“Quanto mais dinheiro, mais felicidade talvez seja a maior mentira do capitalismo”

A psiquiatra Ana Beatriz Silva estuda há anos a compulsão por compras, um mal que acomete cerca de seis milhões de brasileiros e tem muito a ver com a forma como vivemos

É bem comum ouvirmos histórias de descontrole financeiro. Quem não conhece alguém que já ficou no vermelho? Porém, por trás dessa aparente falta de disciplina pode se esconder um problema bem mais grave e complexo: a compulsão por compras. Considerada uma doença pela medicina, ela acomete cerca de seis milhões de brasileiros, o equivalente a 3% da população, segundo estimativas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. A psiquiatra Ana Beatriz Silva, autora do livro Mentes Consumistas (Editora Globo), estuda o vício por compras há anos. E garante: ele tem muito em comum com a dependência química. O consumidor compulsivo, assim como um usuário de drogas, busca a sensação de prazer imediato. Para ele, alcançada ao se adquirir um bem material.

Mas como perceber se a conta bancária no vermelho é sinal de uma compulsão? “A diferença é que os compradores compulsivos extraem o prazer do ato da compra “, diz Ana Beatriz. Os bens muitas vezes nem chegam a ser utilizados e são frequentemente esquecidos num canto qualquer.

Para além das implicações psicológicas, a doença, na opinião da psiquiatra, revela uma face da sociedade que precisa ser repensada. Os compulsivos por compras costumam julgar sua identidade pelo que podem adquirir e oferecer aos demais. “Há atualmente uma confusão entre o que é ser e ter. Nunca o ser humano teve tanto acesso a bens materiais, mas isso não o fez mais feliz”. Na entrevista abaixo, Ana Beatriz ensina como reconhecer os sinais do consumo compulsivo, aponta caminhos para o tratamento da doença e levanta questões relevantes sobre o futuro do sistema capitalista.

Quando o tema das compras compulsivas te chamou a atenção?
 Até 2001, eu tratava dependência química. Quando ocorreu a explosão das drogas sintéticas, decidi trocar de área. Passei a me dedicar a transtornos de ansiedade, pânico, depressão, déficit de atenção, TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Começaram então a chegar vários pacientes — cada vez mais a partir de 2005 — reclamando de depressão. Eles estavam altamente endividados e escondiam da família. Não é que estivessem de fato deprimidos. Estavam desesperados. Queriam uma maneira de contar para os parentes. A reação deles em relação às compras era muito parecida à de um dependente químico quando não tinha droga, de abstinência. Comecei a ver que a dependência química não guarda diferença com a de comportamentos. Podemos ser tanto viciados em drogas, como em jogo, comida e compras.

Como é possível diferenciar alguém que fica no vermelho por desorganização de um viciado em compras?
 Todos temos que consumir. Não existe mais a possibilidade de vivermos de escambo. Mas hoje com certeza consumimos muito mais do que precisamos. Na cultura ocidental, todos somos consumistas. A compulsão ocorre quando esse consumismo vai a um grau máximo e resulta em transtornos na vida financeira e familiar. É aquela pessoa que deixa as compras na mala do carro e só sobe com elas quando não tem ninguém em casa. O prazer, neste caso, não está em ter aquele objeto, mas no ato de comprar. Naquele momento em que a pessoa, igualzinho ao que acontece com uma droga, é tomada por uma sensação de euforia momentânea.

Como a publicidade contribui para o consumismo?
 O marketing evoluiu profundamente no estudo do cérebro. Um grande publicitário hoje entende de neurociência. O que o cérebro pode fantasiar ele passa a desejar. Isso é uma fraqueza. Para o cérebro, não existe o real e o virtual. Tudo o que você pode imaginar, ele é capaz de achar que está sendo vivenciado. É muito fácil tapeá-lo e toda a nossa estrutura de consumo é feita em cima do imaginário. Várias lojas, por exemplo, têm fragrâncias. O olfato é o nosso sentido mais primitivo. Ele não passa pelo nosso racional. É um artífico que mais do que qualquer outro faz com que a gente compre mais. Foi por isso que a indústria automobilística criou o cheirinho de carro zero. Assim como tem cheirinho de pão quentinho em lugares que não vendem pão.

