Palestra do escritor Luis Fernando Veríssimo no encerramento do XIX Congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Há quem diga que o único humanista autêntico é o canibal. Seu amor pela humanidade é o mesmo amor que temos por um bom bife, e é sincero. Já o humanismo na sua forma não antropofágica é mais difícil de classificar. O que é, afinal, um humanista? A própria palavra “humanismo” tem interpretações e conotações diferentes. No dicionário, ela é descrita como uma doutrina segundo a qual a verdade ou falsidade de um conhecimento se definem em função da sua eficácia relativamente à ação humana, e afirma que o ser humano é o criador dos seus próprios valores morais. O que não ajuda muito. Melhor, ou mais simples, seria dizer que para um humanista o ser humano é, ou deve ser, a medida de todas as coisas, e assim como o sistema métrico que mede o mundo teve origem nas dimensões do corpo humano, todos os sistemas éticos e morais do mundo devem obedecer à primazia do humano. Ou seja: ser humanista é não reconhecer nenhum determinante metafísico, nenhuma interferência divina, no ser humano e nas suas circunstâncias.
Mas estas interpretações não cobrem todos os significados de “humanismo”. A própria história do humanismo é discutível. Sua origem seria na Renascença, quando as trevas da Idade Média retrocederam diante da descoberta do mundo clássico. E não só as pinturas e esculturas de Michelangelo, Leonardo e outros glorificaram o corpo humano redescoberto como a glória da Grécia antiga, berço da democracia e da filosofia, também voltou à luz do dia depois da noite medieval. Mas a arte da Renascença foi toda feita em louvor e com o subsídio da Igreja, seus temas predominantes eram os santos, os mártires e os mitos da Igreja e dificilmente se encontraria um humanista, mesmo camuflado, entre os seus praticantes. E antes de se exaltar a Grécia antiga como um ideal de virtudes cívicas e de civilização, é bom não esquecer que aquela era uma sociedade escravocrata, também um mau exemplo de humanismo. O humanismo autêntico seria então um subproduto do Iluminismo do Século 18, e sua origem estaria no pensamento iconoclasta de alguns hereges notáveis, como Voltaire, Diderot, Descartes, aquela turma. Mas até hoje se debate a ligação direta entre o Iluminismo e o terror que se seguiu à revolução francesa, e se a Idade da Razão não gerou um monstro em vez de uma sociedade iluminada. O mesmo pode-se dizer de Marx e dos outros filósofos dedicados a mudar o mundo e a História em vez de apenas entendê-los, e cuja generosa proposta socialista de igualdade e fraternidade universal desaguou no totalitarismo e no terror stalinista.
O escritor e satirista Karl Kraus, talvez o mais vienense de todos os vienenses, escreveu certa vez que na Áustria, nos estertores do império austro-húngaro, estava acontecendo um ensaio do fim do mundo. Na verdade, o que tomava forma em Viena no começo do século 20 era um novo mundo. O colapso do Império dos Habsburg coincidiu com duas novidades de certa forma opostas no espírito europeu e na História do mundo: o fascismo e a psicanálise. Dizem que a História do mundo teria sido outra se Hitler tivesse se tratado com seu contemporâneo e conterrâneo Freud, mas infelizmente o encontro nunca se deu. Freud era um humanista, mas assim como suas teorias sobre patologia e neuroses coletivas nada fizeram para deter o pesadelo nazista que se iniciava, suas descobertas sobre o inconsciente humano em nada ajudaram o humanismo. Pois o que ele dizia era que o ser humano não devia sua existência e seu destino à interferência divina, mas era regido por forças imateriais, quase que por uma metafísica interna, que desconhecia tanto quanto aos desígnios de Deus. O ser humano não era a medida de todas as coisas. O ser humano, seus recônditos obscuros e os mistérios do seu ego eram a medida de todas as coisas.
O que significa se um humanista, hoje?! Ao contrário dos canibais, que sabem do que gostam, não temos muita certeza que a humanidade nos apeteça, depois de tudo que ela aprontou. Continuamos preferindo a lógica e a razão a qualquer tipo de supertição ou pensamento mágico, mas com a consciência de que cada vez mais humanos preferem o contrário. A divisão entre ricos e pobres aumenta, uma superprodução de alimentos convive com a fome endêmica no mesmo planeta há anos, a intransigência e o fanatismo religioso conflagram regiões inteiras — tudo prova que o humanismo está longe das sedes do poder e dos princípios da maioria. E muito longe de ser uma doutrina viável, ou mesmo um sonho para um outro tempo. Talvez a solução seja o humanismo se reconciliar com a metafísica e rezar por uma interferência divina para não desaparecer. Ou talvez eu esteja sendo muito pessimista e um Congresso como este que termina hoje seja prova de que o humanismo do passado tem futuro.
Luís Fernando Veríssimo
Brasília — DF — Brasil
12 de julho de 2013