O vilão do mar

Pesquisa global de lixo nos oceanos aponta que 35% do plástico consumido são descartados após 20 minutos de uso 
A cada ano, 250 milhões de toneladas de plástico são produzidas em todo o mundo. Desse total, cerca de 35% são usados apenas uma vez. Com o descarte, 25 milhões de toneladas têm como destino final os oceanos do planeta. Quem fez o alerta foi o chefe da expedição suíça “Race for Water Odyssey”, Marco Simeoni, durante o lançamento da campanha “Mar sem Lixo. Mar da Gente”. Ambas são promovidas pela swissnex Brazil, rede que conecta o nosso país e a Suíça por meio da ciência, e a swissando, agência que atua promovendo o país europeu entre os brasileiros.
O objetivo da “Race for Water Odyssey” foi elaborar uma avaliação mundial das áreas com poluição por plástico. A expedição passa por 12 praias e ilhas que ficam dentro dos cinco vórtices de lixo principais. As ilhas, que agem como uma espécie de barreira natural contra o movimento do vórtice, acumulam o lixo em seus litorais. Assim, suas praias se tornam uma amostra conveniente e representativa dos tipos e da quantidade de lixo encontrada em águas próximas.
Durante oito meses, a expedição realizou o primeiro levantamento global de lixo nos oceanos com a expedição. Os números são assustadores: 80% do plástico encontrado no mar têm origem em atividades em terra e que se concentram em cinco regiões específicas: Atlântico Norte, Atlântico Sul, Pacífico Norte, Pacífico Sul e Índico.
“O problema dos plásticos nos oceanos é que o material se quebra em micropartículas que são ingeridas por peixes e pássaros”, explica Simeoni. “Os animais confundem isso com comida. No Havaí, por exemplo, 87% dos pássaros mapeados no local tinham plástico no estômago. O pior de tudo é que essas partículas são tão pequenas que é inviável fazer uma limpeza disso no mar.” Anualmente, um milhão de aves morrem por conta dos plásticos, seja por ingestão ou presos neles.
Ao ingerir o material, os animais contaminam-se com substâncias químicas liberadas no organismo. Atualmente, metade da população mundial consome peixes e animais marinhos e, se nada for feito até a próxima década, haverá um quilo de plástico para cada três quilos de peixes nos oceanos.
Ele relata que uma das constatações mais surpreendentes (e tristes) da equipe durante a pesquisa foi detectar a presença de lixo plástico em áreas remotas, sem a presença humana, fora das áreas de sujeira no oceano. “Visitamos Koror, uma ilha paradisíaca em Palau (Micronésia), no Oceano Índico, que é uma área de preservação. Vimos garrafas plásticas, sapatos, isqueiros, entre outros tipos de materiais plásticos”, comenta.
Resultados preliminares obtidos nas primeiras paradas, nas ilhas de lixo do Atlântico Norte e do Pacífico Sul, indicam que os resíduos estão amplamente espalhados em paisagens oceânicas remotas. Entre redes de pesca e cordas, o plástico representou 84% do material coletado nos Açores, 70% em Bermuda e 91% na Ilha de Páscoa. Espumas, cápsulas, filmes e filtros de cigarro também foram encontrados nesses locais. As análises estão sendo realizadas pelo Laboratório de Meio Ambiente da Escola Politécnica Federal de Lausanne (CEL/EPFL).
 As cinco áreas de lixo pelas quais a expedição “Race for Water” passou totalizam 15,9 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a quase duas vezes o território do Brasil. A mancha mais próxima ao território brasileiro, no Atlântico Sul, tem 1,3 milhão de quilômetros quadrados, área equivalente a quase 30 vezes o estado do Rio de Janeiro. 
Oceano impactado
Quando o lixo plástico é jogado no mar, ele flutua e viaja com as correntes marítimas. Esse material, que se decompõe lentamente na água, pode passar anos viajando em alto mar até se aglomerar em vórtices de lixo. Esses enormes redemoinhos são produzidos pela circulação oceânica, cujo movimento lento e rotatório cria áreas relativamente calmas, onde os detritos se acumulam.
Estima-se que a soma das áreas desses lixões de plástico nos oceanos — ou sopas de lixo — seja de mais de 15 milhões de quilômetros quadrados. O mais próximo do Brasil, no Atlântico Sul, fica a uma distância de 3,3 mil km do Sul do país. Acredita-se que o lixo ocupe uma área de 1,3 milhão de quilômetros quadrados. O maior sopão de lixo marinho é o do Pacífico Norte, com mais de três milhões de quilômetros quadrados.
A expedição desmitificou a falsa ideia de que as ilhas de lixo eram sólidas, consistentes. Os pesquisadores perceberam que, na verdade, as manchas de resíduo flutuante nos oceanos guardam mais semelhança com uma sopa do que com uma ilha.
O mapeamento preciso dessas áreas é tarefa complexa. A documentação, mesmo com fotos aéreas, é dificultada porque o lixo plástico se deteriora através de um processo químico e forma pequenos fragmentos, tornando-se quase imperceptível a olho nu.
Vinte por cento dos lixos flutuantes são resultado da atividade humana no mar (tráfego marítimo, pesca, aquicultura, plataformas de petróleo) e 80%, em terra (atividades domésticas, agrícolas e industriais).
São inúmeros os impactos negativos desse tipo de poluição nos ecossistemas marinhos e na população humana: ingestão de plástico, enroscamento de animais, colonização de espécies invasoras trazidas pelo lixo, aumento de vetores de substâncias tóxicas contaminantes da cadeia alimentar (que em algum momento são consumidas por seres humanos).
 Mais de três bilhões de pessoas dependem do oceano para sua subsistência.
Saiba mais: 
www.swissnexbrazil.org
swissando.com.br

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