O que costuma levar ao consumo excessivo?
 O nosso sistema econômico social influencia muito. Nele, as pessoas são praticamente obrigadas a comprar determinadas grifes, para ter uma identidade. Acho que nunca a questão social influenciou tanto. A maior prova disso foi aquele fenômeno do rolezinho. No começo, achou-se que era uma manifestação de protesto, mas na verdade era uma garotada que ia para lá vestir grifes. Não tinha nada a ver com um protesto. Eram jovens tentando se reafirmar socialmente, a partir de determinado tipo de consumo. Além da influência social, há também um tipo de personalidade que é mais predisposto ao descontrole. A pessoa precisa ter um componente impulsivo. Todo comprador compulsivo tem uma parte da personalidade impulsiva. Mas ele precisa ser mais do que impulsivo para virar um comprador compulsivo. Ele precisa que esse ato de comprar se torne uma obsessão. O impulso faz você comprar, mas é a obsessão que faz você repetir a compra e cada vez querer comprar mais.

Quais estratégias podem ser usadas para combater a compulsão por compras?
 Faço os pacientes darem todos seus cartões de crédito, que são cortados. Geralmente, as mulheres põem a mão no pescoço, como se estivessem tirando um cordão de pérola dela quando isso acontece. O gerente do banco também é avisado para também não dar mais crédito ao paciente. O compulsivo passa a ter uma quantia determinada para administrar por semana. Essas pessoas têm um perfil impulsivo e obsessivo. Existem substâncias cerebrais responsáveis por isso que precisam ser equilbradas com medicação. A dopamina, por exemplo, controla a impulsividade. Pessoas com uma baixa taxa de dopamina tendem a ser compulsivas. Seja em relação a drogas, sexo, internet ou compras. Já a serotonina é a responsável pelo controle dos pensamentos obsessivos.

Algo mais?
 Faz parte do tratamento a pessoa refazer seu conceito de felicidade. No mundo capitalista, uma verdade que nos foi propagada é que quanto maior nosso poder aquisitivo, maior será a nossa felicidade. Essa talvez seja a maior mentira do capitalismo. Mas é uma coisa que ninguém questiona. Pesquisas já mostraram que a felicidade de fato tem um componente material, porém só até determinado ponto. Até você suprir suas necessidades básicas e principalmente as necessidades do grupo social em que vive. Uma vez que isso é atendido a felicidade não cresce mais proporcionalmente. Chega uma hora em que isso não faz mais diferença, porque tudo pode ser consumido. Nunca tivemos tantas pessoas no mundo com acesso a bens materiais e nunca tivemos tantas depressões, compulsões, tanta gente insatisfeita. Em breve, teremos que rever nosso conceito de felicidade.

O que pode desencadear um comportamento consumista?
 Remédio para emagrecer. Muitos deles têm estimulantes. Dietas malucas. A hipoglicemia dá ansiedade. Outros fatores são problemas com o filho, brigas conjugais ou com amigos, frustrações. Você nunca deve fazer compras alegre ou triste demais.

Quais são os truques mais eficientes do marketing?
 O grande truque é vender ilusão, fantasia. Quer um exemplo? Venda de xampu. Nos anúncios, os cabelos das mulheres ficam maravilhosos e a gente compra o xampu já sabendo que nosso cabelo não tem como ficar daquele jeito. Talvez o xampu seja a maior propaganda enganosa que existe. Já o grande truque para se defender é não deixar o emocional tomar a decisão de compra e, sim, o racional. Hoje, nas lojas, além do ofalto, a música também estimula o consumo. Um som tecno acelera os batimentos cardíacos e, ao acelerá-lo, há uma liberação de adrenalina no organismo que tem um efeito estimulante. O marketing também costuma criar “confusões” para chamar a atenção para determinada loja, porque o ser humano tem comportamento de manada. Eu, por exemplo, não faço compras de Natal em dezembro. Compro tudo até 15 de outubro.

