocionais e aos sentimentos exibidos explícita ou implicitamente pela criança — comentários ou condutas abertas da pessoa que se encontra próximo — fornece informações de seus processos corporais.
Uma segunda forma de aprendizagem da criança decorre da imitação da conduta emocional dos pais, irmãos e companheiros.
Por último, as crianças, bem como os adultos, são altamente atraídas para as representações da mídia, particularmente os sentimentos expressos nas condutas sexuais e agressivas, mais difíceis de serem trabalhadas interpessoalmente. Há um interesse intrínseco, uma grande curiosidade acerca de experiência das emoções e dos sentimentos nossos e dos outros, da mesma forma que há para os outros tipos de conhecimentos de nossa experiência diária. Isto explica a fascinação que temos, tanto para com os sentimentos positivos, como para os negativos, ou seja, pelas emoções mostradas na comunicação da mídia, do drama, filme, literatura, etc.
São esses vários processos que conduzem as crianças a aprenderem a se rotularem e a se preocuparem com as experiências próprias acerca das emoções, sentimentos e desejos. Crianças diferentes aprendem ou fracassam, de modo diverso, a rotularem os sentimentos e desejos percebidos internamente, bem como o de outras pessoas.
Um déficit na educação emocional conduz a uma espécie de desamparo emocional que pode contribuir para que a pessoa não consiga se expressar para ser entendida pelas outras pessoas que a cercam e, também, pode não captar os sentimentos expressos pelas pessoas com as quais convive.
Conhecemos nossos sentimentos através da nossa maior ou menor habilidade e capacidade para captar e focalizar nossa desarmonia interna e, na maioria das vezes, fazer uso dos rótulos linguísticos existentes na cultura onde vivemos.
Variações nas expressões emocionais
Há também uma variação de conduta quanto às respostas diante do aparecimento das emoções. Um indivíduo fica quieto devido a um fracasso e tristeza, outro grita e chora, outro quebra o que vê pela frente, etc.
Há variação também na exibição e seguimento das regras culturais acerca da rotulação. O que um chama de “deprimido”, um outro pode chamar de “nervosismo” e um outro ainda de “encosto”. Além disso, há uma variação quanto ao local onde os sentimentos são experimentados: um mostra certos sentimentos em casa, outro na igreja, outro, ainda, na escola, etc.
Há continuadamente uma ativação cognitiva dos sistemas emocional-motivacionais. Assim, com frequência, nossas emoções são ativadas através das emoções de outros (emoções vicariantes); pela identificação com certo indivíduo dominado pelas emoções e sentimentos que observamos, ouvimos ou lemos relatos; a esperança de se chegar onde se deseja, bem como as ações dirigidas para isso com produção dos neurotransmissores, como dopamina e noradrenalina; durante a consumação do desejado como a comida, a vitória, conquista, etc., que nesse caso produz endorfinas ou opióides endógenos; durante o amar, de preferência apaixonadamente, que leva à produção de oxitocina. Assim aprendemos acerca de nós mesmos, infelizmente, um aprendizado que é, muitas vezes, tragicamente errado.
Homem e mulher
Tenho uma suposição. Penso que, somente muito raramente, os homens têm medo físico das mulheres (têm medo de perdê-las). Eles as agridem e as assaltam sem nenhum cuidado ou timidez. Por outro lado, um macho tem medo e raiva de outro macho, emoções essas que dizem respeito ao organismo subcortical. Um homem pode gostar do outro através do intelecto e da razão, não naturalmente. Por isso, uma cara “fechada”, um tom de voz de certo modo e um levantamento do tórax geralmente amedronta outro homem. Sei que é uma hipótese, alguém interessado poderá testá-la. Sei ainda que essa postura do macho (medo e raiva do outro macho) é encontrada em todos os mamíferos. Portanto, fica a pergunta: Só não existiria entre os homens?