WERNER FREUND — A INCRÍVEL HISTÓRIA DO HOMEM QUE VIVE COM LOBOS

O que pensar quando o comportamento dos animais foge do esperado e nos surpreende? Haverá algo de humano neles como há algo deles em nós? Afinal temos uma partícula selvagem perdida em nossa origem, em nosso DNA. Lobos são selvagens, carnívoros, caçadores, matam a presa sem piedade, mas seus motivos, diferente dos humanos, são apenas instintivos. Mas na escala evolutiva, o homem está no topo, e na cadeia alimentar o homem é sempre o maior predador, de lobos e de homens.

O lobo se encontra em várias lendas e mitos antigos. Na Roma antiga seus fundadores, os gêmeos Rômulo e Remo, teriam sido amamentados por uma loba. Na mitologia nórdica, o lobo é um símbolo de vitória, quando montado por Odin e as Valquírias sobre o campo de batalha. Para o povo Celta o lobo era uma fonte de energia lunar. Já para os povos nativos norte americanos, é um símbolo espiritual poderoso, acreditam que os espíritos dos antepassados perambulam na forma de lobos. Ele também tem lugar na mitologia chinesa, onde o criador das dinastias chinesa e mongol é o Lobo azul celeste, e onde Gêngis Khan era chamado de “Lobo das Planícies”.

Desde criança ouvimos falar do “lobo mau” da estória de Chapeuzinho Vermelho, nos fazendo crer que não há lobo senão mau. E quem nunca ouviu falar da lenda do lobisomem, muito conhecida no Brasil, onde em noites de lua cheia um homem se transforma em lobo e sai para atacar pessoas? Mas os lobos são na verdade animais muito sociáveis entre si, e socialmente organizados. Possuem uma distinta forma de comunicação usando o tato, movimentos corporais, contato com os olhos e muitas expressões vocais complexas. O homem costuma ter pelo lobo uma mistura de medo e indignação, por não ter conseguido domesticá-lo como aos cães, seus descendentes. Lobos continuam a caminhar altivos e livres.
Werner Freund, um ex-paraquedista alemão de 79 anos, e agora pesquisador de lobos, tem um dom especial: ele pode se dar tão bem com os lobos, que é quase como se fosse um membro de sua matilha. Na verdade, há 40 anos começou a viver entre lobos e criá-los em seu santuário “Wolfspark”, localizado em Merzig, na província alemã do Sarre. A estreita relação entre Werner e seus lobos é bastante óbvia, o que se nota pelas fotos dele recostando-se sobre os pés traseiros e uivando, e dos animais selvagens que comem carne diretamente de sua boca.
Werner diz que os lobos são uma espécie geralmente temida e a chance de entrar em seu território e sair com vida é muito pequena. O parque é habitado por lobos de seis espécies diferentes ao redor do mundo, incluindo Sibéria, Ártico, Canadá, Europa e Mongólia. Os animais vêm comer a carne crua da sua própria boca, e embora pareça desnecessário, é a forma que ele tem de selar sua posição como macho alfa da matilha e a certeza de ter o respeito do grupo. No mundo animal o macho alfa é quem recebe o primeiro pedaço da carne, enquanto os outros esperam pacientemente e só avançam na carne uma vez que ele permite que façam. Quando os lobos não estão se alimentando, eles brincam com Werner e com alegria lambem seu rosto como um sinal de subserviência e reconhecimento.”Se eu não viver como um lobo real, eu nunca serei capaz de me conectar com os lobos”, diz ele. Percebi logo que os lobos dominantes se comportam arrogantemente com o resto. Como um ser humano, não sou arrogante, mas como um lobo eu sou. É a única maneira de manter a minha posição a frente do pelotão”. Então fica de quatro, rosna para um lobo ameaçador, desvia o olhar indiferente quando se aproxima um provocador e às vezes até mesmo recorre a mordidas.
Werner diz não se meter nas disputas internas do grupo, pois a matilha muda frequentemente a posição de poder, portanto ele fica sempre atento para qualquer sinal que o possa alertar sobre uma mudança em sua posição. Aos olhos da matilha ele ainda é um estranho, mas com o lugar exclusivo logo acima do macho alfa, o único lobo com o qual Werner tem mais cautela no tratamento.

“Quando eu entro em seu território cercado, só me dirijo para o lobo alfa ou seu companheiro. Se eu for para os outros, pode ser lido como um ataque. Eu não quero desafiar suas hierarquias. O que eles fazem é problema deles e eu tento não me envolver em suas brigas. Se dois lobos se desentenderem e eu me meter entre eles a coisa pode ficar muito difícil para mim.”
Werner criou o santuário de 25 hectares em 1972, e já cuidou de muitos animais desde então. Atualmente, existem cerca de 29 deles no Wolfspark.
“Sim, eu sou um animal”, diz ele bastante animado.”Quando não estou com os lobos, é claro que eu sou humano, mas com os lobos, eu sou um lobo.”