A publicidade infantil também é relevante para formar consumistas?
 A indústria infantil nos EUA roda US$ 50 bilhões por ano. Nunca se criou tanta coisa para crianças. Descobriu-se que no atual modelo de família elas influenciam nas decisões de 60% a 80% do consumo de uma casa. E não é só no Danoninho que se compra. É no carro, na TV. Na roupa dos pais. É uma sacada genial do marketing. Ao investir no consumidor infantil, você já faz o compulsivo do futuro. É um super investimento.

Em seu livro, a senhora defende que as redes sociais estimulam um comportamento consumista. Como?
 As pessoas hoje postam nas redes sociais o que vestem, o que comem … Cria-se quase um perfil que você tem que satisfazer. Os internautas passaram a estabelecer dentro das redes sociais o que é chique, o que não é. Vão jantar e fotografam o prato, o vinho. Claro que isso estimula o consumo. E tem muita gente ali que nem sequer usa aquilo tudo, mas quando usa posta, como se aquilo fosse uma coisa rotineira. Tem gente que até paga por seguidores. Empresas oferecem curtidas por mês e fazem anúncio dizendo que isso irá torná-lo importante. Como eu vou ficar importante de ter fantasma me seguindo?

O ramo de estudo do consumo compulsivo é novo dentro da psiquiatria?
 Não é novo. Ele surgiu com a evolução do capitalismo. O capitalismo é um sistema feito para gerar consumidores, no mínimo, excessivos. O objetivo do capitalismo é gerar lucro. Para isso, é preciso consumir muito, por isso tudo tem que ser descartável. Cada vez mais os produtos são datados. Antes, os carros passavam dez anos com a mesma aparência. Hoje, mudam de ano em ano. O celular de seis em seis meses. O processo de geração de lucro está indo tão longe que as pessoas não percebem que no capitalismo, além de sermos um consumidor de produtos, também viramos um produto. Por que as pessoas ficam desesperadas para fazer plástica? Porque se somos um produto, precisamos ser reciclados também. O grande desafio desse sistema é ser um produto durável e valorizado por qualidade. A Marisa Monte é um produto, mas ela sabe ser um produto. Ela se fez um produto que só aparece de dois em dois anos, sempre com um trabalho novo. Sempre criando expectativa. Ela preserva a imagem dela profundamente nesse intervalo. E a gente sempre quer a Marisa Monte.

Se somos todos produtos, então tudo tem um preço?
 Estamos chegando a um ponto onde tudo tem um preço. Quanto custa uma barriga de aluguel? Na Índia, US$ 10 mil. Um rim? US$ 5 mil, também na Índia. Assim que saiu o iPad há uns anos, um adolescente chinês estava vendendo um rim para comprá-lo. O capitalismo terá que ser revisto. De fato, ele é o sistema que mais conseguiu distribuir renda e gerar conforto para a população mundial. Mas há de haver um código para preservar a ética do mercado. Que situação é essa em que tudo tem um preço? Não pode. Qual o preço da moral?

Você é pessimista em relação ao futuro?
 Não. Esse sistema está se esgotando, porque ele não gera mais a tal da felicidade. O que cresceu proporcionalmente ao poder aquisitivo foi a violência e a corrupção. E de uma forma geométrica. A própria crise de 2008 nos EUA não foi uma crise por falta de dinheiro, mas por blefe, por mentira. Na realidade, é uma crise de valor, de ética. A China é uma potência que vive de trabalho escravo, mas ninguém faz nada. É uma ditadura absurda e a gente finge que não vê. Mas acho que vamos chegar a um esgotamento disso. No Brasil, creio que isso vá acontecer nos próximos dois anos, porque essa bolha de consumo que vivemos vai estourar. É uma questão de tempo. A minha esperança é que, ao buscar um sentido que não seja apenas material, a gente possa evoluir em valores, altruísmo e descobrir realmente quais são as coisas que o dinheiro não compra.

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